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Está na hora de os partidos de esquerda reeditarem o “governo paralelo”

Assim como fez o PT com Collor, um gabinete paralelo instituído seria capaz de demonstrar as diferenças entre dois projetos de país

Haddad recebe o apoio do PSOL durante a campanha. Foto: divulgação
Cynara Menezes
05 de janeiro de 2019, 10h44

Em 1990, após a vitória de Fernando Collor na eleição de 1989, o PT decidiu montar um “governo paralelo” em contraponto ao oficial. Foram escolhidos “ministros” e tudo, com o objetivo de mostrar à população as diferenças entre os dois projetos de país e as medidas que seriam tomadas por Lula na comparação com o que estava sendo feito pela direita. É hora de os partidos de esquerda, capitaneados pelo PT, PSOL e PCdoB, reeditarem esta experiência.

“Eu aposto muito no governo paralelo, porque ele poderá mostrar para a sociedade o outro lado da moeda. Poderá mostrar os seus projetos e as contradições que existem na política oficial”, explicou Lula, coordenador do governo paralelo, em entrevista na época. “Ele vai se tornar uma alternativa concreta para a sociedade brasileira, uma fonte de referências. A sociedade vai perceber que tem alguém no Brasil que além do discurso apresenta coisas concretas.”

Bolsonaro tem um projeto para a Previdência? O governo paralelo também apresenta o seu. Bolsonaro ameaça as terras indígenas e quilombolas? O governo paralelo esclarece a população sobre isso. Bolsonaro quer doutrinar criancinhas nas escolas? O governo paralelo demonstra que a esquerda nunca o fez. O gabinete paralelo, tradição em países como a Inglaterra, Canadá e Austrália, seria mais uma forma de a oposição se posicionar e esclarecer a população.

O gabinete paralelo, tradição em países como a Inglaterra, seria mais uma forma de a oposição se posicionar e esclarecer a população. E o mais importante: teríamos a possibilidade de manter vivas na memória do povo as ideias e os ideais de esquerda

No dia em que Collor apresentou seu nefasto plano econômico, por exemplo, o governo paralelo convocou entrevista coletiva para que os especialistas da área o rebatessem. Uma das formas de atuação no período era o recolhimento de assinaturas para apresentar emendas populares, uma tarefa hoje facilitada pelas redes sociais. Bolsonaro só tem maioria simples no Congresso. Ou seja, quanto mais pressão por lá, melhor. Projetos com um número alto de assinaturas terão o poder de mobilizar a opinião pública e angariar apoio para propostas diametralmente opostas às do governo de extrema-direita.

A fórmula de oposição organizada como governo paralelo é extremamente útil para obter adesões junto à sociedade civil. Não é difícil prever que, assim que o projeto econômico de Bolsonaro começar a naufragar, setores das chamadas “classes produtivas” irão perceber que se trata de um projeto vazio de país, sem sustentabilidade nem futuro –e que lhes trará prejuízo financeiro. O próprio agronegócio, um dos principais sustentáculos do governo, vai logo se dar conta que o desprezo pelas questões ambientais mais prejudica o setor internacionalmente do que o fortalece.

Outra utilidade do governo paralelo será combater a maquiagem e as mentiras que serão promovidas pelo governo Bolsonaro com a intenção de iludir o povo e conquistar popularidade, como fez a ditadura militar que o presidente tanto admira. Entidades como o IBGE e o Ipea correm o risco de ser aparelhados em benefício da narrativa governamental, e é preciso ter desde já figuras respeitáveis destas instituições atuando para desmentir, de forma “oficial”, a manipulação. Cada vez que o governo apresentar “números”, o governo paralelo, em entrevista coletiva, apontaria a incongruência dos dados.

Para cada área, um nome deveria ser indicado, como se fossem “ministros” de um governo “sombra”, inclusive de pastas extintas por Bolsonaro. Já imaginaram a Sonia Guajajara num Ministério paralelo dos Povos Indígenas? E Boulos na Reforma Agrária e Urbana?

Na época de Collor, o governo paralelo atuou também na defesa da Constituição, acionando o STF sempre que alguma medida contrariasse a Carta Magna, algo que vai se tornar frequente nos anos Bolsonaro. Para cada área destas, um nome deveria ser indicado, como se fossem “ministros” de um governo “sombra”, como também é chamada a experiência de governo paralelo em outros países. Seriam indicados inclusive nomes para as pastas e instituições extintas por Bolsonaro.

Em 1990, tínhamos, paralelamente ao gabinete de Collor, Antonio Candido na Cultura; Aziz Ab’Saber no Meio Ambiente; Benedita da Silva na Defesa da Cidadania e Combate às Discriminações; Carlos Nelson Coutinho nas Relações Exteriores; Cristovam Buarque na Educação e Desenvolvimento; Cristina Tavares nas Comunicações; Paulo Paim no Trabalho; e Luiz Pinguelli Rosa na Ciência e Tecnologia, entre outros. Não será difícil formar uma equipe semelhante, com personalidades de fato preparadas para estar no governo do país.

Na área da Justiça, por exemplo, nomes ligados à defesa de um Judiciário democrático e sem viés estariam aptos a entrar no embate com a visão medieval e partidarizada de Sérgio Moro à frente da pasta. Na área da Educação, um ministro paralelo daria entrevista alertando sobre a intenção real de impor a ideologia de extrema-direita e a defesa da ditadura militas nas escolas toda vez que o reacionário escolhido por Bolsonaro defendesse o “escola sem partido”. Já imaginaram a Sonia Guajajara num Ministério paralelo dos Povos Indígenas? E Boulos na Reforma Agrária e Urbana?

O mais importante: com o governo paralelo instituído teríamos a possibilidade de manter vivas na memória do povo as ideias e os ideais de esquerda e as realizações dos governos Lula e Dilma, distorcidos pelos Bolsonaro ao longo dos anos com suas fake news e que agora serão ainda mais vilipendiados com a ajuda da imprensa comercial e o uso da máquina do Estado.

 

 


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Maria Cecilia em 05/01/2019 - 10h53 comentou:

Olá!
Gostaria de colaborar, mas a grana anda curta. Assim que der, colaboro.
Se possível faça chegar esta proposta aos partidos, pois só ficar raivoso realMente não vai adiantar.
Admiro seu trabalho!!
🙌🏽🙌🏽

Responder

    Cynara Menezes em 05/01/2019 - 11h47 comentou:

    obrigada

Fábio P. R. em 05/01/2019 - 11h07 comentou:

Eu apoio, mas tenho uma pergunta: adiantou isso em 1990? Eu era muito novo e não lembro disso. Teria sido um dos estopins do impeachment de Collor ?

Responder

    Cynara Menezes em 05/01/2019 - 11h46 comentou:

    funcionou como vitrine para a oposição

Felipe em 05/01/2019 - 12h15 comentou:

Maravilha, Cinara!

Responder

Adriano Gomes em 05/01/2019 - 12h34 comentou:

Olá Cinara. Já fui amplamente crítico a seus ideais, mas hoje me alinho muito ao seu pensamento até certo ponto. Acredito que o PT deveria passar por uma auto-crítica profunda, reformular-se e, aí sim, formar um “governo paralelo” com todo e qualquer partido (ficha limpa, necessariamentr) que seja contra todo o retrocesso que o atual governo trará.

Responder

Danilo M. em 09/01/2019 - 11h09 comentou:

Importante que a esquerda se mantenha ativa nesse 4 anos

Responder

Ângela Valério Horta de Siqueira em 10/01/2019 - 00h14 comentou:

Seria a forma de instruir o povo sobre o que é uma prática de governo pela visão da esquerda, um modo de ajudar a desenvolver o espírito crítico das massas ( desde que se consiga chegar até elas, bem entendido), dar essa instrução básica, que é o sustento do apoio popular e a esquerda não priorizou enquanto foi governo, provavelmente muito ocupada em governar.
Esse descuido nos fragilizou diante dos ataques ininterruptos da mídia em geral às ações do governo petista, transformando todo o “bom” no “sem importância” ou mesmo “ruim”, deturpando o sentido dos benefícios mesmo para aqueles que deles usufruíam.
O valor intrínseco da liberdade, até esse foi subvertido pela lógica imunda de traidores do povo. Como recuperá-lo?

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Sérgio Montmorency Pestana em 21/01/2019 - 18h31 comentou:

Perfeitamente em concordância contigo. Porém, faço um reparo: desse arranjo discordo se Ciro gomes e a turma do PDT participarem, embora o PCdB tenha pisado na bola em apoiar o Maia para presidente da Câmara Federal.
PCdB tem uma história de lutas quase centenárias não pode se somar a um aventureiro e trânsfuga da política com o Ciro Gomes. Este transitou da extrema-direita (ditadura militar) para a centro-esquerda sem nunca apresentar uma programa factível. Nunca procurou formar com sua auto-decantada experiência um partido que agasalhasse suas propostas ou “ideias”, mas sempre questionando àqueles que tiveram a coragem e foram à luta. Ele quer ser o Sol e que todos gravitem em torno de si. Estrela candente e sem brilho se aproveita dos outros para se autopromover politicamente. PDT fora!
Agora, a ideia de formar um “governo paralelo” vejo com bons olhos e será, sem dúvida, um contraponto ao desgoverno que mal inicia seu caminho de tão despreparado se mostra. Importante é formar uma frente de esquerda democrática e eliminar de vez os aproveitadores. Isso é ser pragmático sem que sectário e mais: saber usar os meios necessários para tensionar o memento e fragilizar a ultra-direita liberal e seus programas excludentes.

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Charles Bakalarczyk em 22/01/2019 - 08h56 comentou:

Cynara, parabéns pelo teu trabalho neste site. Vou me “organizar” e logo ali adiante fazer uma pequena doação.
Continua!

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