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Maconha

Legalização da maconha nos EUA reduziu o crime na fronteira com o México

Queda de 13% no crime nos Estados fronteiriços e em outros países indica que a solução para a violência não está na guerra às drogas e sim na legalização

Foto: Maj. Will Cox/Fotos Públicas
Da Redação
26 de fevereiro de 2018, 17h51

Enquanto no Brasil insistimos na burra, assassina e contraproducente guerra às drogas, nos Estados Unidos, país que a direita nativa adora imitar, mas apenas no que é ruim, a legalização da maconha está levando a uma queda acelerada dos crimes violentos na fronteira com o México. De acordo com o estudo A maconha legal está quebrando as organizações de tráfico mexicanas? O efeito das leis da maconha medicinal sobre o crime nos EUA, o crime caiu, em média, 13% nos Estados fronteiriços onde a cannabis foi legalizada.

A maior parte da maconha consumida nos EUA vem do México, e o impacto sobre o tráfico na fronteira foi tão grande que o vizinho também já está discutindo legalizar. “Estas leis permitem a fazendeiros locais cultivar a maconha que venderão aos dispensários onde são comercializados legalmente. Estes cultivadores estão em competição direta com os cartéis mexicanos que traficam a erva para os EUA. E o resultado é que os cartéis têm muito menos demanda. Onde quer que haja lei de maconha medicinal nós observamos que o crime na fronteira cai, porque subitamente há menos tráfico e menor violência associada a isso”, disse ao Guardian a economista Evelina Gavrilova, da Norwegians School of Economics, uma das autoras do estudo.

Os cultivadores estão em competição direta com os cartéis da droga mexicanos que traficam a erva para os EUA. Onde quer que haja lei de maconha medicinal, o crime na fronteira cai, porque subitamente há menos tráfico e menor violência associada a isso

Gavrilova e os colegas Takuma Kamada e Floris Zoutman analisaram estatísticas criminais do FBI de 1994 a 2012. A maior mudança decorrente da legalização foi na Califórnia, onde houve uma redução de 15% nos crimes violentos, e a menor no Arizona, onde houve uma queda de 7%. O roubo caiu 19% e os assassinatos, 10%. Já os homicídios relacionados ao tráfico despencaram absurdamente: 41%.

Mas não precisamos ir tão longe. Nosso vizinho Uruguai viu cair 18% do narcotráfico após quatro anos de legalização da maconha. Hoje, segundo estatísticas divulgadas pela Junta Nacional das Drogas, um em cada seis usuários uruguaios adquire seus baseados de forma legal, na farmácia ou cultivando em casa e em clubes canábicos. De quebra, o estudo contradisse a crença dos detratores da maconha de que quem fuma é “vagabundo”: 52% dos compradores nas farmácias são trabalhadores do setor privado e 12% do setor público; só 26% não têm atividade laboral, mas entre eles estão aposentados e estudantes universitários.

O crime caiu, em média, 13% nos Estados fronteiriços onde a cannabis foi legalizada. Na Califórnia, houve uma redução de 15% nos crimes violentos. O roubo caiu 19% e os assassinatos, 10%. Já os homicídios relacionados ao tráfico despencaram: 41%

Em Portugal, a descriminalização de todas as drogas já há 17 anos reduziu o próprio consumo de substâncias entorpecentes, ao contrário do que afirma o conservadorismo. O número de jovens entre 15 e 24 anos que disse ter usado drogas nos 30 dias anteriores caiu quase 50% desde que o consumo deixou de ser crime.

Em setembro do ano passado, o jornal New York Times publicava uma longa reportagem sobre como Portugal venceu a guerra às drogas descriminalizando-as. Em 1999, o país era o líder europeu em contaminados pelo vírus da Aids por meio de agulhas compartilhadas. Naquela época, 1% da população portuguesa consumia heroína. Hoje, esse número caiu para 0,25% e os novos casos de contaminação pelo vírus HIV provocados pelo compartilhamento de agulhas infectadas despencaram de 50% para 5%. Além disso, Portugal é o país europeu onde menos se morre por overdose: uma queda de 85% em 15 anos.

A descriminalização em Portugal reduziu o próprio consumo de substâncias, ao contrário do que afirma o conservadorismo. O número de jovens, entre 15 e 24 anos, que disseram ter usado drogas nos 30 dias anteriores caiu quase 50% desde que o consumo deixou de ser crime

Não há estatísticas sobre homicídios relacionados ao uso de drogas, mas o número de pessoas presas no país por crimes relacionados a drogas caiu de 14 mil por ano em 2000 para 6 mil após a descriminalização, de acordo com a ONU. A proporção de presos por crimes relacionados a drogas na população carcerária portuguesa foi de 44% em 1999 para 21% em 2012. No Brasil, um em cada três presos responde por tráfico.

No ano passado, o ministro do STF Luis Roberto Barroso defendeu a legalização das drogas como forma de reduzir a população carcerária. “A crise no sistema penitenciário coloca agudamente na agenda brasileira a discussão da questão das drogas. Ela deve ser pensada de uma maneira mais profunda e abrangente do que a simples descriminalização do consumo pessoal, porque não resolve o problema. Um dos grandes problemas que as drogas têm gerado no Brasil é a prisão de milhares de jovens, com frequência primários e de bons antecedentes, que são jogados no sistema penitenciário. Pessoas que não são perigosas quando entram, mas que se tornam perigosas quando saem. Portanto, nós temos uma política de drogas que é contraproducente. Faz mal ao país”, afirmou.

Estamos falando de uma guerra que foi perdida. E mesmo no país que liderou a guerras às drogas boa parte dos estados já descriminalizou. As políticas têm de quebrar o poder do tráfico, que advém da ilegalidade. A luta armada contra o tráfico não venceu os criminosos

No ano passado, o ministro do STF Luis Roberto Barroso defendeu a legalização das drogas como forma de reduzir a população carcerária. “A crise no sistema penitenciário coloca agudamente na agenda brasileira a discussão da questão das drogas. Ela deve ser pensada de uma maneira mais profunda e abrangente do que a simples descriminalização do consumo pessoal, porque isso não resolve o problema. Um dos grandes problemas que as drogas têm gerado no Brasil é a prisão de milhares de jovens, com frequência primários e de bons antecedentes, que são jogados no sistema penitenciário. Pessoas que não são perigosas quando entram, mas que se tornam perigosas quando saem. Portanto, nós temos uma política de drogas que é contraproducente. Ela faz mal ao país”, afirmou.

Após a intervenção militar no Rio de Janeiro, Barroso voltou a atacar a guerra às drogas em palestra na sexta-feira, 23. “Os EUA, desde a década de 1970, lideraram uma guerra, com uso militar, contra as drogas em várias partes do mundo, que custaram milhões de dólares, centenas de milhares de vidas e outros tantos de prisões. Mas o consumo de drogas no mundo inteiro não parou de crescer. Estamos falando de uma guerra que foi perdida. E mesmo no país que liderou a guerra às drogas boa parte dos estados já descriminalizou. Do ponto de vista econômico, a única coisa que a criminalização faz é assegurar o monopólio do tráfico. Então o Estado é parceiro do tráfico ao criminalizar”, disse. “As políticas têm de quebrar o poder do tráfico, que advém da ilegalidade. A luta armada contra o tráfico não venceu os criminosos.”

Este seria o caminho mais racional, mais de acordo com o nosso tempo. A “ponte para o passado” de Temer prefere, porém, ir na contramão do mundo e seguir a trilha obscurantista de mandar o Exército intervir para fichar moradores e revistar mochilas de crianças na favela para “combater” o crime.

 

 


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João Junior em 26/02/2018 - 19h02 comentou:

Como fazer aqueles portadores de fuzis, nas favelas, tornarem-se vendedores engravatados, num ambiente climatizado, no centro? Descriminalizando as drogas. Legalizadas, as drogas mesmas podem financiar o combate às drogas! Tal e qual se faz com o cigarro, e se deveria fazer também com bebidas alcoólicas. Os traficantes dos morros são jovens que não têm alternativa para ganhar a vida honestamente. O desemprego é só a ponta do iceberg. Os ricos têm, além da escola pública, a privada; além do hospital público, o privado; além da segurança pública, a privada. Além de qualquer coisa pública, uma outra coisa privada. Assim, os ricos asseguram todas as oportunidades de que precisam a partir de todo esse investimento que os pobres não têm como escolher. Não é só uma questão de caráter estar no tráfico de drogas, mas também de uma somatória de oportunidades negadas ao longo de uma vida. Falta de oportunidades não está sempre na falta de emprego já na ponta do processo, mas no miolo do desenvolvimento humano pelo qual o morador da periferia deveria contar para ter condições de competir no mercado de trabalho. Por isso, a escola pública com qualidade é necessária, bem como uma saúde pública de primeira e de uma segurança pública que assegurem segurança e não perseguição aos pobres. A legalização as drogas tende a afastar a violência da periferia, mas não totalmente. Por quê? Por que os que ganham com a droga sem pagar impostos e sem dar uma satisfação à sociedade tentarão continuar a lucrar desse modo e a manter certo poder político como cartel ou monopólio de drogas. Legalizar é a saída para combater as drogas.

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    Cynara Menezes em 27/02/2018 - 19h58 comentou:

    excelente

Antônio Carlos Melo em 26/02/2018 - 21h35 comentou:

Farei uma doação amanhã pela CEF

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    Cynara Menezes em 27/02/2018 - 19h57 comentou:

    obrigada!

Luiz Carlos da Silva em 26/02/2018 - 21h46 comentou:

vc so deixou de falar que o mercado e muito lucrativo nestes lugares por exe USA ja se falam na horden de bilhões de dólares em impostos os presedentes se abre no caso do Brasil acredito que nao seja conservadorismo a sociedade e os jovens aínda não está preparada so um plebiscito vai defenir

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Sergio Souza em 05/03/2018 - 11h23 comentou:

A questão vai ser apenas de dinheiro! Se for um negócio bem lucrativo para poucos capitalistas, e ao mesmo tempo tenham o poder político nas mãos, será legalizada a maconha. Se vai diminuir a violência ou não, eles não estão nem aí, importante é que gerem lucros para eles!

Por outro lado, maconha é um negócio muito lucrativo para poderosas facções criminosas. Em se legalizando a maconha, qual o tamanho do prejuízo para essas facções? E como eles compensariam tais perdas? Certamente, não será simplesmente se conformando! Obviamente que não devemos ficar reféns do poderio das facções criminosas, por isso o estado tem entrar com força nessa situação.

A sociedade precisa amadurecer o debate!

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    Cynara Menezes em 05/03/2018 - 22h53 comentou:

    neste site, defendemos a legalização do uso e do plantio. plantando em casa, o que tem a ver com dinheiro?

Paulo rodrigues em 06/03/2018 - 08h03 comentou:

Nunca será legalizado no Brasil, aliás acho que nem discutido será. Envolve muita grana de corrupção, polícias e políticos faturam muito. Confesso que sempre fui contra, mas a idade que tenho hoje e ver experiências em outros países me fez repensar meu conceito. Hoje vejo que é uma forma de combater não só o tráfico mas a violência e a corrupção

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