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A “geração Zuar e Beber” e a cultura de embebedar a mulher para transar

Toda hora a gente vê uma notícia relacionada a estupro misturada ao uso abusivo de álcool. Mesmo quem “não acredita” –como se isso fosse possível– que há uma cultura do estupro em nosso país é capaz de negar a existência de uma crença de que as mulheres se tornam “fáceis” quando ficam bêbadas. Como se não […]

Cynara Menezes
17 de agosto de 2016, 22h49

beber

Toda hora a gente vê uma notícia relacionada a estupro misturada ao uso abusivo de álcool. Mesmo quem “não acredita” –como se isso fosse possível– que há uma cultura do estupro em nosso país é capaz de negar a existência de uma crença de que as mulheres se tornam “fáceis” quando ficam bêbadas. Como se não se tratasse de estupro de vulnerável (previsto no código penal) ter relações sexuais com alguém sob efeito de álcool, semi-inconsciente, sem condições de se defender.

Pelo contrário: muitos homens procuram propositalmente embriagar o alvo de seu desejo para “aumentar” suas chances com ela. E o mais grave: quando questionados pela Justiça, atribuem sua atitude ao consumo de álcool tanto por si mesmo (para se defender) quanto pela vítima (para culpá-la). Ou seja, o álcool é a desculpa do estuprador.

Na semana passada, em Salvador, um cara beijou uma menina a quem não conhecia à força dentro do elevador e alegou depois que estava “embriagado”. Em junho, em Brasília, amigos de uma adolescente de 13 anos levaram-na para um apartamento e, após lhe darem bebidas, estupraram a garota enquanto ela estava desmaiada –a polícia suspeita que com a ajuda de um adulto.

A garota do Rio que teve imagens de suas partes íntimas postadas na internet, em maio, estava desacordada e sob efeito de álcool e entorpecentes quando foi estuprada coletivamente por pelo menos quatro homens, e isso incrivelmente acabou sendo usado contra ela. O time de estudantes de Medicina da UFPB foi batizado como Dopasmina (forma abreviada de “dopa as mina”), mesmo nome de uma festa dos estudantes de Medicina da UFU.

A ideia de ter relações sexuais não consentidas com uma mulher embriagada é absurdamente normalizada no Brasil. Aparentemente, muitos homens não acham nada demais em trepar com uma pessoa desacordada, que não pode corresponder ao sexo, interagir, gozar. Como um cadáver vivo. Neste mesmo estágio de embriaguez, vamos ser francos: o pau de um homem nem sobe.

Estes dias eu estava reparando numa música que se chama Zuar e Beber, de Leonardo, regravada pela dupla sertaneja Henrique e Diego. Atentem para a letra:

Eu vou zuar e beber
Vou locar uma van
E levar a mulherada
Lá pro meu apê
Que é pra gente beber
E depois paragada parara parara
E depois paragada parara parara

Hoje tem farra
Vou fazer um movimento
Lá no meu apartamento
Entrou, gostou, gamou quer mais
Já preparei abasteci a geladeira
Tá lotada de cerveja o ruído vai ser bom demais
O prédio vai balançar quando a galera dançar
E a cachaça subir fazer zum zum

Não tem hora pra parar
O cheiro de amor no ar
Vai todo mundo pirar e ficar nu
Todo mundo nu

É ou não é um elogio descarado ao homem que embriaga a mulher para fazer, hum, “paragada parara parara”? E não é só uma mulher, mas várias, para ser bem macho. Este tipo de postura me parece bem distintiva de uma geração que a gente infelizmente acompanha todos os dias nas redes sociais, uma geração que faz bullying virtual e que, influenciada por formadores de opinião e políticos machistoides, só pensam naquilo: em tirar sarro e encher a cara.

O tema da bebida como “facilitadora” da conquista na balada é recorrente na “nova” música sertaneja. Vejam a letra de Vamos Beber, de João Lucas e Marcelo (com Ronaldinho Gaúcho!), que fizeram sucesso com Eu Quero Tchu, Eu Quero Tcha.

Bota o copo pro alto, vamos beber
Nós vamos curtir a vida, vamos beber
Eu tô cheio de dinheiro, vamos beber

Estoura essa champanhe que elas ficam louca
Começam a rebolar, com o dedinho na boca
Quem tá chapado aê, então levanta a mão
Vem que tá tudo liberado, e eu tô de patrão

Empina aí novinha
Rebola e vem quicando
Vem aqui com o Ronaldinho
Quero te ver dançando
A noite já é nossa
Vem que hoje é funknejo
Alô, garçom, traz a bebida que eu tô com dinheiro

Mais de 23 milhões de visualizações no youtube! Este estilo de música já foi alvo de um estudo que associa o sertanejo ao consumo de álcool. A mestranda em Letras Mariana Lioto, da Unioeste, do Paraná, analisou a obra de 48 cantores de música sertaneja catalogados no site letras.terra.com.br; apenas sete deles não possuíam nenhuma música relacionada ao tema. Nada menos que 243 canções faziam referência ao consumo de bebidas alcoólicas. Em boa parte das letras, a bebida aparece associada à conquista de mulheres.

Ao que tudo indica, o sertanejo que vivia com dor-de-cotovelo foi substituído pelo cara que vai para a balada e enche a cara para “pegar mulher”. É claro que todo mundo curte tomar umas de vez em quando, se divertir e beijar muito na boca. Mas uma coisa é gostar de “festar”, para usar um termo dessa galera. Outra coisa é que a ideia de embriagar uma mulher para se aproveitar dela sexualmente seja considerado algo tão banal que é cantada em shows por centenas de pessoas (inclusive mulheres).

A geração Zuar e Beber tem tudo a ver com a cultura do estupro em nosso país. E vamos combinar que há um certo vazio na existência de quem enxerga estas duas coisas como o que há de mais importante para se fazer na vida. É neste vazio que mora o perigo.

 

 


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