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Fake news da “URSAL” é uma síntese do pensamento de extrema-direita no Brasil

Termo sarcástico de artigo de 2001 foi transformado em verdade pela direita reacionária porque reflete sua agenda para o país

A bandeira do Brasil na URSAL, segundo os sites conspiracionistas. Foto: reprodução
Marina Lacerda
13 de agosto de 2018, 15h54

Boa parte da sociedade brasileira, na qual me incluo, surpreendeu-se na semana passada com a invocação, pelo candidato do Patriota, Cabo Daciolo –militar e pregador evangélico–, da tal “União das Repúblicas Socialistas da América Latina”, que, assim como a “ideologia de gênero”, só existe para seus opositores.

Segundo os sites que propagam a ideia, a URSAL seria uma derivação da Teologia da Libertação e do Foro de São Paulo, por sua vez oriundos de “terroristas” e “partidos comunistas latino-americanos”, com apoio de Cuba e Venezuela. A aliança entre estes temas chama a atenção.

A associação entre críticas à Teologia da Libertação, anticomunismo, evangelismo e militarismo não é aleatória nem recente. Trata-se de uma expressão do neoconservadorismo ou da chamada Nova Direita norte-americana.

O neoconservadorismo se refere originalmente à coalizão que reuniu parcela majoritária do movimento religioso evangélico, elementos da direita secular do Partido Republicano e intelectuais na eleição de Ronald Reagan como presidente dos Estados Unidos em 1980. O ideário resultante é neoliberal, anticomunista, contra políticas de bem-estar social, conservador cristão, familista e militarista –no âmbito externo e contra os inimigos internos.

Décadas após a queda do Muro de Berlim, no Brasil a agenda é a de combate ao “socialismo do século 21”, ou a Cuba, ou ao bolivarianismo, ou ao petismo ou, como descobrimos agora, à URSAL

O neoconservadorismo é uma força política ainda bastante presente –senão a mais relevante, vide Bush ontem e Trump hoje– nos Estados Unidos. E, como tratei em minha tese de doutorado recentemente defendida, o ideário neoconservador vem crescendo no Brasil.

É fácil de ver e os candidatos neoconservadores à Presidência –Bolsonaro e Daciolo– são perfeitas ilustrações. Defendem valores da família tradicional; pregam a Bíblia nos espaços políticos; reivindicam armamento pessoal e políticas criminais rígidas. Eles próprios são militares e cristãos conservadores; ao menos Bolsonaro prega valores quase absolutos de livre mercado. Ambos são anticomunistas.

Na década de 1980, o anticomunismo combatia a URSS. Hoje, décadas após a queda do Muro de Berlim, no Brasil, a agenda é a de combate ao “socialismo do século 21”, ou a Cuba, ou ao bolivarianismo, ou ao petismo ou, como descobrimos agora, à URSAL.

E é o combate ao comunismo que diferencia o neoconservadorismo de uma potência imperialista, os EUA, e o de um país de periferia, o Brasil. Nos Estados Unidos o anticomunismo neoconservador, no contexto da Guerra Fria, tinha dois vetores principais: a consolidação do capitalismo como o modo de produção vigente no mundo e a busca de os EUA se consolidarem como a potência global.

Aqui, ao contrário dos Estados Unidos, onde se buscava consolidar o país como potência global, o anticomunismo visa justamente realinhar o Brasil aos EUA, em uma relação assimétrica e subordinada

A integração alinhada aos EUA, que foi adotada na década de 1990 por países da América do Sul, foi revista a partir do novo milênio com governos progressistas no Sul do Continente –incluindo Lula no Brasil. Tratava-se da atuação do Brasil com um perfil assertivo, de valorização de arenas multilaterais, coordenação com países similares e de uma política altiva de desenvolvimento.

Essa política é que é estilizada como comunista, bolivariana, como a própria união das repúblicas soviéticas dos trópicos. Aqui, portanto, o combate ao comunismo vai no sentido contrário de o Brasil atuar com vistas à maior projeção internacional. Esse anticomunismo brasileiro visa justamente realinhar o Brasil aos EUA, em uma relação assimétrica e subordinada.

Em 2001, uma articulista divulgada por Olavo de Carvalho critica a integração “Castro-Chávez-Lula” ironizando que seria a “União das Republiquetas Socialistas da América Latina”. Ela está sendo sarcástica, e não dizendo que a URSAL existe.

Mas o termo ficou no ar; passou a circular com ares de verdade, em pequenos posts em comentários de sites maiores ou em blogs menores ligados à direita reacionária, em tom de teoria da conspiração. Uma brincadeira que pelo poder do submundo da internet foi se tornando real. A URSAL aparece com destaque antes das manifestações de junho de 2013, na época das eleições, cresce em 2015 e tem seu ápice em 2016, durante as votações do impeachment.

Sem pretender ser exaustiva nem cientificamente precisa, pode-se identificar pelo menos quatro fontes de formação de opinião da direita, além dos partidos políticos.

A primeira e mais importante é a Globo. Ilustrada, supostamente a favor do pluralismo, defende os direitos humanos, das mulheres, dos cidadãos LGBTs e dos negros. Mas defende o Estado mínimo e o pacote neoliberal (e, portanto, indiretamente, o aumento da desigualdade social), e o alinhamento do Brasil com os Estados Unidos –ao lado da demonização das alianças Sul-Sul.

A URSAL aparece com destaque antes das manifestações de junho de 2013, na época das eleições, cresce em 2015 e tem seu ápice em 2016, durante as votações do impeachment

A segunda são os “think tanks” libertários como o Instituto Millenium. Defendem liberdades individuais, absolutismo de livre mercado, criticam as alianças “bolivarianas”. Parecido com a grande mídia, mas com menos verniz democrata. São financiados pelo mercado financeiro, industriais e por entidades norte-americanas.

A terceira são organizações como o MBL –patrocinado pelos EUA– que promovem opiniões às vezes libertárias (liberdades individuais + livre mercado) ou neoconservadoras (conservadorismo moral + livre mercado) via tecnologias de difusão pela internet. São possivelmente as fontes mais importantes de fake news atualmente.

O quarto, a direita cristã. No eixo de sua argumentação está a família tradicional e sua interpretação bíblica como o projeto para uma boa sociedade; são neoliberais, mas têm dificuldade com pautas que mexem imediata e diretamente no patrimônio do eleitorado pobre, como a reforma trabalhista; defendem um profundo alinhamento com os EUA. São evangélicos e católicos conservadores. Desenvolvem-se a partir de cultos e pregações, concebidos no ambiente de constante intercâmbio internacional de pastores/padres/intelectuais cristãos.

A URSAL expressa uma ideologia neoconservadora. Mas ela surge como resultado de diferentes expressões da direita. A ideologia anti-chavista é estimulada pelo oligopólio da mídia. A autora que criou a ironia da URSAL é colunista do Instituto Millenium. A “tese” foi espalhada como verdade a partir da internet. E acaba apropriada por um militar evangélico que a coloca em um debate nacional.

As redes digitais progressistas têm tratado a URSAL como uma piada. Apesar do quê cômico, ela sintetiza, no método e no conteúdo, o pensamento de extrema-direita que vem crescendo no eleitorado e no parlamento.

Marina Lacerda é mestre em direito pela PUC-Rio e doutora em ciência política pelo IESP-UERJ.

 

 


(9) comentários Escrever comentário

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Sergio em 13/08/2018 - 18h31 comentou:

Problema também Cynara, é que quando se falava em Foro de São Paulo, várias vozes da esquerda, várias mesmo, minimizavam sua existência. Em vez de assumir. Sim existe! Nosso objetivo é esse e esse. Qual o problema? O próprio José Dirceu admitiu que estava trabalhando para uma America Latina com governos de esquerda.

E novamente, aparece o URSAL, e se trata na chacota. Consequência? Deu-se o argumento à direita de dizer que existe. E agora existe mesmo. Apareceu no debate dos presidenciáveis, não se leva o assunto a sério. Multiplicam-se os memes bobinhos, e do outro lado gente que desconhecia o Foro de São Paulo começam a entrar na mentalidade que estamos sob um ameça de um governo ditatorial comunista como o regime Cubano. É o combustível que a esquerda deu a eles! Parabéns à esquerda que fortalece até Darciolo!

Para piorar Ciro Gomes diz desconhecer o Foro de São Paulo quando ele já no passado comentou!

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João Junior em 13/08/2018 - 19h51 comentou:

Políticas de direita não costumam ser populares porque sempre caminham na direção de menos direitos sociais, impondo certo auto-sacrifício. Para isso valer a pena é necessário, pelo menos aparentemente, combater um mau maior. Nessas horas, o discurso preferido da direita é o de que a liberdade conquistada pela revolução francesa está sob ameaça, a ameaça do comunismo, por exemplo. Dizem eles que é o pior dos mundos viver sob forte intervenção estatal. E o que é uma ditadura conservadora senão uma forte intervenção estatal? O que a foi a ditadura militar senão uma forte ação do Estado? É preciso meditar que vivemos sempre sob a presença do Estado, ora na cobrança dos impostos, ora na mediação social, ora na imposição das Leis… E é sempre por meio do Estado que a direita prega a minoração do Estado! É incrível, mas a direita consegue inverter a lógica da existência do Estado, de um ente que existe para prover serviços a todos para algo contrário, para a ideia de que o Estado deve se servir da nossa capacidade produtiva e para garantir a elite no poder. Cabe somente ao eleitor mudar essa forma de o Estado ver o mundo.

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José Ricardo em 13/08/2018 - 22h18 comentou:

Ela coloca a ursal como uma criação da extrema direita ?!

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    Cynara Menezes em 14/08/2018 - 11h00 comentou:

    a URSAL é uma invenção da extrema-direita, não existe. é o que diz o texto. por que vocês têm tanta dificuldade cognitiva?

Sergio em 14/08/2018 - 08h43 comentou:

E complementando. Foro de São Paulo, foi de fato um sonho da esquerda, mas, qualquer pessoa com um meio neurônio já sabia que jamais daria certo, porque criar um bloco de países de esquerda, com países insignificantes no cenário internacional, militarmente fracas, economicamente fracas, é ilusório. Só na cabeça de José Dirceu e tantos outros “pensadores” isso daria certo. Quando existia a URSS isso não foi para frente!

O fato é que Foro de São Paulo é uma perca de tempo! E o que interessa realmente ao país não se discute!

Acorda direita! Acorda esquerda!

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Bruno em 15/08/2018 - 13h42 comentou:

O Cabo Daciolo é um idiota alucinado.

Mas acho que, para uma doutora em ciência política chamar de “extrema-direita” toda e qualquer corrente política que esteja à direita do Partido da Social-Democracia Brasileira e reduzir o pensamento dessa “extrema-direita”, assim definida, à idiotice alucinada do Cabo Daciolo, sem perder o decoro acadêmico e sem passar por uma mera propagandista que passou sua vida adulta inteira dentro de uma bolha, ela deveria ter respondido antes a algumas perguntas:

– O que é a Unasul?

– Por quem ela foi criada?

– Em que contexto eleitoral ela foi criada?

– Para a realização de quais objetivos programáticos — tais como constam em seu tratado constitutivo de 2008 — ela foi criada?

– Por que a Colômbia, mesmo tendo participado da criação da organização, boicotou suas reuniões ainda nos primeiros anos?

– Por que o Paraguai foi suspenso da organização em 2012?

– Por que o Brasil, a Argentina e o Chile se autossuspenderam da organização há poucos meses?

– Por que a Venezuela vetou o indicado argentino para a chefia da organização?

– Por que a Colômbia se retirou na semana passada, em caráter definitivo, da organização?

– Dar carta branca à Bolívia para confiscar propriedades e violar contratos com a Petrobras após ela, a Bolívia, ter passado décadas mendigando investimentos brasileiros é ser assertivo e altivo na defesa do interesse nacional?

– Por que ser explorado pelos bolivarianos é melhor do que ser explorado pelos ianques?

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Thieres em 15/08/2018 - 14h08 comentou:

O nome dado é o que menos importa. O que não há como negar é que a formação de um grande bloco continental de países alinhados sempre foi um objetivo da esquerda latino-americana. Um molde totalmente distinto da finada URSS, é verdade mas ainda assim algum tipo, se não como entidade, de uma cúpula, fórum, aliança, whatever… uma estrutura de poder/decisão supranacional com o objetivo de promover a ascensão de governos de esquerda, não necessariamente autoritários, e mantê-los o máximo de tempo de possível no poder.

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    Cynara Menezes em 16/08/2018 - 15h40 comentou:

    claro, porque um bloco de países alinhados na américa do sul é muito ruim. vide a união europeia

Selmy Menezes de Sousa em 20/08/2018 - 23h54 comentou:

O Ciro disse que não conhecia a URSAL, não o Foro de SP.

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