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Perseguida pela ditadura, banda Ave Sangria é enfim anistiada após 52 anos

Governo Lula pede desculpas aos membros remanescentes da banda pernambucana, censurada em 1974 por uma canção que falava do amor homossexual

Capa do disco do Ave Sangria censurado pela ditadura em 1974
Da Redação
30 de março de 2026, 21h34

Uma das expoentes da psicodelia nordestina nos anos 1970, a banda pernambucana Ave Sangria foi finalmente anistiada pelo governo brasileiro 52 anos após ter seu disco de estreia censurado pela ditadura militar. Em 1974, o grande “problema” que os militares viram no disco foi a canção Seu Waldir, que eles consideraram ser “apologia ao homossexualismo” (sic).

O Ave Sangria em 1974

Banido das lojas e proibido de tocar nas rádios, o disco do Ave Sangria, atualmente um clássico (e uma raridade), foi retirado de circulação e a banda acabou se dissolvendo. A letra que incomodou tanto a ditadura conta, com muito bom humor, a história de amor entre dois homens e ainda é super atual. Certamente continua incomodando os extremistas de direita de hoje em dia.

Seu Waldir, o senhor
Magoou meu coração
Fazer isso comigo, Seu Waldir
Isso não se faz, não

Eu trago dentro do peito
Um coração apaixonado
Batendo pelo senhor
O senhor tem que dar um jeito
Se não eu vou cometer um suicídio
Nos dentes de um ofídio vou morrer

Eu falo tudo isso
Pois sei que o senhor
Está gamadão em mim
Eu quero ser o seu brinquedo favorito
Seu apito, sua camisa de cetim

Mas o senhor precisa ser mais decidido
E demonstrar que corresponde ao meu amor
Pode crer
Se não eu vou chorar muito, Seu Waldir
Pensando que vou lhe perder
Seu Waldir, meu amor

“A música Seu Waldir foi considerada pela repressão um incentivo à homossexualidade”, disse o conselheiro Manoel Severino Moraes de Almeida ao portal G1. “A ditadura era homofóbica, tratava a questão da moral e dos costumes fazendo com que as manifestações culturais precisassem passar pela censura prévia e foi exatamente aí onde o grupo enfrentou suas maiores dificuldades.”

A canção acabou regravada por Ney Matogrosso em 1981. O Ave Sangria passaria anos esquecido, até que, em 2014, em comemoração aos 40 anos do álbum censurado, se reuniu novamente para alguns shows. Em 2019, o grupo lançou um segundo disco, Vendavais, com 11 músicas inéditas, mas compostas também nos anos 1970. O novo álbum foi premiado pela APCA (Associação Paulista dos Críticos de Arte) como um dos melhores discos daquele ano.

O reconhecimento ao Ave Sangria ocorre dentro do regime de anistiado político, criado pela Constituição de 1988 e regulamentado pela Lei 10.559, de 2002. O governo Lula pediu formalmente desculpas em nome do Estado brasileiro aos músicos, que passarão a receber uma pensão mensal e vitalícia de 2 mil reais, além de uma indenização ainda a ser calculada. Foram contemplados o vocalista Marco Polo, o baixista Almir Oliveira e a viúva do baterista Agrício Noya, Kátia Regina Cruz.

Assistam à entrevista que Cynara Menezes fez em 2021 com Marco Polo contando a história da banda.

 


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(3) comentários Escrever comentário

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felipe puxirum em 31/03/2026 - 10h41 comentou:

no território mais emponderado
por metro quadrado em culturas
pedir tais desculpas seria válido
se fosse para mudar a estrutura
que mantém artista domesticado
sob o mercado e suas ditaduras
assim me vejo “pernambucado”
apesar da indústria das culturas
na armadura que impõe o estado
desvirtuando a arte em censura!

Responder

Daniel Paula em 26/04/2026 - 15h29 comentou:

A ditadura terminou, mas a mamata parece ser eterna.

O texto é um exemplo clássico da eterna ginástica moral para transformar um disco censurado há meio século num lucrativo subsídio vitalício!

Vamos por partes:

1 – É inegável que a censura de 1974 foi atroz e prejudicou a banda. Contudo, alegar que a repressão os incapacitou de trabalhar e se sustentarem para sempre é um malabarismo vitimista.

2 – O art. 8º do ADCT da Constituição (CF/88) e a Lei 10.559/2002 visam reparar quem foi estritamente impedido de exercer a sua atividade laboral, e não criar um seguro vitalício contra o fracasso comercial a longo prazo.

3 – Me poupe da falácia sobre as pensões militares: o fato de existirem privilégios fardados inaceitáveis não legitima a criação de novas boquinhas para artistas. O abuso de um lado não santifica a mamata do outro.

4 – No fundo, criaram um modelo de negócio imoral: na ausência de talento e viabilidade comercial na classe artística, o Estado financia um subsídio perpétuo e retroativo com os impostos pagos pela classe produtiva!

Enfim, no Brasil, parece que certas interpretações legais operam numa dimensão paralela: a lei que deveria servir para amparar quem foi realmente esmagado pela bota estatal acaba virando um balcão de negócios para quem apenas teve a carreira mal gerida ou um disco esquecido.

Enquanto o cidadão produtivo se perde nos labirintos da burocracia, outros encontram atalhos dourados no orçamento público através de uma retórica de reparação que nunca acaba.

Responder

felipe puxirum em 11/05/2026 - 13h56 comentou:

só mudou tal ditadura
no cenário e na forma
que entre nós continua
a escravidão é a prova!

Responder

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