Socialista Morena
Direitos Humanos

O deputado preso, o queijo na cueca e a miséria humana a que chegamos

Exigir que um preso coma mal não é fazer Justiça, é ser mesquinho e desumano. Ninguém vai sair melhor da cadeia por ser impedido de comer queijo e bolachas

Ilustra Mário César
Cynara Menezes
27 de novembro de 2017, 16h03

Quando li a notícia, confesso que ri. O deputado federal Celso Jacob (PMDB-RJ), preso em regime semiaberto, foi mandado para a solitária após ter sido flagrado na volta do final de semana com um saquinho de queijo provolone torrado e dois pacotes de biscoitos na cueca. Vai ficar sete dias no isolamento por causa das guloseimas.

À primeira vista, parecia mais uma notícia da série “não é manchete do Sensacionalista”. Tudo afinal em torno de Jacob é bizarro, a começar do fato de que ele é parlamentar durante o dia e presidiário durante a noite. Nem Dias Gomes seria capaz de criar algo tão surreal nesta Sucupira em que se transformou o Brasil.

Nos países que estes mesmos reacionários que desejam ver os presos brasileiros comendo comida com ratos admiram, a coisa é bem diferente

Mas a cueca recheada do preso-deputado também é exemplar do estado de miséria humana a que chegamos, em que uma pessoa detrás das grades não pode nem comer bolachas e queijo. E olha que o preso em questão é privilegiado. Imaginem se não fosse?

A sede medieval do brasileiro por “Justiça” diz que não basta o criminoso ser preso. É preciso que ele seja submetido às condições mais humilhantes possíveis. Aquele que cometeu um crime, mesmo que se saiba que um terço deles ainda não foram julgados, deve sofrer o máximo para pagar pelo que fez, se é que fez mesmo.

O preso tem que comer mal, dormir mal e viver na sujeira. Ao mesmo tempo, esta sociedade que exige masmorras da Idade Média afirma desejar que o preso se recupere e seja reintegrado. Mas quem é que vai se recuperar sob condições assim? Pelo contrário, submeter o preso a esta degradação só aumenta a possibilidade de corrupção dentro das cadeias, onde quem paga mais ganha mais.

O queijo e os biscoitos que Jacob escondia na cueca

Já falei aqui sobre como esta ótica Os Miseráveis da Justiça tem sido estimulada pela operação Lava-Jato, até como estratégia para que os presos façam as delações premiadas. O problema é que, ao agir assim, seus mentores ignoram um dos dois pilares da prisão de criminosos: a reinserção à sociedade, além da punição. No fundo, os punitivistas não estão nem aí para a recuperação do preso, por isso se importam tanto que eles comam pessimamente na prisão.

O que estas pessoas não sabem é que a comida é uma três principais três principais razões para a ocorrência de motins nas cadeias. Um prato de comida estragada pode funcionar como estopim para uma rebelião. A comida também contribui para a auto-estima para os presos: quanto melhor a alimentação, mais eles se sentem valorizados como seres humanos, o que facilita a recuperação. Fazê-los sentir-se como animais não ajuda em nada.

Até por isso, nos países que estes mesmos reacionários que desejam ver os presos brasileiros comendo comida com ratos admiram, a coisa é bem diferente. Nos Estados Unidos, existem prisões com alimentações vegetarianas, veganas e elaboradas em respeito às diversas religiões. Os internos também podem comprar chocolate, carne seca, mel, manteiga de amendoim e salgadinhos dentro da prisão.

Esta ótica Os Miseráveis tem sido estimulada pela operação Lava-Jato, até como estratégia para que os presos façam delações. Seus mentores ignoram um dos dois pilares da prisão de criminosos: a reinserção à sociedade

Na Inglaterra, os presos podem escolher entre comida normal, vegana, vegetariana, muçulmana, kosher e até com restrições a lactose e farinha de trigo, mas nos últimos anos piorou muito, causando rebeliões. Na Noruega, os apenados podem fazer sua própria alimentação individualmente em cozinhas bem equipadas. Na Suécia, além de refeições saborosas, eles têm direito à fika, o típico café que todo sueco tem, acompanhado de acepipes como rolinhos de canela. Na Áustria, eles têm quartos privativos com cozinha.

Na Alemanha, o sistema prisional enfatiza mais a reabilitação do que a punição e as penitenciárias são pensadas como um espelho da vida exterior, com os presos usando suas próprias roupas, comendo boas refeições e até praticando ioga, e a substituição das refeições por sanduíches do Mc Donald’s em uma só delas causou escândalo no país.

Exigir que um condenado coma mal não é fazer Justiça, é ser mesquinho e desumano. Não importa se ele é um criminoso de alta periculosidade ou um corrupto. Ninguém vai sair melhor da cadeia sendo impedido de comer um saquinho de queijo e dois pacotes de bolachas.

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Bruno Santana em 27/11/2017 - 16h25 comentou:

Puta texto! Parabéns!

Responder

John em 27/11/2017 - 21h00 comentou:

Você tá zoando, né? Os criminosos condenados e finalmente presos, num país onde a impunidade sempre foi regra, não exceção; quebram as regras do presídio contrabandeando alimentos e vc rumina esse textão defendendo esses pilantras que até poucos meses atrás estavam lesando os cofres públicos e rindo da nossa cara.

Lamentável…

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    Luís Fraga em 27/11/2017 - 23h00 comentou:

    Que dificuldade de interpretação não? Parece que você também está contaminado pela sanha punitivista e pelo clima de ódio que se instalou na nossa sociedade.

    Cynara está tratando de conceitos, ideias, justiça, direitos. Este é o tema abordado em função de uma notícia, mas que droga não?
    É preciso identificar “QUEM” e “SE” ela está defendendo e assumir logo o “NOSSO” lado!

    Pádua em 28/11/2017 - 00h21 comentou:

    Lamentável é um comentário onde se diz que alguém “rumina”. Essa é a óptica punitiva de grande parte da população. Não percebem que o sistema como está só gera mais conflito sociais. Foi por essas e outras que surgiu a maior facção criminosa do Brasil o PCC.

    Ana Julia em 28/11/2017 - 09h38 comentou:

    Acho lamentável uma pessoa, quiçá esclarecida, não perceber a profundidade do texto além das palavras, que vai muito profundamente na causa da miséria humana…lamentável ver pessoas compactuando com isso.

Viviane em 28/11/2017 - 11h10 comentou:

A miséria humana chegou ao ponto de a Globo – com a óbvia colaboração do MP-RJ – exibir imagens de presos como entretenimento para uma noite de domingo…

Responder

Vicente Jouclas em 28/11/2017 - 13h34 comentou:

Pensei que o artigo era de um estudioso de sociologia e … é mesmo! Rssr.
Parabéns Cynara Menezes.
A passagem do Estado que deveria se reconhecer fracassante é lúcida.
Abraços.

Responder

John em 29/11/2017 - 08h01 comentou:

Luiz Fraga, bandido bom é bandido preso. Uma vez preso, siga as regras impostas. Não é igualdade que buscamos?

Ah, uns são mais iguais que os outros, então devemos ser coniventes com os mimos que os condenados de alto escalão dispõe pois são os direitos humanos que estão em jogo, né?!

Curioso que ao invés de divagar sobre as condições precárias as quais os presos de baixo escalão estão submetidos nas alas de presos “comuns”, como mostrado na reportagem da rede Globsci, a nobre socióloga preferiu defender aqueles que tanto contribuiram ao longo de sua vida pública para o bem estar do povo, enchendo os bolsos de dinheiro público desviado de forma sistêmica e desavergonhada.

Shame on you!

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