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BBC admite ter promovido caça às bruxas com ajuda do serviço de espionagem

A emissora pública da Inglaterra publicou reportagem admitindo ter vetado jornalistas talentosos apontados como comunistas ou socialistas

"Canais vermelhos": informe macarthista sobre a "influência comunista" nas emissoras dos EUA
Cynara Menezes
25 de abril de 2018, 22h15

A BBC, emissora pública britânica, admitiu esta semana algo que negava havia décadas: até os anos 1990, atuou em parceria com a agência de espionagem MI5 vetando candidatos a trabalhar lá por razões políticas e marcando as fichas dos possíveis “subversivos” já contratados para que não ascendessem na carreira. Isso não era exatamente um segredo na Inglaterra, mas agora a emissora permitiu que um repórter, Paul Reynolds, tivesse acesso aos arquivos e revelasse tudo.

A caça às bruxas na BBC remonta ao ano de 1933, quando um executivo da emissora, Coronel Alan Dawnay, iniciou a troca de informações com o chefe do MI5, Sir Vernon Kell. O objetivo da “triagem” era barrar a entrada de comunistas, socialistas e fascistas, mas, durante a Segunda Guerra, até mesmo pessoas com perfil “pacifista” eram vetadas, como noticiou o Guardian em 2001. “Empregados com simpatias comunistas ou fascistas eram o alvo inicial, mas, com a guerra, a BBC tentou não empregar gente com visões ‘pacifistas ou derrotistas'”, dizia a reportagem na época.

O objetivo da triagem era barrar a entrada de comunistas, socialistas e fascistas, mas, durante a Segunda Guerra, até mesmo pessoas com perfil “pacifista” eram vetadas

 

No domingo, 22, a emissora publicou uma reportagem falando dos “arquivos do veto”, onde explica como a coisa funcionava. Após preencher o questionário de admissão, os candidatos eram “checados” pelo MI5. Se fosse comprovada alguma associação, por tênue que fosse, com alguma entidade da “lista negra”, sua contratação dançava. A lista incluía o Partido Comunista Britânico, o Partido dos Trabalhadores Socialistas, o Partido dos Trabalhadores Revolucionários e a Tendência Militante. Do lado fascista, estavam banidos os candidatos com ligações com a Frente Nacional e o Partido Nacional Britânico.

Se o MI5 tivesse “certeza” da ligação do candidato com alguma destas organizações, recebia um “A” e seria vetado automaticamente para não “influenciar as reportagens” com “propósitos subversivos”. Quando não havia certeza, seu questionário era marcado com um “B”, lançando dúvidas, mas deixando a decisão sobre a contratação a cargo do diretor da área. Uma letra “C” era uma espécie de conselho: só contrate se não houver outra opção. A “árvore de Natal” na ficha mantinha o empregado já contratado no cargo, mas sem chance de subir na hierarquia da emissora.

A “árvore de Natal” na ficha do “subversivo”

A BBC enumera dois casos de jornalistas talentosos que deixaram de ser contratados pela emissora por razões políticas. A jornalista Isabel Hilton foi vetada pela BBC Escócia em 1976 porque foi associada a um membro do Partido Comunista da época da universidade. Isabel acabou trabalhando na emissora nos anos 1990. “Ainda me sinto indignada com o fato de que ninguém na BBC nunca se desculpou, explicou ou fez uma declaração pública em minha defesa ou admitiu o erro”, ela disse.

Tom Archer, que trabalhou como freelancer na BBC em Bristol nos anos 1970, foi barrado quando tentou se tornar um membro da equipe em 1979 apenas porque um parente seu era membro do Partido Socialista. “Fiquei zangado e com medo de que tudo se fechasse para mim. Eu era recém-casado”, contou Archer, que considerou “um triunfo” quando foi finalmente contratado pela emissora, já nos anos 2000.

A BBC sempre negou que tenha barrado jornalistas em seu staff por razões políticas. Em uma entrevista em 1968, o diretor-geral Hugh Greene afirmou ao Sunday Times que isso nunca aconteceu

Nestes 85 anos desde que os vetos foram instituídos pela primeira vez, a BBC sempre negou que tenha barrado jornalistas em seu staff por razões políticas. Em uma entrevista em 1968, o diretor-geral Hugh Greene afirmou ao Sunday Times que isso nunca aconteceu. “Temos uma equipe de 23 mil pessoas com todo tipo de perfil, inclusive o que você chama de pansies (gays) e também comunistas. Mas isso não é da minha conta, não fazemos uma inquisição sobre as pessoas que entram na BBC.”

Mesmo após o Observer ter publicado uma longa reportagem revelando a espionagem sobre os funcionários em agosto de 1985, a BBC não se curvou às evidências. Um dia após a publicação da história, a porta do setor onde os vetos eram feitos amanheceu com enfeites de Natal pendurados. Em 2016, uma reportagem na revista da emissora (Houve caça às bruxas na BBC?) admitia ter existido investigação do MI5 sobre membros da equipe a pedido do primeiro-ministro Winston Churchil durante as décadas de 1940 e 1950, mas não mencionava os vetos aos candidatos a entrar na emissora.

O maior efeito do furo do Observer foi acabar com os vetos por razões políticas dentro da emissora pública. A admissão de que isso aconteceu, porém, só ocorreu agora, mais de 30 anos depois. Antes tarde do que nunca. Se a mídia comercial brasileira seguisse o exemplo, informaria a seus leitores dos questionários sobre preferências político-partidárias que impõem a seus candidatos na admissão. Ou contaria das demissões feitas por razões políticas nos últimos anos, sempre por suposto “petismo”. Não há notícia de alguém que tenha sido demitido das redações brasileiras por simpatia pelo PSDB.

 

 

 

 


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Cynara Menezes em 26/04/2018 - 18h03 comentou:

ama e apoia o quê?

Responder

João Junior em 30/04/2018 - 17h40 comentou:

O temor do pensamento socialista nos capitalistas é o de perderem as fortunas angariadas pela enganação constante da “lógica de mercado”. Pelo que o mercado entende que seja concorrência, a existência de dois grupos varejistas, por exemplo, não tem muito a ver com a lógica de Adam Smith da ampla concorrência. A logica capitalista é q As pessoas tendem a pensar que os preços ao consumidor só têm variáveis relativas à produção e à logística e também aos impostos. Contudo, na verdade, um fator relevante para a formação do preço é a renda do consumidor. Você com certeza já ouviu falar que um grande varejista defende que o aumento do salário mínimo ou da data-base da categoria deve ser repassado ao consumidor. Só que isso não é bem a verdade. Essa é a oportunidade em que o empresário observa o aumento de liquidez das famílias e se apressa a aumentar os preços para obter mais lucro. O empresário sabe que não pode vender um item por determinado preço porque as famílias não poderão pagar por ele. Mas quando ocorre o aumento salarial, ele eleva os preços porque o aumento de liquidez significa que o indivíduo pode pagar um pouco mais pelo mesmo item que era mais barato dias antes.

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