Socialista Morena
Direitos Humanos

Exclusão pela prisão: como o racismo judicial pode ajudar a eleger Donald Trump

Os negros representam 13% da população dos Estados Unidos, mas representam 40% da população carcerária do país, a maior do mundo. Um em cada 9 afro-americanos entre os 20 e os 34 anos estão presos. Estatísticas indicam que os negros são duas vezes mais parados pela polícia no trânsito do que os brancos; são mais […]

Cynara Menezes
08 de novembro de 2016, 21h24
prisonslave

(“Há mais negros presos hoje do que havia escravos em 1850”. Ilustração: Billy Dee)

Os negros representam 13% da população dos Estados Unidos, mas representam 40% da população carcerária do país, a maior do mundo. Um em cada 9 afro-americanos entre os 20 e os 34 anos estão presos. Estatísticas indicam que os negros são duas vezes mais parados pela polícia no trânsito do que os brancos; são mais presos por porte de droga do que os brancos; permanecem mais tempo presos aguardando julgamentos do que os brancos; e recebem penas maiores do que os brancos. Levando-se em consideração que, em 12 Estados norte-americanos, as pessoas condenadas pela Justiça não podem votar nunca mais e que os negros preferem Hillary Clinton, é possível que Donald Trump seja beneficiado pelo racismo judicial nestas eleições.

A lei dos EUA em relação ao voto por condenados varia de Estado para Estado. No Brasil, 61,6% dos detentos são negros, mas os presos provisórios, ainda sem condenação definitiva, podem votar dentro da cadeia mesmo; após cumprir a pena, também podem retomar seus direitos políticos e votar. Em alguns Estados norte-americanos, no entanto, a perda de direitos pode ser perpétua e, dadas as estatísticas prisionais, prejudica e exclui diretamente os negros. Só em dois Estados, Maine e Vermont, não existem restrições para os condenados votarem. E, nos Estados onde eles podem votar após a condenação, a demora é enorme para que os direitos sejam restituídos por causa da burocracia.

Um levantamento feito pelo Sentencing Project, organização da sociedade civil que atua para melhorar a Justiça criminal dos EUA, chegou a números impressionantes: nada menos que 6,1 milhões de norte-americanos estão impedidos de votar nestas eleições por conta das restrições aos condenados, ainda que estejam fora da cadeia. Na verdade, o número de pessoas impedidas de votar é maior entre os que estão fora do que os que estão detrás das grades. 10% dos eleitores da Flórida não poderão votar porque um dia foram condenados à prisão, embora cerca de 600 mil já tenham cumprido sua pena.

(Vídeo: apoiadores de Trump empurram moça negra no Kentucky)

Entre os negros a situação é ainda mais dramática: 1 em cada 13 afro-americanos não se encontra apto a votar em todo o país, mas em cinco Estados este percentual sobe para mais de 1 em 5. No Kentucky, por exemplo, 26,1% dos negros não estão aptos a votar porque foram condenados e ainda não tiveram seus direitos políticos restaurados. Em Wyoming, 17,2% dos afro-americanos não têm o direito de eleger o presidente do país. Na Virginia, Florida e Tennessee, mais de 21% dos negros foram banidos de participar das eleições. Ou seja, além de sofrer com o racismo do sistema, ao ser presos os negros ainda perdem o poder de interferir no destino da nação. Se transformam literalmente em cidadãos de segunda classe.

São números que contam muito em favor de Trump, que não possui a mesma preferência que Hillary entre os negros e é frequentemente acusado de defender a supremacia branca. De acordo com uma pesquisa da conservadora Fox News, 99% dos afro-americanos preferem a candidata democrata. Já entre os brancos, a preferência por Trump é maior, em torno dos 49%, informa outra pesquisa recente. Já a maioria esmagadora dos latinos declararam voto em Hillary Clinton: 58% contra 18% de Donald Trump, segundo pesquisa do Pew Institute.

É importante lembrar que uma diferença de apenas 537 votos na Florida fez Al Gore perder para George W. Bush em 2000.

 

 


Apoie o site

Se você não tem uma conta no PayPal, não há necessidade de se inscrever para assinar, você pode usar apenas qualquer cartão de crédito ou débito

Ou você pode ser um patrocinador com uma única contribuição:

Para quem prefere fazer depósito em conta:

Cynara Moreira Menezes
Caixa Econômica Federal
Agência: 3310
Conta Corrente: 23023-7
Nenhum comentário Escrever comentário

Os comentários aqui postados são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião da Socialista Morena. Todos as mensagens são moderadas. Não serão aceitos comentários com ofensas, com links externos ao site, e em letras maiúsculas. Em casos de ofensas pessoais, preconceituosas, ou que incitem o ódio e a violência, denuncie.

Deixe uma resposta

 


Mais publicações

Politik

Carolina Maria de Jesus: 100 anos da autora do clássico “Quarto de Despejo”


Não digam que fui rebotalho, que vivi à margem da vida. Digam que eu procurava trabalho, mas fui sempre preterida. Digam ao povo brasileiro que meu sonho era ser escritora, mas eu não tinha dinheiro…

Cultura

Darcy Ribeiro explica a desvantagem histórica do negro em relação ao branco


Uma das maiores balelas do discurso anti-cotas no Brasil é que as políticas de ação afirmativa não se justificam porque “todos são iguais perante à lei”. Iguais como, se uns saíram na frente, com séculos…