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Direitos Humanos

O pânico da branquitude diante da liderança negra

Candidato a reitor da UFSB, Richard Santos denuncia a reação sistêmica da branquitude diante da presença negra em espaços de comando

O professor Richard Santos em sala de aula. Foto: acervo pessoal
Richard Santos
28 de outubro de 2025, 14h49

Sou Richard Santos, também conhecido como Big Richard, professor da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB), Pós doutor em cultura e sociedade pela UFBA, Doutor em Ciências Sociais pela UNB, pesquisador e escritor. Em 2023, recebi o título de cidadão de Itabuna, pela câmara de vereadores local. Mas antes dos títulos e das titulações, sou um homem negro que aprendeu, desde cedo, que o saber nasce também da experiência, da cultura e da rua. Fui moldado pela palavra falada do Hip Hop, pela pedagogia dos movimentos sociais e pela escuta das comunidades. É desse lugar — de quem viveu o Brasil real antes de adentrar o Brasil acadêmico — que falo sobre o Contrato Racial, conceito formulado por Charles W. Mills para explicar como as sociedades se organizam a partir de um pacto tácito que reserva poder, prestígio e legitimidade a determinados corpos: os brancos.

Recentemente, o país viu o caso da professora Érica Cristina, doutora em Literatura, cuja posse na USP foi anulada mesmo após ter sido aprovada em primeiro lugar. O episódio, revelado pelo O Globo (16/10/2025), não é um desvio da norma — é a norma em funcionamento. É o contrato racial em ato: a reação sistêmica da branquitude diante da presença negra em espaços de comando. Quando o corpo negro se aproxima do poder, o pacto se agita. Ele precisa restaurar sua “ordem natural”, aquela em que negros são tolerados como exceção, nunca como regra.

Para a branquitude, pouco importam meus títulos de pós-doutor, doutor, os livros publicados no Brasil e no exterior, ou minha contribuição acadêmica e cultural. O que a estrutura enxerga não é a legitimidade do saber, mas a transgressão da cor

O Contrato Racial opera silenciosamente, naturalizando o privilégio. Ele se manifesta na dúvida que recai sobre nossas trajetórias, na desconfiança institucional, na microagressão disfarçada de protocolo. E, para a branquitude, pouco importam meus títulos de pós-doutor, doutor, os livros publicados no Brasil e no exterior, ou minha contribuição acadêmica e cultural. O que a estrutura enxerga não é a legitimidade do saber, mas a transgressão da cor. É o que Clóvis Moura chamou de barragens de peneiramento: mecanismos sutis e eficazes criados para impedir o avanço do negro nas esferas de poder e prestígio.

As barragens de peneiramento funcionam como filtros simbólicos. Deixam passar o talento, mas não a autonomia; permitem a presença, mas bloqueiam a liderança. Moura explica que a sociedade brasileira cria “válvulas de escape” para absorver a energia da rebeldia negra sem jamais transformar sua estrutura racial. Assim, o negro pode ser exemplo, mas não referência; pode ser reconhecido, mas não recompensado. Pode ser professor, mas não reitor. Pode ser convidado, mas não decisor. É um modelo de contenção — e as universidades públicas são, paradoxalmente, seus laboratórios mais sofisticados.

A professora Bárbara Carine, em E eu, não sou eu uma intelectual?, escreve sobre o cotidiano de mulheres negras que vivem sob essa mesma peneira: a necessidade constante de provar sua competência e justificar sua presença. A pesquisadora Carla Akotirene, por sua vez, descreve o medo de abandonar o cargo público para dedicar-se integralmente à pesquisa, pois o ambiente universitário continua sendo um território inseguro para quem carrega na pele o estigma da cor. Ambas, em suas trajetórias, revelam que o contrato racial não é metáfora — é política concreta de exclusão.

Eu mesmo, na disputa pela reitoria da UFSB, tenho sentido essas forças. Sou o único candidato negro retinto entre as chapas, e a reação é previsível: desconfiança, microagressões, campanhas sutis de deslegitimação. Criam narrativas para tentar me enquadrar: ora sou “radical demais”, ora “moderado demais”; ora “militante”, ora “aliançado”. E bastou dialogar com prefeitos de diferentes partidos — um gesto básico de um gestor público — para ser acusado de “alinhamento à direita”. Para o pacto racial, o negro não pode negociar. Ele deve permanecer em resistência, nunca em direção. O negro que governa desorganiza o contrato.

O contrato racial está em crise. Há rachaduras visíveis. O incômodo que a presença negra provoca é o sinal de que o pacto se desmancha. E, como toda estrutura em colapso, ele reage — tenta manchar reputações, fabricar ruídos, lançar suspeitas. Faz parte do desespero da branquitude perder o monopólio da narrativa e do comando

Como mostra Lourenço Cardoso em O Branco Ante a Rebeldia do Desejo, a branquitude teme o negro que deseja, que decide, que se move fora do script. A branquitude tolera o negro dócil, institucionalizado, “decorativo” — aquele que serve para a foto. Mas o negro que age politicamente, que deseja autonomia e autoridade, torna-se insuportável. Por isso, o poder branco recorre à desconfiança, ao isolamento e à deslegitimação — as armas modernas do racismo estrutural.

E há, dentro da própria universidade, o reforço simbólico dessa hierarquia. Colegas que se autoproclamam “ancestrais da educação” reivindicam o direito de governar porque acumulam trinta anos de vida acadêmica — e apenas acadêmica. Mas liderança não é cronologia. Liderar exige vivência, escuta e coragem para atravessar o conflito. A branquitude confunde tempo com sabedoria porque, em sua lógica, o saber é propriedade, não experiência. Eu venho de outro lugar: o da prática, da rua, da favela, da cultura que forma consciências. Fundar a Associação Hip Hop Atitude Consciente (ATICON), participar do CEAP, do AfroReggae, da Cooperifa, da CUFA, não foram atos artísticos — foram atos de política pública, de pedagogia e de reparação social.

As universidades, ao reproduzirem as barragens de peneiramento, cumprem o papel histórico de conter a ascensão plena dos sujeitos negros. Permitem nossa entrada para reafirmar a imagem da democracia racial, mas bloqueiam o acesso ao comando, ao orçamento, à formulação. O mesmo país que exalta Zumbi e Dandara no 20 de Novembro ainda questiona se Érica Cristina merece ser professora da USP; ainda pergunta se um homem negro pode ser reitor; ainda duvida se mulheres negras são intelectuais.

Mas o contrato racial está em crise. Há rachaduras visíveis. O incômodo que a presença negra provoca é o sinal de que o pacto se desmancha. E, como toda estrutura em colapso, ele reage — tenta manchar reputações, fabricar ruídos, lançar suspeitas. Faz parte do desespero da branquitude perder o monopólio da narrativa e do comando. O que estamos fazendo, cada um à sua maneira — Érica, Bárbara, Carla, eu —, é rasurar o contrato com nossas trajetórias. Estamos transformando o silêncio imposto em discurso público, a desconfiança em projeto coletivo, a resistência em gestão.

 

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Defendo uma UFSB mais viva — viva porque plural, porque mestiça, porque antirracista. Uma universidade que não tema o diálogo com o território, que fale com os 60 municípios da sua abrangência, que olhe para o povo e devolva em forma de saber, cultura e inclusão. A universidade viva é aquela que rompe as barragens de peneiramento e deixa fluir o rio inteiro do conhecimento, sem filtros raciais, sem muros ideológicos, sem medo da diferença.

O que fazemos hoje é mais que uma disputa por cargos: é uma disputa por significados. Estamos dizendo que a inteligência negra não precisa de permissão para existir, que o saber das periferias é epistemologia legítima e que a autoridade acadêmica pode ter pele escura e voz firme.

O poder branco se desespera, mas já não é mais onipotente. A história não volta atrás. E se o contrato racial insiste em nos peneirar, o que fazemos é entupir suas barragens com pensamento, com arte, com liderança, com coragem. Porque não há peneira capaz de conter a correnteza da liberdade.

* Professor da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB), pesquisador, escritor e autor de Maioria Minorizada – Um Dispositivo Analítico de Racialidade (Telha, 2020); Branquitude e Televisão – A Nova África (?) na TV Pública (Telha, 2021); Mídia, Colonialismo e Imperialismo Cultural (Telha, 2023); e Comunicação em Disputa: A Luta pelo Imaginário da América Latina na Era Trump (Telha, 2025). Diretor Regional Nordeste da INTERCOM e membro da diretoria da ABTU.


(3) comentários Escrever comentário

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Daniel Paula em 28/10/2025 - 18h04 comentou:

Obrigado, Dr. Richard, por expressar sua opinião sobre um assunto tão importante.

No meu ponto de vista, o pior problema real não é o racismo estrutural, mas o peneiramento ideológico imposto por seus pares.

A esquerda acadêmica criou uma jaula de ouro: o negro só tem valor se for um fantoche perpétuo na narrativa de opressão.

O verdadeiro ato de libertação e de antirracismo, sob a ótica conservadora, é o mérito individual e a autonomia.

A ascensão de negros de direita, que valorizam o livre mercado e o conservadorismo, como o Ministro do TST Carlos Alberto Reis de Paula, o ex-presidente da Fundação Palmares, Sergio Camargo, o vereador Fernando Holiday e o Deputado Hélio Lopes, ajuda a desmascarar essa falácia. Eles provam que é possível alcançar o comando sem a muleta vitimista nem o script progressista.

A barreira que o Dr. Richard enfrenta não é apenas de cor; é, sobretudo, a hostilidade ideológica dos colegas, que não toleram um negro que ousa dialogar com “prefeitos de diferentes partidos”. Isso confirma que a principal barreira para a ascensão de indivíduos negros em ambientes dominados pela esquerda (como a universidade pública) não é a cor da pele (racismo estrutural), mas sim a dissidência ideológica.

Se o intelectual negro precisa ser militante e vítima para ser aceito, é a própria esquerda que está praticando o racismo mais sutil: o paternalismo.

Ou seja: o contrato que está ruindo é o da tutela ideológica, o monopólio da esquerda que insiste em definir o que é o pensamento negro “legítimo”.

A liberdade está na escolha individual, e não na filiação a um discurso de grupo.

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Louise Angelle em 29/10/2025 - 22h16 comentou:

Êita, professora Cynara!

A senhora é, com todo respeito, ph***!

Dar voz ao Big Richard!

Por isso no giro diário por informações de qualidade e confiáveis, passo aqui.

Abraços!
Louise!

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Tadeu Silva em 10/01/2026 - 18h25 comentou:

Daí, o estrebuchar da extrema-direita que não quer largar o osso, mas…

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