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É a esquerda que se cala ou é o El Pais que tem postura colonialista em relação à Venezuela?

Quando se trata da Venezuela, diário espanhol assume uma postura colonialista idêntica à da monarquia de seu país, que se acha no direito de mandar calar um chefe de Estado legitimamente eleito

MAPA DA PROVÍNCIA DA VENEZUELA EM 1635
Cynara Menezes
07 de julho de 2017, 17h10

O espanhol El Pais é, em que pese sua posição ideológica cada vez mais à direita, um grande jornal, um dos melhores do mundo. Em relação à política brasileira, tem se portado, ao longo dos anos, de forma razoavelmente correta. No entanto, quando se trata da Venezuela, o diário assume uma postura colonialista idêntica à da monarquia de seu país, que se acha no direito de mandar calar um chefe de Estado legitimamente eleito, como o ex-rei (rei aposentado?) Juan Carlos fez com Hugo Chávez em 2007, em plena cúpula Iberoamericana. O El Pais, por sinal, apoiou.

Na quarta-feira, 5 de julho, o El Pais publicou um artigo do jornalista argentino antikirchnerista Ernesto Tenembaum em que acusa “a esquerda” latino-americana de calar-se e ser “cúmplice” da “repressão” na Venezuela. (Bem a propósito, o título original do artigo é Por Qué Callan?, uma clara alusão ao episódio Chávez.) De Buenos Aires, onde vive, Tenembaum sentencia que a violência na Venezuela é unilateral: o governo de Nicolás Maduro prende e arrebenta opositores e pronto. “Quem dispara são os militares do regime de Maduro e quem recebe as balas são os que o denunciam. E a maioria da esquerda cala ou apoia os repressores”, escreve.

Há muitas mentiras neste artigo. A primeira delas é que não existe (até digo infelizmente) uma “esquerda latino-americana”, senão esquerdas latino-americanas. As posições dentro da esquerda variam em relação a Maduro. Há entre nós quem apoie o governo venezuelano sem restrições; há quem faça franca oposição a ele, inclusive internamente, como o Marea Socialista; e há uma posição, que eu diria majoritária, partidária de uma política não-intervencionista, ou seja, que defende ser o povo venezuelano o senhor das mudanças na Venezuela.

Creio que, das três posturas, a que mais incomoda o El Pais e seus prepostos é a terceira. O jornal espanhol parece desejar que a esquerda apoie uma intervenção na Venezuela. Não existe cidadão de esquerda que aceite isso, quer o El Pais queira, quer não. Assim como não apoiamos (e a Espanha apoiou) a invasão dos Iraque pelos Estados Unidos, não aceitamos intervenção estrangeira na Venezuela, assim como não aceitaríamos no Brasil ou na Argentina, mesmo governada por um adversário. A esquerda é, por natureza, defensora da soberania dos países. Quem defende intervenção em nações soberanas é a direita.

Em seu artigo intelectualmente desonesto, Tenembaum nem sequer menciona a violência que a direita venezuelana tem promovido contra Maduro. Mais de uma vez as bandas oposicionistas encapuzadas incendiaram pessoas nas ruas nos últimos meses. Em junho, o bombardeio da Suprema Corte por um helicóptero tripulado por aloprados anti-Maduro foi tratado como piada pela imprensa comercial do continente. Enquanto criticavam a “perseguição” do governo à mídia opositora, um repórter do canal Globovisión era ameaçado por um encapuzado, que jogou gasolina em seu corpo. Tenembaum tampouco falou das 50 toneladas de alimentos queimadas por grupos opositores para prejudicar o país, em sabotagem constante dos “setores produtivos”. Ou dos manifestantes que jogam fezes na polícia do país.

Outra inverdade é dizer que “a esquerda latino-americana” não critica Maduro. O uruguaio Pepe Mujica,  por exemplo, já o fez diversas vezes. O próprio El Pais publicou, em maio do ano passado: “Mujica diz que Maduro está louco como uma cabra”. O ex-presidente saía em defesa de Luis Almagro, o presidente da OEA criticado por Nicolás Maduro, que o chama de “agente da CIA”. Mas Mujica foi direto ao ponto ao complementar: “Estão todos loucos na Venezuela”.

mujicaloco

Em maio deste ano, o presidente do Equador, Rafael Correa, às vésperas de deixar o cargo, pediu eleições na Venezuela como forma de resolver a crise. “A situação deve se resolver pelo diálogo e pelas vias democráticas, por meio de eleições também”, disse Correa, mas fez questão de esclarecer: “Ficou comprovado que muitos casos de violência foram cometidos pela oposição.”

No mesmo mês, um grupo de mais de 250 intelectuais de esquerda assinou um manifesto em que critica o governo de Nicolás Maduro (“deslegitimado, com rasgos autoritários”) e atribui o acirramento da crise ao adiamento do referendo convocatório, uma ferramenta democratizadora introduzida pela própria constituição chavista que prevê ouvir os eleitores na metade do mandato presidencial, que é de seis anos. Como Maduro foi eleito em 2013, o referendo deveria ter acontecido no ano passado.

Mas os signatários do documento não pouparam críticas também à oposição. “Está claro que existem setores extremistas da oposição que também buscam uma saída violenta”, diz o texto, assinado por nomes como os brasileiros Chico Whitaker e Otávio Velho, o venezuelano Raul Cubas e o português Boaventura de Sousa Santos. Houve esquerdistas que concordaram e discordaram do teor do manifesto. Não somos, repito, um grupo monolítico para pensar da mesma forma. Acaso a direita é?

O El Pais também se iguala a outros “defensores da democracia” de direita na hipocrisia: encontrei dezenas de artigos nos arquivos do jornal contra os governos bolivarianos na Venezuela. Nenhum contra a Arábia Saudita, uma inegável ditadura. A visão imperialista do jornal com a ex-colônia espanhola chega a turvar o bom jornalismo que pratica. Em 2013, seu ódio por Hugo Chávez levou o El Pais a cometer uma das maiores “barrigas” da história: publicou, na primeira página, uma foto do presidente venezuelano entubado no hospital que não era verdadeira.

elpaischavez

Ernesto Tenembaum, o articulista argentino que cobrou no jornal espanhol a esquerda latino-americana uma posição em relação à repressão de Maduro, segue na mesma toada, ao fazer vista grossa para a polícia de Mauricio Macri descendo o sarrafo nos manifestantes da oposição, como aconteceu em abril com os professores. Ah, se fosse na Venezuela… Ou no governo de Cristina Kirchner, quando Tenembaum parecia bem mais atento ao que acontecia em seu próprio quintal.

Ao cobrar da esquerda latino-americana uma posição dura em relação a Maduro, mas leniente com o fascismo opositor, o El Pais e seus porta-vozes parecem desejar de nós uma postura que eles mesmos não assumem: a de apoiar uma intervenção estrangeira na Venezuela.

A nossa posição, divergências à parte, é outra. Conseguimos enxergar que os graves problemas da Venezuela não podem ser creditados apenas ao governo Maduro, mas também à virulenta oposição. E não abrimos mão de defender a soberania do país. Queremos que os próprios venezuelanos encontrem o caminho para sair da crise. O que a esquerda pode e deve fazer é oferecer sua solidariedade ao povo da Venezuela e o apoio para qualquer decisão que tomem, soberanamente, sem que outras nações se achem no direito de meter o bedelho. Colonialismo, não.

 

 


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