Socialista Morena
Cultura

10 séries escandinavas de suspense para distrair a cabeça do terror do bolsonarismo

O "noir nórdico" também nos convida a pensar como a nossa polícia e nosso sistema prisional poderiam ser diferentes

Cena da série islandesa Katla (Netflix)
Cynara Menezes
18 de julho de 2022, 16h35

Os países nórdicos têm as menores taxas de violência do mundo. Na lista dos países mais pacíficos do site Statista, a Islândia aparece em primeiro lugar; a Dinamarca em terceiro; a Finlândia em 11º; a Suécia em 12º e a Noruega em 13º. É difícil imaginar a razão pela qual países tão tranquilos se tornaram a origem de algumas das mais brilhantes séries de suspense dos canais de streaming. Se lá praticamente não acontece crime (na Islândia já houve ano com homicídio zero), de onde vem a capacidade de criar tramas policiais tão engenhosas? Do tédio?

Os escandinavos são tão prolíficos na criação de livros, filmes e séries de suspense que passaram a nomear um gênero, “nordic noir”, “scandinavian noir” ou “scandi noir”. A explosão do noir nórdico começa na literatura no final da década de 1990, com nomes como os suecos Stieg Larsson (da série Millenium) e Henning Mankel (criador do detetive Kurt Wallander). Na televisão, uma das primeiras séries ao explorar o filão foi a dinamarquesa The Killing (Forbrydelsen), de 2007, atualmente fora de cartaz nos canais de streaming disponíveis no Brasil.

Há algumas características que diferenciam o noir escandinavo das séries de suspense norte-americanas. Em primeiro lugar, sempre abordam, ao mesmo tempo que crimes intrincados, questões sociais como a agressão ao meio ambiente, tráfico de drogas, especulação imobiliária, corrupção na política… É um alívio para os fãs do gênero saber que a figura do policial do FBI se intrometendo nas investigações nunca vai aparecer, um clichê das produções hollywoodianas que torna tudo um tanto previsível.

Nas produções escandinavas há violência também, claro, e bem pesada, com temas como abuso sexual na infância, prostituição e abuso de drogas na juventude. Mas algumas vezes os policiais nem sequer usam armas, caso dos policiais islandeses –a Islândia é tão tranquila que quando acontece um assassinato por lá abala o país inteiro. Os protagonistas das tramas (e das investigações) são sempre uma dupla, um homem e uma mulher, e varia, independentemente de gênero, quem estará no comando: às vezes é o homem, às vezes é a mulher.

As séries nórdicas têm uma vantagem extra para os brasileiros: por serem tão diferentes do nosso cotidiano, fazem a gente esquecer um pouco o terror do bolsonarismo. Distraem a cabeça dos crimes reais que acontecem todo dia com a extrema direita no poder

Os policiais são muito bem preparados e equipados, mas ao mesmo tempo são gente comum do interior ou vivendo no interior, com seus dramas humanos, filhos adolescentes com problemas, divórcios doloridos, doenças. As paisagens belas e desoladas dos países escandinavos, com seus fiordes e imensidões brancas e geladas ornam muito bem com histórias de suspense. Ajudam a dar calafrios.

As séries nórdicas têm uma vantagem extra para os brasileiros: por serem tão diferentes do nosso cotidiano, fazem a gente esquecer, pelo menos por instantes, o terror do bolsonarismo. Distraem um pouco a cabeça dos crimes reais que acontecem todos os dias desde que a extrema direita chegou ao poder em nosso país. Também nos convidam a pensar como a nossa polícia e nosso sistema prisional poderiam ser diferentes.

Essa lista pode ser acrescida de novos títulos a qualquer momento (os links para os canais de streaming estão no título das mini-resenhas).

1 – Katla (Islândia)

Após um ano da erupção do vulcão Katla, a aldeia de Vík ainda está envolta em fuligem quando uma mulher é encontrada, toda coberta de cinzas. Ela é estranhamente parecida com outra que havia deixado a cidade 20 anos atrás, mas tem a aparência de uma jovem de 20 anos, mesma idade de quando a primeira partiu. A peculiar trama desta série mistura crime, ficção científica e sobrenatural, explorando a ideia do duplo (o doppelgänger das lendas nórdicas e germânicas), além de uma nem tão sutil crítica aos efeitos do aquecimento global. Netflix.

2 – Case (Islândia)

Uma bailarina é encontrada enforcada no palco de um teatro em Reiquiavique. O aparente suicídio pode ser tão aparente quanto a normalidade das famílias do lugar. Um advogado decadente e alcoólatra toma para si a missão de resolver o mistério e vamos descobrindo que, exatamente como ele, ali ninguém é perfeito. Como em toda série nórdica, as tensões se alternam entre o trabalho de investigação criminal e os problemas que tanto o advogado quanto a policial que investiga o caso enfrentam na vida privada. Netflix.

3 – O Homem das Castanhas (Dinamarca)

Um pequeno bonequinho feito com galhos e cabeça de castanha é a pista deixada pelo autor dos assassinatos que estão ocorrendo num até então tranquilo subúrbio da capital, Copenhague. O que ele quer dizer com isso? Passado e presente se alternam na história até ser desvendado o segredo macabro por trás dos sinistros bonequinhos. A série foi produzida a partir do romance homônimo de Soren Sveistrup, também autor de The Killing (Forbrydelsen), um dos maiores sucessos do scandi noir e que infelizmente não está mais disponível no Brasil em streaming, apenas o remake estadunidense (Star+). Netflix.

4 – Departamento Q (Dinamarca)

Uma das características das séries dinamarquesas é ter detetives antissociais, esquisitões, à frente das investigações. Na série de filmes Departamento Q (são quatro, só há disponíveis no Brasil os três últimos), baseada no best seller de Jussi Adler-Olsen, isso é elevado aos píncaros. O detetive Carl Mørck parece um robô, sobretudo se comparado ao parceiro Assad (Fares Fares), um grandalhão de origem síria que é só emoção, e à divertida secretária Rose (Joanne Louise Schmidt, que vive a primeira-ministra da Dinamarca na nova temporada de Borgen). O último filme da série, Em Busca de Vingança, baseado numa história real, é simplesmente espetacular. Prime Vídeo.

5 – Borderliner (Noruega)

Após testemunhar contra um colega, o detetive Nikolai, que vive em Oslo, decide sair de licença e parte para sua cidade natal na fronteira com a Suécia, onde acaba entrando na investigação de um suicídio. O que ele será capaz de fazer para proteger seu irmão mais novo, também policial, que parece estar envolvido no crime? Este tipo de dilema moral do policial entre a vida privada e o trabalho, onde se vê obrigado a escolher entre a ética e as relações pessoais, é bastante frequente nas tramas nórdicas –assim como o final surpreendente. Netflix.

6 – Bordertown (Finlândia)

O mais estranho dos estranhos detetives destas séries escandinavas, Kari Sorjonen (Ville Virtanen) é diagnosticado com síndrome de Asperger, o que nos faz pensar: não estariam muitos dos detetives mais famosos no espectro? Em relação a Sherlock Holmes, por exemplo, esta é uma especulação recorrente. O fato é que Sorjonen (o nome original da série em finlandês) tem habilidades enormes para decifrar crimes e as mentes perversas detrás deles, e pouca ou nenhuma para se relacionar com as pessoas. Para quem assistiu CSI, o original, há algumas similitudes –e não estaria o antissocial e extremamente inteligente Gil Grissom também no espectro? Mas na série norte-americana a vida dos policiais se resume ao local de trabalho, o que raramente ocorre numa produção nórdica. A série é imensa (tem três temporadas) e recentemente foi lançado também um longa-metragem, Bordertown: A Eliminação. Netflix.

7 – Trapped (Islândia)

Ninguém sai, ninguém entra: os habitantes de uma cidade pequena estão presos num pequeno vilarejo da Islândia por conta de uma tempestade de neve. O policial Andri (Ólafur Darri Ólafsson) parece de certa forma atolado também, separado da mulher, a quem ainda ama, e vivendo com as duas filhas na casa dos sogros. E então aparece o tronco de uma pessoa assassinada… Como sempre, um detetive taciturno, fora dos padrões, estrela esta série excelente na primeira temporada, mas que perde o ritmo na segunda. Interessante como os islandeses tomam café, a qualquer hora do dia e da noite –basicamente matam o frio tomando café. Não por acaso, a Islândia é um dos paises onde mais se consome café no mundo (os outros são todos nórdicos).

8 – Deadwind (Finlândia)

O perfil durão e antissocial dos protagonistas das séries de suspense escandinavas não se restringe aos homens. Em Deadwind, a detetive Sofia Karppi (Pihla Viitala) não está muito a fim de papo e sim de descobrir por que uma moça foi encontrada morta num canteiro de obras e quem a matou. Sofia é tão obstinada que retornou ao trabalho dois meses após ter perdido o marido, e está dividida entre os dramas da maternidade solo, tendo que pagar a enteada adolescente para que cuide de seu filho pequeno, e desvendar um assassinato ligado à especulação imobiliária em Helsinque. Uma nota à parte é a espantosa semelhança sonora do finlandês com o japonês. Já repararam? E não é que existem conexões entre os dois idiomas?

9 – O assassino de Valhalla (Islândia)

A pérfida trama desta série islandesa tem como cenário uma instituição para jovens com problemas familiares, Valhalla. A detetive Kata (Nina Dögg Filippusdóttir), por sua vez, também está à volta com os próprios dramas gerados pelo excesso de trabalho e a culpa por estar ausente como mãe de um adolescente. Ser ética ou proteger a cria é o dilema que se desenha diante de Kata. Seu parceiro, Arnar (Björn Thors), um islandês que vive na Noruega, é outro destes estranhos detetives nórdicos que pouco falam ou mostram emoções, mas sua história de vida também está ligada ao que ocorreu em Valhalla. Netflix.

10 – Areia Movediça (Suécia)

Adaptado do livro homônimo da sueca Malin Persson Giolito, a série explora um crime que, ao contrário dos EUA, raras vezes ocorreu nos países nórdicos: um massacre numa escola. A adolescente Maja Norberg (Hanna Ardéhn) é encontrada ensaguentada na cena do crime, mas não se lembra do que aconteceu. Teria Maja ajudado o namorado a matar os colegas? Além de responder esta pergunta, a série é uma crítica aos valores dos jovens de classe alta da Suécia e à condescendência da sociedade com os mais ricos: todo mundo sabe que o rapaz é agressivo, mas o fato de a família dele ser milionária faz com que os pais de Maja não se preocupem a mínima com o que a menina anda fazendo.

 

 


Apoie o site

Se você não tem uma conta no PayPal, não há necessidade de se inscrever para assinar, você pode usar apenas qualquer cartão de crédito ou débito

Ou você pode ser um patrocinador com uma única contribuição:

Para quem prefere fazer depósito em conta:

Cynara Moreira Menezes
Caixa Econômica Federal
Agência: 3310
Conta Corrente: 23023-7
PIX: [email protected]
(2) comentários Escrever comentário

Os comentários aqui postados são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião da Socialista Morena. Todos as mensagens são moderadas. Não serão aceitos comentários com ofensas, com links externos ao site, e em letras maiúsculas. Em casos de ofensas pessoais, preconceituosas, ou que incitem o ódio e a violência, denuncie.

Eduardo Soares Guimaraens em 18/07/2022 - 18h41 comentou:

Todos filmes citados são maravilhosos. Devo lembrar que há também além da Trilogia Millennium que se transformou em três ou quatro filmes. Wallander foi transformando em séries e uma preqüela chamada O Jovem Wallander que tem duas temporadas

Responder

Denis Oliveira DAMAZIO em 18/07/2022 - 20h49 comentou:

Ha uma que nao eh e Scandinava mas com o excelente ator Skarsgard chamada River que eh sensacional. Eh caso de corrupção e crimes em paralelo a uma história emocional profunda. Acho q não tem mais na Netflix, mas a cena final da série foi a música que eu usei no meu casamento de tão apaixonante q a série eh!!

Responder

Deixe uma resposta

 


Mais publicações

Feminismo

Atriz Emma Thompson se arrepende de depilação dos pelos pubianos: “Lavagem cerebral”


Britânica vencedora do Oscar em 1993 por "Retorno a Howard's End" fez nu frontal na tela pela primeira vez aos 63 anos –e não se depilou para isso

Cultura

Agenda cultural de Brasília, por Celso Araújo


O crítico comenta a Mostra Renato Russo no Cine Brasília e seleciona exposições de arte, eventos e espetáculos na capital do país