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Gritar enquanto dirige é feio? Os espanhóis acham perfeitamente normal

Pesquisa sobre xingamentos no trânsito é agraciada com prêmio Ig Nobel da Paz 2018

Imagem do desenho Goofy Motor Mania, de 1950
Dionizio Bueno
31 de outubro de 2018, 18h09

Apenas uma pequena parcela dos motoristas espanhóis considera perigoso berrar e xingar os outros enquanto dirige. Aproximadamente 44% dos motoristas de lá que admitem gritar ou dizer insultos ao volante afirmam que fazem isso por causa do comportamento do outro motorista, seja porque este desrespeitou as regras, seja porque ele fez uma manobra perigosa. Os comportamentos agressivos observados nas ruas estão relacionados a fatores subjetivos como estresse, fadiga e traços de personalidade.

Essas são algumas das conclusões da pesquisa que deu ao espanhol Francisco Alonso e colegas o Prêmio Ig Nobel da Paz 2018, anunciado em setembro. O trabalho foi o escolhido deste ano “por medir a frequência, as motivações e os efeitos de gritar e xingar enquanto se dirige um automóvel”.

Aproximadamente 44% dos motoristas espanhóis que admitem gritar ou dizer insultos ao volante afirmam que fazem isso por causa do comportamento do outro motorista

Em uma cerimônia de gala, a entrega dos Prêmios Ig Nobel acontece todo mês de setembro em um enorme teatro na Universidade de Harvard. Nela, segundo a página da organização, mais de mil “espectadores esplendidamente excêntricos assistem aos novos ganhadores receberem seus prêmios”, que lhes são entregues “por genuínos laureados do Prêmio Nobel, genuinamente desconcertados”.

The Stinker, o símbolo do Ig Nobel

Organizado pela revista Annals of Improbable Research (Anais da Pesquisa Improvável), o Prêmio Ig Nobel existe desde 1991 e se propõe a “honrar os trabalhos que fazem as pessoas rirem e então pensarem”. Procurando não ridicularizar ninguém, o Ig Nobel diz respeito a pesquisas reais que podem ser boas ou ruins, importantes ou triviais, com ou sem valor. Para citar alguns outros exemplos de laureados, temos o alemão Christoph Helmchen e colegas, ganhadores do Ig Nobel de Medicina 2016, por descobrirem que se você está com coceira no lado esquerdo do seu corpo você pode aliviá-la olhando no espelho e coçando o lado direito (e vice-versa).

Tem também o chinês Jiangang Liu, ganhador do Ig Nobel de Neurociência 2014, por tentar compreender o que se passa no cérebro de pessoas que veem o rosto de Jesus num pedaço de torrada. Ou, talvez o melhor de todos, o Ig Nobel da Paz 2004, que foi concedido ao japonês Daisuke Inoue, inventor do karaokê, por ter criado uma forma inteiramente inovadora de ensinar as pessoas a tolerarem umas às outras.

Razões que as pessoas dão para gritar ou insultar enquanto dirige

Mas voltemos aos xingamentos no trânsito. Publicada no Journal of Sociology and Anthropology, a pesquisa ouviu por telefone 1.100 motoristas espanhóis, aplicando um questionário sobre suas crenças e hábitos ao dirigir. Constatou que 60% atribuíram grau máximo de risco, numa escala de 0 a 10, a ‘dirigir depois de beber’, e que 11% não veem nenhum perigo em ‘dirigir sem cinto de segurança’. Entre todos os comportamentos submetidos à avaliação dos entrevistados, ‘gritar enquanto dirige’ foi o que obteve menor média em termos de risco percebido, atrás inclusive de ‘fumar enquanto dirige’.

Os motoristas que assumiram ter os comportamentos agressivos com maior frequência são aqueles que percebem menor risco neles. Com relação ao tipo de via, os valores médios de risco percebido foram, no geral, maiores entre os motoristas que dirigem mais frequentemente em ambientes urbanos.

Entre todos os comportamentos submetidos à avaliação dos entrevistados, ‘gritar enquanto dirige’ foi o que obteve menor média em termos de risco percebido, atrás inclusive de ‘fumar enquanto dirige’

Com um texto um tanto confuso e que em alguns pontos parece ter saído diretamente do Google Translator sem nenhuma revisão, a pesquisa apresenta algumas conclusões um tanto, poderíamos dizer, desconcertantes, se considerarmos que ela foi aceita em um periódico científico: o grau de tolerância social aos comportamentos estudados é variável, e alguns indivíduos limitam-se a ignorá-los, aceitando-os como algo inevitável; a ansiedade deixa as pessoas nervosas, indecisas ou hesitantes, dando origem a situações de risco e colocando em perigo tanto elas mesmas como os outros. E para terminar: “Finalmente, com relação às estratégias de intervenção para prevenir tais expressões agressivas, demonstrou-se que a articulação de educação para a segurança viária e campanhas para a segurança viária podem fortalecer o crescimento de uma cultura de segurança viária entre os motoristas”.

Bem… Difícil de comentar. Se a ideia é realmente compreender os fenômenos sociais de forma a melhorar a convivência no espaço público, é preciso ir além do óbvio, especialmente quando se trata de pesquisa sociológica. Ou nossos deslocamentos diários continuarão por muito tempo acontecendo em um ambiente, digamos, ignóbil.

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