Socialista Morena
Feminismo

A força da mulher negra

A esquerda precisa mudar a forma como vê a luta anticapitalista. Nós, militantes do movimento de mulheres, devemos priorizar ações para a empregada doméstica, heroína invisível da base da pirâmide, e transformá-la em força social

Mulheres negras com a bandeira dos Black Panthers em 1968. Foto: Pirkle Jones/Ruth-Marion Barouch
Benedita da Silva
08 de agosto de 2017, 14h06

Em recente visita ao Brasil, a filósofa, professora e ativista norte-americana Angela Davis disse algo que nós, mulheres negras, sentimos há muito tempo. Suas palavras estão repercutindo como um terremoto no pensamento e nas políticas das esquerdas.

Afirmou Angela Davis: “Quando a mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela, porque tudo é desestabilizado a partir da base da pirâmide social onde se encontram as mulheres negras. Com isso, muda-se a base do capitalismo“.

Esse pensamento coloca na ordem do dia a necessidade de mudarmos as formas tradicionais de como pensamos a luta anticapitalista, ainda muito restrita ao conceito economicista de classe social em seu aprofundamento sobre o feminismo, sobretudo em suas conexões de gênero, raça e classe.

Na realidade social do capitalismo, essas categorias estão interligadas e nenhuma delas precisa ceder seu papel face às outras. Angela Davis apontou o caminho.

Vivendo sob o peso da injustiça social produzido por um sistema de brutal exploração do ser humano, a situação das mulheres negras acaba concentrando os aspectos mais nocivos dessa sociedade: são as mais exploradas como trabalhadoras, as mais discriminadas por sua raça e as mais oprimidas.

Além disso, as mulheres negras são maiores vítimas de estupro e representam o maior número de encarceradas. Estão, sem dúvida, entre os segmentos mais vulneráveis da sociedade.

A situação das mulheres negras acaba concentrando os aspectos mais nocivos da sociedade capitalista: são as mais exploradas como trabalhadoras, as mais discriminadas por sua raça e as mais oprimidas

No Brasil, as mulheres negras representam a esmagadora maioria das trabalhadoras domésticas, que contam com péssima condição social e são invisíveis na sociedade em que vivem, pois em nenhuma outra profissão é possível enxergar com tamanha facilidade as chagas abertas do trabalho escravo. Essa herança maldita persiste em nossa sociedade, contaminando mentes e produzindo intolerância.

Angela Davis lembrou ainda que o movimento da enorme categoria das trabalhadoras domésticas, no Brasil obteve conquistas históricas junto à CLT, mas viu a “reforma” trabalhista do governo Temer jogar tudo isso na lata do lixo.

A trabalhadora doméstica, que, com o seu trabalho estafante e de baixíssima remuneração organiza a casa dos patrões e, ao mesmo tempo, é chefe de família e paga os estudos de seus filhos, é a heroína invisível que está na base da pirâmide social.

Essa trabalhadora é aquela para quem Angela Davis e todas nós, militantes do movimento de mulheres, devemos priorizar sempre as nossas ações para transformá-la em força social.

Benedita da Silva é deputada federal pelo PT do Rio de Janeiro

 

 


(1) comentário Escrever comentário

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José Cláuver em 09/08/2017 - 07h00 comentou:

Viva Angela Davis!

O racismo brasileiro só vai deixar de existir com luta, muita luta.

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