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Cultura

Nós achamos a Coreia do Norte bizarra. Mas e a Coreia do Norte, o que acha de nós?

O que os norte-coreanos acham dos ocidentais? Será que para eles não somos nós os bizarros? O cineasta neozelandês Slavko Martinov resolveu fazer um exercício de como seria a visão dos habitantes do país sobre nós

Cynara Menezes
07 de março de 2016, 18h33

A mídia internacional não para de dar notícias estranhas sobre a Coreia do Norte, um dos países mais fechados do planeta. Uma hora publicam que lá é obrigatório ter o corte de cabelo igual o do líder Kim Jong-Un; noutra, que ele fez plástica para se parecer com o avô, Kim Il-Sung; falam que Kim, apesar de comunista, tem uma coleção de tênis da Nike, e também que mandou fuzilar a ex-namorada, que dias depois apareceu vivinha da silva na TV; dizem que dormir em reuniões no país pode ser punido com a morte e até que dirigir é proibido. Ninguém sabe se essas notícias são verdadeiras (é mais provável que sejam falsas), mas a imprensa as espalha assim mesmo.

É natural, portanto, que todos nós, eu inclusive, achemos a Coreia do Norte um país bizarro. Mas o que será que os norte-coreanos acham dos países ocidentais? Será que para eles não somos nós os bizarros? O cineasta neozelandês Slavko Martinov resolveu fazer um exercício de como seria a visão dos habitantes do país sobre nós, com o filme Propaganda. Martinov apresentou ao mundo o documentário, em 2012, como se tivesse sido feito pelo governo norte-coreano e publicado em partes no youtube por sua suposta tradutora, Sabine. Só quando estreou no Festival de Documentários de Amsterdam é que o segredo foi revelado.

“Como dizem na Itália, se non é vero, é ben trovato“, comenta o filósofo marxista Slavoj Zizek sobre Propaganda em seu livro Problema no Paraíso (Zahar). Foi Zizek quem me chamou a atenção para o documentário, e tive a mesma impressão que ele, de que “parece tão verdadeiro que é difícil de digerir”, ao mostrar como o capitalismo, o imperialismo e a manipulação de massa “permeiam todos os aspectos das vidas das massas jubilosamente ignorantes, à beira da zumbificação”.

“O motivo pelo qual Propaganda frequentemente parece tão verdadeiro que é difícil de aceitar é não apenas o fato, conhecido desde as Cartas persas de Montesquieu, de que o olhar ingênuo de um estrangeiro é capaz de perceber em nossa cultura coisas que nós mesmos, imersos como estamos nela, não conseguimos ver, mas também a oposição extrema entre Coreia do Norte e do Sul é sustentada pela similitude subjacente indicada pelo título do filme: dois modos extremos de atemporalidade, de suspensão da própria historicidade. (Por isso o termo ‘propaganda’ é ele mesmo emblemático: o falso documentário usa como título uma palavra que corresponde ao seu próprio universo ideológico –norte-coreano)”, escreve Zizek.

O retrato que os “norte-coreanos” fazem de nós é demolidor. Numa sociedade dominada pelas grandes corporações, elas usam o trabalho escravo para vender produtos desnecessários a outros escravos, nós; a Bíblia é nada mais nada menos que um manual de propaganda utilizado para ajudar a anestesiar o cérebro das pessoas; slogans vagos como o da Apple, “this change everything”, são utilizados porque, como não significam nada, ninguém será contra eles.

Propaganda é especialmente arrasador com os Estados Unidos e sua falsa democracia. “A democracia é só mais um slogan. Os EUA atacaram mais de 30 países e nenhum deles foi transformado numa democracia”, lembra o filme. Na tela, desfilam os milhares de civis mortos nestas invasões, inclusive crianças, em cenas dantescas. Diante de iraquianos assustados, a frase do soldado norte-americano resume a diferença entre discurso e prática: “Estamos aqui pela sua merda de liberdade, se afastem!!!” Enquanto isso, a “perigosa” Coreia do Norte jamais invadiu país algum. No entanto, sofre sanções da ONU por se armar contra os inimigos –todos eles potências nucleares não sujeitas a sanções.

Também Israel não escapa ao olhar crítico “norte-coreano”, com seu uso político de palavras como “assentamento”, quando o que fazem na Palestina é “invasão”, “confisco”, “colonização”. “Exploram o holocausto para se transformar em vítimas, quando as vítimas são os palestinos”, diz o “psicólogo norte-coreano” que apresenta o documentário, meio a citações de intelectuais de esquerda como Noam Chomsky.

O mais devastador retrato pintado pelo documentário é, sem dúvida, o da indústria da moda e das celebridades. O bombardeio cotidiano de crianças e pré-adolescentes para que comprem produtos é visto pelos “norte-coreanos” como “pedofilia corporativa”. As celebridades são chamadas de “parasitas narcisistas” capazes de ir à África e Ásia “comprar crianças” para se promover –sim, Madonna, Angelina Jolie e Brad Pitt não escapam. Sobre Michael Jackson, o olhar é de pena. “Vejam o que os Estados Unidos fizeram a este homem”.

Eu entrevistei por email o diretor Slavko Martinov, neozelandês de ascendência iugoslava.

Nós costumamos pensar na Coreia do Norte como um país bizarro e o filme transmite a ideia de que são os países ocidentais que parecem bizarros para quem vive lá. Foi essa sua primeira intenção ao fazer o documentário?
Minha primeira intenção foi fazer um filme sobre propaganda (como funciona e como é usada para convencer pessoas a comprar, votar e apoiar quem a usa). Mas me dei conta de que seria meio chato, então surgiu a ideia de fazer um filme interceptado de outro país que atacasse a propaganda ocidental. Esse era o gancho que prenderia a atenção do público, já que não costumamos olhar nossa própria cultura de um ponto de vista objetivo. Em seguida, tive de escolher um país entre Irã, Cuba e Coreia do Norte, e a escolha me pareceu óbvia: a Coreia do Norte é o único país que evita ativamente a cultura ocidental a todo custo. Comecei a pesquisar e escrever, sempre lembrando a mim mesmo de olhar para tudo sob uma perspectiva norte-coreana. Foi uma experiência estranha, escrever de forma crítica sobre uma cultura da qual eu faço parte. Mas foi também excitante me colocar de lado e examinar as coisas usando este método.

Você teve alguma resposta da Coreia do Norte sobre o doc?
Não. Mas fomos contactados pelo governo da Coreia do Sul e acusados de ser simpatizantes comunistas e de conspirar junto com a Coreia do Norte. Eles me acusaram de ter sido financiado pela Coreia do Norte para fazer o filme! Que ironia! Eu acho que aconteceria o mesmo se o regime norte-coreano soubesse do filme…

Eu soube do seu documentário pelo livro do Zizek, Problema no Paraíso. Você concorda com a visão dele sobre o filme e sobre a Coreia do Norte em geral?
Ainda não li o livro, soube ano passado que ele cita meu filme quando alguém que estava lendo me enviou uma foto do parágrafo. No entanto, conheço as visões dele sobre a Coreia do Norte e é difícil não concordar. Em particular, sua recomendação aos líderes (e ditadores em geral) para que não afrouxem as rédeas, porque eles irão querer mais. Dado o crescente fluxo de pendrives com filmes ocidentais para dentro do país e a proliferação de celulares, será interessante ver o que exatamente acende a demanda por ‘mais’ (mudança) na população. A fome por acesso ao que o resto do mundo tem é maior do que a necessidade por comida? Eu sempre vejo a mudança como inevitável, então será fascinante ver o que será o estopim na Coreia do Norte.

Você chegou a visitar o país ou pretende fazê-lo?
O filme teria duas partes, com a segunda me levando ‘de volta’ para a Coreia do Norte para o take final: o líder norte-coreano. Após a filmagem, meu objetivo era fazer a mais incrível entrevista de todos os tempos, sem saber se isso me daria uma recepção com tapete vermelho ou eu seria mandado para os gulags. Estava preparando a viagem quando o filme hollywoodiano The Interview apareceu. Ha. Você acredita nisso? Nem em uma centena de anos eu poderia imaginar que isso pudesse acontecer. Então não tive outra escolha a não ser abandonar o projeto. Seria arriscado, eu sei, mas também muito interessante. Ainda não fui e não sei o que poderia acontecer comigo se eu fosse.

Você trabalhou com alguma consultoria norte-coreana? Aquele ‘psicólogo’ que aparece no filme é um nativo?
O ‘doutor em psicologia’ é Eugene Chang, um sul-coreano que vive na minha cidade, Christchurch. Eu precisava de um tradutor para o roteiro e achei que ele era o melhor, então me aproximei dele cautelosamente para ver se poderia fazê-lo e ser discreto. Quando eu o encontrei e comecei a falar com ele, ocorreu a mim que seria genial que interpretasse o papel do apresentador norte-coreano. Perguntei para ele e ele disse sim.

O filme foi exibido nos cinemas nos EUA?
O filme foi exibido no festival do Michael Moore e ele me cedeu seus advogados para me ajudar a entrar nos EUA (não foi fácil por causa do filme). Mas nenhum cinema nos EUA o exibiu. E a maioria das televisões ao redor do mundo querem exibi-lo, mas temem pela reação negativa dos telespectadores. É uma pena, porque o assunto de que ele trata é cada vez mais relevante.

***

Assista o filme no link abaixo, é absolutamente genial. Não sei se mudará sua visão sobre a Coreia do Norte, mas com certeza abalará suas convicções sobre o mundo em que vivemos.


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(2) comentários Escrever comentário

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Juca domero em 31/01/2018 - 23h33 comentou:

Pra inicio de conversa norte-coreanos não tem nem acesso a internet, muito menos senso critico sobre o que acontece no ocidente, o máximo de mídia que desfrutam é televisão com propagandas repetitivas. Esse documentário nada mais é do que a imaginação do autor, nada de fato procede, Coréia do norte é uma ditadura fascista desgraçada com sérios problemas de abusos dos direitos humanos.

Responder

    Cynara Menezes em 01/02/2018 - 15h50 comentou:

    acho que você não entendeu que o documentário é uma provocação. tente ler o texto novamente

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