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Adeus, “asado”: carne de boi vira artigo de luxo na Argentina de Macri

A inflação está obrigando nossos hermanos a trocar sua amada carne por macarrão e arroz

Na televisão, os efeitos da crise: "esqueça a carne"
Martín Fernández Lorenzo
01 de novembro de 2018, 21h39

Com a direita no poder, a comida típica dos argentinos, o “asado a la parrilla“, a carne assada na brasa, tornou-se um luxo a que apenas poucos privilegiados podem se dar hoje em dia. Comer um churrasco sempre foi uma razão para celebrar dos argentinos, e também uma desculpa para se reunir com pessoas queridas, como o agora quase extinto asado aos domingos com a família.

O salário mínimo no país atualmente é de 10.700 pesos. Se considerarmos o valor de um asado, ao redor de 200 pesos por quilo de carne, uma família de quatro pessoas precisaria de pelo menos 1.000 pesos para poder realizar um almoço destes. O asado básico consiste em carne, linguiças, morcilhas, salada de alface e tomate, pão, bebidas e lenha. Para um asado a la parrilla ficar mais completo teria que ter as achuras, que são chinchulines (tripas) e mollejas (timo), mais o vazio e o matambre de carne de porco ou de boi, além de uma entrada chamada “picada”, que consiste em azeitonas, queijo e salame. Ou seja, não sairia por menos de 2.000 pesos, algo exclusivo para os ricos.

Há ainda um corte de carne chamado falda, que é chamado de “asado dos pobres”, e que tem uma semelhança com os cortes que se usam tradicionalmente, só que seu osso é mais largo e tem muito menos carne. O preço do quilo da falda custa em torno de 100 pesos, ainda bastante salgado para as classes média e baixa.

O consumo per capita de carne em setembro foi um dos três menores dos últimos 60 anos. Em comparação com o mês de agosto, representa uma queda de 12,5% nas vendas. Um asado completo não sai por menos de 2.ooo pesos, algo exclusivo para os ricos

Segundo o último relatório do IPCVA (Instituto para a Promoção da Carne de Boi Argentina, na sigla em castelhano), o consumo per capita em setembro foi um dos três menores dos últimos 60 anos. Em comparação com o mês de agosto, representa uma queda de 12,5% nas vendas. Os argentinos passaram a trocar a carne pelo macarrão e pelo arroz. “Hoje encontrar operários preparando o tradicional ‘asado’ que faziam durante seu descanso às sextas-feiras é quase impossível”, diz esta reportagem do jornal uruguaio El Observador.

“Como muitos argentinos, Alicia Schwartzman consumia carne de boi várias vezes por semana, tão barata e popular no país quanto os espaguetes na Itália. Mas a aceleração da inflação nos últimos meses –pela desvalorização do peso argentino– a fez mudar bruscamente de dieta para adaptá-la à sua pequena aposentadoria, em meio a uma crise que afeta sobretudo a classe média”, conta o jornal. Alicia, de 70 anos, falou que quase não come mais carne nem peixe porque o preço “está nas nuvens”. A carne foi um dos produtos (ao lado do leite, do óleo, da farinha de trigo, do açúcar, do tomate e da alface) que mais encareceram desde que Macri assumiu o poder: os preços subiram acima de 100%.

Neste vídeo, aposentados  contam que trocaram a carne pelo fígado e pelo ovo.

É dramático que a Argentina, um dos países que mais exportam carne bovina, considerada pelos nativos como “a melhor carne do mundo”, tenha sua produção cada vez mais distante dos trabalhadores do país. Para escrever estas linhas, semanas atrás conversei com o açougueiro do meu bairro sobre os preços e o consumo, e ele disse que trabalha muito bem (sua empresa está localizada em uma avenida movimentada), mas com as contas de energia elétrica e aluguel nas alturas não poderia ele mesmo fazer um churrasco para sua família. “Não posso gastar 1000 pesos em um asado“, disse.

Se um trabalhador precisa fazer um esforço enorme para conseguir comer uma carninha na brasa, para aqueles que ganham o mínimo como os aposentados, comer apenas um pedaço de carne mais barata é quase inatingível. Nós produzimos carne para o mundo, mas para nós ela está proibida.

 

 


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