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Cultura

Artistas que criticam o governo genocida de Israel são perseguidos e censurados

"É um massacre de pensamentos", disse o artista chinês Ai Weiwei após ter quatro exposições canceladas por tuitar sobre o apoio dos EUA às políticas de Netanyahu

Ilustração: Gianluca Costantini
Cynara Menezes
08 de março de 2024, 14h34

“Modernismo é agora proibido”, titulava o New York Times em sua edição de 25 de julho de 1937. Não foram só livros que foram queimados pelos nazistas; obras de arte também. Em março de 1939, mais de 1000 pinturas e esculturas e quase 4 mil aquarelas, desenhos e gravuras foram queimados na sede do Corpo de Bombeiros de Berlim. Os nazistas consideravam a arte moderna como “arte degenerada”.

Corta para fevereiro de 2024. Novamente, o New York Times: “Universidade de Indiana cancela retrospectiva de artista palestina”. O “crime” de Samia Halaby, de 87 anos, além do fato de ser palestina, foi criticar os assassinatos de seus conterrâneos pelo governo genocida de Benjamin Netanyahu. Seria a primeira retrospectiva nos EUA de Halaby, considerada uma das maiores artistas palestinas vivas.

O “crime” de Samia Halaby, de 87 anos, além do fato de ser palestina, foi criticar os assassinatos de seus conterrâneos pelo governo genocida de Benjamin Netanyahu. Uma retrospectiva sua na Universidade de Indiana foi cancelada

Suas pinturas abstratas já estavam no local quando ela recebeu um telefonema do diretor do Centro de Arte Eskenazy, onde aconteceria a exposição, avisando do cancelamento. Ele informou a ela que os funcionários do museu tinham feito queixas sobre os post dela sobre a chacina, onde ela comparava o bombardeio israelense a um genocídio e chamava Gaza de “campo de concentração”. Em seguida, o diretor do museu enviou a ela uma carta com dois parágrafos cancelando oficialmente a mostra: “Escrevo para notificá-la formalmente de que o Museu de Arte Eskenazi não sediará a exposição planejada de seu trabalho”.

Na verdade, o cancelamento da exposição ocorreu após o deputado republicano Jim Banks enviar uma carta à universidade dizendo que a instituição poderia perder financiamento federal se “antissemitismo” fosse permitido no campus. Após o cancelamento, uma exposição de Halaby organizada em protesto ficou lotada. Ela manifestou sua decepção com a Universidade, onde fez o mestrado. “Eu achava que tinha encontrado um pouco do que eu poderia chamar de lar em Indiana, mas isso se mostrou totalmente falso.”

 

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Embora os defensores do governo genocida de Netanyahu não aceitem a comparação, ela é inevitável: assim como no nazismo, artistas que se posicionam contra o massacre israelense em Gaza estão sendo perseguidos, intimidados e censurados. Em Berlim, na Alemanha, país que naturalmente carrega um enorme sentimento de culpa em relação ao Holocausto, após o ataque do Hamas foi aprovada uma norma impedindo artistas de criticar Israel ou não receberiam fundos públicos.

A cláusula estabelecia o que seria “antissemitismo” a partir das regras da IHRA (Aliança Internacional pela Memória do Holocausto), entre elas “estabelecer paralelos entre políticas atuais de Israel com o que fizeram os nazistas”. A norma foi alvo de boicotes e críticas públicas dos artistas alemães, que a denunciaram como “uma política macarthista“. Após um manifesto com milhares de assinaturas, o governo voltou atrás e extinguiu a regra.

“A ‘cultura da memória’ alemã pós-reunificação (Erinnerungskultur) –campanha estatal para abordar o genocídio dos judeus na Alemanha– atua como um dogma repressivo, revigorando a opressão contra a qual a ‘lembrança’ real deveria trabalhar”, criticou o movimento Strike Germany, que promoveu os protestos.

Em Berlim, após o ataque do Hamas foi aprovada uma norma impedindo artistas de criticar Israel ou não receberiam fundos públicos. A cláusula estabelecia que seria “antissemitismo”, por exemplo, “estabelecer paralelos entre políticas atuais de Israel com o que fizeram os nazistas”. Após protestos de artistas, foi extinta

“Em vez de levarem em conta as suas próprias políticas racistas e cada vez mais neofascistas, a mídia e os políticos alemães apressam-se em culpar as populações árabes e muçulmanas na Alemanha pelo chamado ‘antissemitismo importado’. A Alemanha não é o único país, mas nenhum outro Estado fez de uma aliança incondicional com Israel a sua Staatsräson (razão de Estado) e um pré-requisito para a participação na vida pública e cultural. O Estado alemão não pode continuar a consolidar ainda mais o autoritarismo contra as vozes que se opõem ao racismo, ao colonialismo e ao genocídio.”

Em novembro de 2023, o chinês Ai Weiwei teve quatro exposições canceladas em Londres, Paris, Nova York e Berlim apenas porque o artista, que vive no exílio desde 2015, fez críticas duras a Israel em seu perfil na rede social X, ex-twitter. “O sentimento de culpa em torno da perseguição ao povo judeu foi, por vezes, transferido para neutralizar o mundo árabe”, escreveu Weiwei no tweet que causou o cancelamento e acabou excluído por ele.

“Financeiramente, culturalmente e em termos de influência midiática, a comunidade judaica tem tido uma presença significativa nos EUA. O pacote anual de ajuda de 3 bilhões de dólares a Israel tem sido, durante décadas, considerado um dos investimentos mais vultosos que os EUA já fizeram. Esta parceria é frequentemente descrita como um destino compartilhado.”

Após o cancelamento, o artista comparou a censura imposta por Israel e seus aliados aos que criticam o massacre promovido pelo governo Netanyahu em Gaza à China de Mao Tsé-Tung. “Eu cresci durante uma forte censura política”, disse em fevereiro Ai, que chegou a ser preso em Beijing, em 2011. “Mas eu estou me dando conta que hoje no Ocidente vocês estão fazendo a mesma coisa.”

Ao criticar a suspensão de dois professores da New York University também por terem feitos comentários críticos a Netanyahu, Weiwei disse: “Isto é realmente como uma revolução cultural, que é tentar destruir qualquer um que tenha atitudes diferentes, até mesmo uma opinião. Eu acho uma pena que isso esteja acontecendo no Ocidente, em universidades, na mídia, em qualquer parte. Você não pode dizer a verdade”.

Em entrevista à revista britânica The Spectator, falou em “massacre de pensamentos”: “Na sociedade ocidental, existe agora um sentimento palpável de medo, onde os indivíduos se sentem impedidos de expressar os seus verdadeiros pensamentos, temendo potenciais consequências. Percebo isto não apenas como um ataque à liberdade de expressão, mas como um massacre de pensamentos. Aqueles que sofrem são indivíduos com pensamento independente, e aqueles que prevalecem são forças que empurram a civilização humana para trás.”

Em uma carta divulgada em dezembro pelo grupo Artistas pela Palestina no Reino Unido, mais de 1000 criadores, artistas e curadores acusaram instituições culturais de “reprimir, silenciar e estigmatizar vozes e perspectivas palestinas” desde o ataque terrorista feito pelo grupo Hamas. Os signatários acusam as instituições de “perseguir e ameaçar artistas que expressam solidariedade aos palestinos, assim como cancelar performances, exibições, palestras, exposições e lançamentos literários”.

Além de citar o episódio de Weiwei, o grupo cita o cancelamento de dois festivais de cinema palestino e da exposição da artista judia alemã Candice Breitz pelo Saarlandmuseum em Saarbrucken após a artista fazer um post criticando o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu e seu governo pelo “grotesco e desumano bombardeio de Gaza”, ao mesmo tempo que manifestava sua “profunda empatia pelos civis israelenses brutalmente violados e mortos”.

No final de fevereiro, milhares de artistas, curadores e diretores de museus fizeram uma petição para que Israel seja excluída da Bienal de Veneza e acusaram os organizadores de dar espaço a um estado genocida que promove um apartheid. A ANGA (Aliança de Arte não-Genocida, na sigla em inglês) lembrou que dois anos atrás a Bienal, uma das mais importantes do mundo, baniu qualquer artista ligado ao governo russo após a invasão da Ucrânia, mas não está fazendo nada contra a matança que Israel promove em Gaza.

“A Bienal tem se mantido em silêncio a respeito das atrocidades de Israel contra os palestinos. Nós estamos horrorizados com este duplo padrão”, declarou a ANGA em um abaixo-assinado firmado por 22 mil artistas até agora. O ministro da Cultura da Itália, governada pela extrema direita, negou o pedido. E se fosse a Palestina quem matasse de bomba e de fome mais de 30 mil seres humanos?

 


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(2) comentários Escrever comentário

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Paulo Roberto Martins em 27/03/2024 - 12h22 comentou:

Aqui não tem sido diferente, com esta mídia suja passando pano para as atrocidades sionistas e criticando qualquer um que discorde de Israel. Isto só vem alimentar e acaba dando razão aos antissemitas que sempre falaram sobre o “dominio judaico sobre os meios de comunicação e a mídia em geral”. É isto?

Responder

Eugênio Bh em 27/03/2024 - 17h10 comentou:

“Livre pensar é só pensar”, como dizia o Millôr…

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