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60 anos depois, a chantagem continua: “comportem-se direitinho, senão…”

Lula tem, em 2024, a mesmíssima postura pacificadora que teve em 2004; não o culpem por terem esgarçado nossa democracia

Bolsonaro e militares em cerimônia no Palácio do Planalto em 2019. Foto: Orlando Brito/IMS
Cynara Menezes
01 de abril de 2024, 15h56

Parece absurdo, e é, mas 60 anos após o golpe de 1964, quase 30 desde a retomada da democracia, e o Brasil ainda tem sobre si a espada de Dâmocles do autoritarismo. Em janeiro de 2023 por muito pouco não vivemos isso novamente, a volta no tempo pretendida pelo bolsonarismo. E agora nem sequer o governo pode condenar a data –ou os militares se sentirão à vontade para celebrá-la. A velha chantagem continua: “comportem-se direitinho, senão…”

“A decisão de não realizar atos governamentais sobre o golpe de 64 vem de um acordo tácito feito pelo presidente com a cúpula militar: as Forças Armadas se comprometem a não realizar nenhuma manifestação para celebrar a data, como ocorria no governo de Jair Bolsonaro, e, em contrapartida, o governo não realiza nenhum ato crítico à ditadura”, apurou a jornalista Julia Duailibi em seu blog. Isso soa claramente como ameaça e mostra um presidente disposto a ceder para pacificar.

Em 2004, nos 40 anos do golpe de 1964, Lula fez diferente? Não, teve a mesma postura pacificadora. Há quem diga: mas depois do 8 de janeiro ele não deveria rever essa posição? E se for o contrário: depois do 8 de janeiro é que ele precisa manter essa posição?

Em fevereiro, durante entrevista a Kennedy Alencar, Lula declarou que não pretendia ficar “remoendo” o passado. “Eu estou mais preocupado com o golpe de 8 de janeiro de 2023 do que com 64. Eu tinha 17 anos de idade, estava dentro da metalúrgica Independência quando aconteceu o golpe de 64. Isso já faz parte da história. Já causou o sofrimento que causou. O povo já conquistou o direito de democratizar esse país”, afirmou o presidente.

“Os generais que estão hoje no poder eram crianças naquele tempo. Alguns acho que não tinham nem nascido ainda naquele tempo. O que eu não posso é não saber tocar a história para frente, ficar remoendo sempre, remoendo sempre, ou seja, é uma parte da história do Brasil que a gente ainda não tem todas as informações, porque tem gente desaparecida ainda, tem que apurar. Mas eu, sinceramente, não vou ficar remoendo e vou tentar tocar esse país para frente.”

Lula causou dor e mágoa aos parentes dos desaparecidos e sobreviventes da tortura ao utilizar o verbo “remoer”. “Presidente, falar sobre o golpe de 1964 não é remoer o passado. É algo fundamental para que o senhor e seu governo continuem avançando em uma agenda voltada para transformar definitivamente o futuro do país, com vistas a construir um país cada vez mais justo e democrático”, lamentou, em nota, a Coalizão Brasil Por Memória, Verdade, Justiça, Reparação e Democracia. O grupo batizou os eventos dos 60 anos do golpe assim: Remoer a Ditadura para Consolidar a Democracia.

Quem fez diferente foi a ex-guerrilheira Dilma Rousseff, nos 50 anos do golpe militar, em 2014. Fez um discurso contundente lembrando os mortos e desaparecidos da ditadura –e foi criticada por setores da esquerda por ter sido “soft” demais… Dilma sempre foi valente. Mas é fato que acabou golpeada

“O Lula não poderia ter falado isso. Ele tem que reconhecer a história desse país. Tem que reconhecer que houve resistência da nossa parte. Muitos companheiros e companheiras que almejavam a democracia foram assassinados pela força da repressão militar”, afirmou Amelinha Teles, torturada grávida pelo ídolo de Jair Bolsonaro, coronel Brilhante Ustra. “A ditadura faz parte da história, mas de uma história que não foi escrita. A verdade sobre ela não foi contada. As consequências do golpe de 1964 continuam presentes na sociedade, haja vista a tentativa de golpe do 8 de Janeiro.”

Mas e em 2004, nos 40 anos do golpe militar, Lula fez diferente? Não. “Devemos olhar para 1964 como um episódio histórico encerrado. O povo brasileiro soube superar o autoritarismo e restabelecer a democracia”, afirmou Lula então, por meio de seu porta-voz. “Cabe agora aos historiadores fixar a justa memória dos acontecimentos.” A mesma posição pacificadora que ele teve 20 anos atrás está tendo agora. Há quem defenda: mas depois do que aconteceu no 8 de janeiro ele não deveria rever sua posição? E se for o contrário: depois do que aconteceu no 8 de janeiro é que ele precisa manter essa posição?

Nos 50 anos do golpe, a ex-guerrilheira Dilma Rousseff foi muito mais contundente: homenageou em cerimônia oficial, em março de 2014, os mortos e desaparecidos políticos da ditadura. “Lembrar e contar faz parte desse processo que iniciamos, de luta do povo, pela volta da liberdade, pela anistia, Constituinte, diretas, inclusão social, Comissão da Verdade… Por todos os processos de implantação e consolidação da nossa democracia, processo que foi construído passo a passo, por cada um dos governos eleitos depois disso”, afirmou a presidenta.

“Nós aprendemos o valor da liberdade, o valor de um Legislativo e de um Judiciário independentes e ativos. Aprendemos o valor da liberdade de imprensa, o valor de eleger por um voto direto e secreto de todos os brasileiros, de governadores, prefeitos… De eleger, por exemplo, um ex-exilado, um líder sindical que foi preso várias vezes e uma mulher também que foi prisioneira”, completou Dilma, que trocou a foto de seu perfil no facebook pelo retrato de quando foi presa. Sim, Dilma sempre foi valente. Mas é fato que acabou golpeada.

Detalhe: na época, Dilma foi criticada por vítimas da ditadura e por parte da esquerda porque teria se posicionado contra a revisão da Lei da Anistia. “Nós reconquistamos a democracia à nossa maneira, por meio de lutas e de sacrifícios humanos irreparáveis, mas também por meio de pactos e acordos nacionais” –o trecho problemático foi “pactos e acordos nacionais”, interpretado como uma negativa à revisão. Logo Dilma, cujos problemas com os militares começaram quando instalou a Comissão da Verdade…

Vejo setores da esquerda sendo também bastante duros com Lula neste momento em que o golpe completa 60 anos. Até de “covarde” eu ouvi gente boa chamá-lo. Mas é culpa de Lula que a democracia brasileira tenha se esgarçado tanto de 2014 para cá? É culpa do Lula a Lava-Jato atuando para destruir o Estado de Direito ou ele foi vítima dela? É culpa do Lula o processo eivado de ilegalidades que resultou na deposição de uma presidenta legitimamente eleita?

Vejo setores da esquerda sendo bastante duros com Lula. Até de “covarde” ouvi gente boa chamá-lo. Mas é culpa de Lula que nossa democracia tenha se esgarçado tanto de 2014 para cá? O que Lula está fazendo é botar água na fervura. Por enquanto é o que temos

É culpa do Lula que a mídia, o Congresso e o STF tenham participado do sangramento inconsequente das instituições apenas com o objetivo de arrancar o PT do poder? Alguém por acaso cobrou a prisão do deputado federal que homenageou um torturador dentro do Congresso Nacional durante o impeachment? Se ele tivesse saído preso dali, não estaríamos tendo esse revival. Eu só lamento que o Brasil da redemocratização de minha juventude tenha descambado num Brasil onde existem saudosistas da ditadura –e Lula não tem nada a ver com isso.

Antes de tentar jogar sobre ele a responsabilidade pela sombra do autoritarismo estar novamente (e ainda) sobre nós, pergunte-se sobre o quê nos trouxe até aqui. O que o presidente está fazendo é acalmar as feras. Pacificar. Tenham certeza de que se Lula estivesse esbravejando contra os militares estaria sendo acusado de tentar incendiar o país, de ser um agente de polarização, como tantas vezes fizeram. Não, Lula está, como ele mesmo disse dias atrás, lutando uma guerra pela democracia. Ela ainda está em risco. O que Lula está fazendo é botar água na fervura. Por enquanto é o que temos. E ainda bem.

Ditadura nunca mais!

 


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marcel em 15/04/2024 - 02h41 comentou:

infelizmente lula tem sua culpa sim em todos esses momentos, mas nao é so dele, lembremos disso, vamos ser democraticos tb hehehe.
q ele apoiou e manteve varios atos de corrupcao sabemos que foi, mensalao, petrobras , esses q o diga. Mas todos ali , dirceu, militares , deputados tem sua culpa, na pratica, o governo precisa ser redesenhado sem essa turma aí. gente nem comprometida com democracia, mas com a realidade da população que sofre com saude, transporte, salarios, tudo ruim, baixa qualidade.

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