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Cultura, Politik

Groucho & Eliot

Um dos livros mais legais que tenho em minha biblioteca reúne algumas das cartas escritas e recebidas por Groucho Marx. Groucho era uma figura inteligentíssima e acho que todo mundo seria capaz de citar uma frase sua. “Jamais entraria em um clube que me aceitasse como sócio” –é uma das mais famosas. Sempre me faz […]

Cynara Menezes
27 de setembro de 2012, 02h57

Um dos livros mais legais que tenho em minha biblioteca reúne algumas das cartas escritas e recebidas por Groucho Marx. Groucho era uma figura inteligentíssima e acho que todo mundo seria capaz de citar uma frase sua. “Jamais entraria em um clube que me aceitasse como sócio” –é uma das mais famosas. Sempre me faz rir lembrar de um outra tirada, quando lhe perguntaram se iria assistir ao filme “Sansão e Dalila” (1949). E ele: “Não estou interessado em filmes onde os peitos do ator principal são maiores do que os da estrela”. De fato, o galã fortão Victor Mature exibia um peitoral daqueles.

Mas uma história pouco conhecida de Groucho é sua surpreendente amizade com o poeta T.S. Eliot. No livro que reúne as cartas do comediante aparecem seus irmãos Harpo, Chico e várias personalidades de Hollywood e das letras –inclusive algumas cartas supostamente iradas que ele escreveu contra os “queridos Warner Brothers”. Os produtores ameaçaram processar os irmãos Marx se fizessem o filme “Uma Noite em Casablanca” (1946), por causa de “Casablanca”, o clássico de quatro anos antes.

E Groucho escreve assim (traduzo de minha edição em espanhol): “Queridos Warner Brothers: (…)Os senhores reivindicam seu Casablanca e pretendem que ninguém mais possa utilizar este nome sem sua permissão. Que me dizem de ‘Warner Brothers’? É de sua propriedade também? Provavelmente os senhores tenham o direito de utilizar o nome de Warner, mas o de Brothers? Profissionalmente, éramos Brothers muito antes que os senhores!”. Após outras missivas do gênero, o departamento jurídico da gigante cinematográfica acabou desistindo do processo.

Todas as cartas são, obviamente, hilárias. Mas, pelo menos para mim, sem dúvida é a correspondência entre Groucho e Eliot que desperta a maior curiosidade. Ao princípio, os dois amigos se tratam com certa formalidade: “Querido sr. Eliot”, “Querido Groucho Marx”, mas ao final já se fazem visitas mútuas e se chamam de Groucho e Tom. Claro que o comediante sempre foi mais soltinho do que o escritor. A Biblioteca do Congresso norte-americano exibe online fac-símiles das cartas. Aqui, trechos de duas delas para vocês se deliciarem:

1/11/1963

Querido Tom:

(…)O nome Tom corresponde a muitas coisas. Houve uma vez um ator judeu chamado Thomashevsky. Todos os gatos machos se chamam Tom, a menos que tenham sido castrados. Neste caso são simplesmente neutros e, como acaba de demonstrar a revolta em Saigon, já não há lugar para os neutros.

Há uma velha canção que começa assim: “Tom, Tom, the piper’s son”, etc. O nome do terceiro presidente dos Estados Unidos era Tom… se por acaso você se esqueceu de  Jefferson.

Assim, quando o chamo Tom, quero dizer que você é uma mescla de boxeador peso-pesado, gato de rua macho, e o terceiro presidente dos EUA.

(…)O sexo, como indústria, é um grande negócio neste país, assim como na Inglaterra. É algo em que todo mundo está interessado, ainda que seja só teoricamente. Suponho que sempre foi assim, mas creio que antigamente se falava disso e se praticava de uma forma mais sub-reptícia. A nova escola de escritores, porém, acabou por expor o quarto e o banheiro à luz do dia para que todo mundo pudesse vev. Pode-se jogar a culpa de tudo em Havelock Ellis, Kraft-Ebing e Brill, Jung e Freud. (Que trio!) Além, naturalmente, do defunto Kinsey, que, não satisfeito com os rumores, foi de casa em casa metendo o nariz onde os anjos sempre haviam evitado pisar.

De qualquer maneira, me interessaria conhecer seus pontos de vista sobre o sexo, por isso não hesite. Confie em mim. Ainda que geralmente me considere informal, pode confiar em mim para questões de tal importância.

(…)Meus melhores desejos para você e a senhora Tom.

Seu estimadíssimo,

Groucho.

3/6/1964

Querido Groucho:

(…)Seu retrato nos jornais dizendo que, entre outras razões, tinha vindo a Londres para ver-me aumentou consideravelmente minha reputação na vizinhança e sobretudo entre o dono da frutaria do outro lado da rua. Evidentemente sou agora alguém importante.

Sempre seu,

Tom.


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(2) comentários Escrever comentário

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João Caetano em 27/09/2012 - 04h28 comentou:

Hahahahahahahahahah, o Groucho pode ser mais soltinho. Mas o Tom foi mais engraçado.

Responder

anderson em 27/09/2012 - 15h41 comentou:

hahahaha genial!!! adorei!!

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