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Cultura

O “padroeiro” de Woodstock: nunca houve um ruralista como Max Yasgur

Se ele não tivesse topado alugar suas terras para os "hippies" que o procuraram, o festival nunca teria acontecido

Max Yasgur diante da multidão em Woodstock. Foto: reprodução
Cynara Menezes
19 de agosto de 2019, 19h35

Vocês conseguem imaginar Ronaldo Caiado ou outro líder ruralista alugando suas terras para que, durante três dias, milhares de jovens acampem nelas para ouvir os melhores roqueiros do mundo, além de viajar muuuuito, fumando maconha e tomando LSD?

Nestes tempos em que os agropecuaristas brasileiros (os grandes, não os agricultores familiares) se unem à extrema direita em um movimento suicida, porque será um tiro no pé, recordemos Max Yasgur, o fazendeiro que cedeu 600 acres de terra para que o festival de Woodstock se realizasse, em agosto de 1969.

Faltava apenas duas semanas para Woodstock acontecer e todos os fazendeiros do condado de Sullivan já haviam se recusado a hospedar o festival, mesmo que os jovens organizadores oferecessem dinheiro –algo em torno de 75 mil dólares à época. A própria cidade de Woodstock se negou.

Max e Miriam Yasgur. Foto: reprodução

Yasgur, então com 49 anos, era um dos maiores proprietários de terra e o maior produtor de laticínios da região, com 650 vacas cujo leite era pasteurizado na própria fazenda. Quando pôs os olhos nos campos verdes do fazendeiro, em Bethel, o lendário produtor Michael Lang percebeu ter encontrado o local ideal, porque o terreno, apesar de plano, terminava em uma depressão, formando um anfiteatro natural. O nome foi mantido, mas o festival ocorreu em Bethel, não em Woodstock, a 72 quilômetros dali.

Quando pôs os olhos nos campos verdes do fazendeiro, o lendário produtor Michael Lang percebeu ter encontrado o local ideal, porque o terreno, apesar de plano, terminava em uma depressão, formando um anfiteatro natural

Lang e Artie Kornfeld, com 25 e 27 anos, respectivamente, eram as duas principais cabeças por trás de Woodstock, ao lado dos amigos John P. Robert, 24, e Joel Rosenman, 27. Quatro garotos realizaram o maior festival de música de todos os tempos. No documentário Woodstock, de 1970, é possível ver Lang para lá e para cá de colete em sua moto, supervisionando tudo.

Yasgur e Lang em sua moto. Foto: Life

A decisão do fazendeiro de alugar as terras para o festival só se reforçou ao ver um movimento de boicote a seus produtos se formando entre os habitantes de Bethel. “Não compre o leite de Yasgur, ele é amigo dos hippies”, diziam cartazes espalhados pela cidade. “Quando Max viu aquilo, eu sabia que ele ia deixá-los fazer seu festival. Você não fazia esse tipo de coisa com Max”, contou a mulher dele, Miriam, ao New York Times em seu obituário, em 1973. Durante o festival, o jornal havia publicado um perfil de Yasgur intitulado, bem apropriadamente, Um fazendeiro com alma.

Ao contrário do que se possa imaginar, Max Yasgur era um conservador, politicamente falando. Tanto é que foi favorável à guerra do Vietnã, que dividia os EUA naquele momento de forma muito mais feroz do que acontece com Donald Trump hoje. A questão é que, para Yasgur, a liberdade de expressão era irrenunciável, “ainda que esta liberdade viesse de pessoas cujos estilos de vida e crenças fossem muito diferentes das suas”. Um libertário stricto sensu.

Quando alguns vizinhos começaram a vender água para os jovens no festival, ele ficou tão bravo que colocou um aviso diante da cancela da fazenda: “Água grátis”. “Como é que alguém pode pedir dinheiro por água?”, disse. Ah, se o bom fazendeiro tivesse sobrevivido para ver que, 50 anos depois, a água potável se tornou um negócio bilionário…

Os produtores foram processados pelos fazendeiros pelos danos e até pela suposta recusa das vacas em produzir leite durante o festival. O próprio Yasgur foi processado por vizinhos porque um grupo de jovens acampou em sua propriedade

Os problemas de Yasgur com os vizinhos não acabaram depois do festival. Ele se tornou uma espécie de persona non grata na cidade de Bethel. Alguns comerciantes continuavam a se recusar a atendê-lo. Os danos às propriedades não foram pequenos, com o pisoteio, a lama e a insuficiência de banheiros para atender à multidão; os produtores foram processados pelos fazendeiros pelos danos e até pela recusa das vacas de um dos proprietários em produzir leite durante o festival. O próprio Yasgur foi acionado por um casal de fazendeiros vizinhos porque um grupo de jovens acampou em sua propriedade sem autorização.

O fazendeiro acabou vendendo a propriedade e se mudando com a mulher e os dois filhos para a Florida em 1971; morreria de ataque cardíaco apenas dois anos depois, em 1973, aos 54 anos. Talvez fazendeiros com alma morram cedo… No fim de semana, quando o festival completou 50 anos, nostálgicos acamparam no lugar onde ficava a fazenda em Bethel.

A coisa mais importante que vocês provaram ao mundo é que meio milhão de garotos podem estar juntos e ter três dias de diversão e música –e nada além de diversão e música. Que Deus os abençoe por isto!

Mas a grande recompensa que Max Yasgur recebeu foi ainda em vida: diante da multidão de meio milhão de jovens cabeludos, aquele fazendeiro careta e que gostava de fumar cachimbo, entrando na meia idade, foi tão ovacionado quanto Jimi Hendrix, Janis Joplin, Joe Cocker ou Joan Baez.

“Sou um fazendeiro… Não sei como falar para 20 pessoas ao mesmo tempo, imagina para uma multidão como esta. Mas eu acho que vocês provaram algo ao mundo. Não somente à cidade de Bethel, ou ao condado de Sullivan, ou ao Estado de Nova York, vocês provaram algo ao mundo. Este é o maior grupo de pessoas reunidos em um só lugar que já aconteceu. Não tínhamos nenhuma ideia de que viria um grupo desse tamanho, e por causa disso vocês tiveram alguns inconvenientes, como água, comida e outras coisas. Seus produtores fizeram um esforço enorme para que vocês fossem bem cuidados, então eles merecem um voto de agradecimento. Mas acima de tudo, a coisa mais importante que vocês provaram ao mundo é que meio milhão de garotos –eu os chamo de garotos porque tenho filhos que são mais velhos do que vocês–, meio milhão de garotos podem estar juntos e ter três dias de diversão e música e nada além de diversão e música. Que Deus os abençoe por isto!”

Se foi rejeitado pelos próprios vizinhos, Max Yasgur recebeu um carinho imenso de quem esteve no festival. Milhares de jovens escreveram cartas para o fazendeiro agradecendo por ter tido a grandeza de hospedar Woodstock. Ao explicar por que topara a empreitada, Max respondeu: “Se nós queremos superar a distância entre as gerações, nós, mais velhos, precisamos fazer mais”.

Ele fez.

 


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(3) comentários Escrever comentário

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Ludwigshafenurueuwauwau em 20/08/2019 - 08h05 comentou:

Um grande festival que marcou época ! Eu tinha 11 ano mas já via Far do festival!😂😂😂😂

Responder

Pedro Gabriel Portugal Junior em 20/08/2019 - 09h04 comentou:

Muito bom artigo Cynara. Parabéns! Eu era adolescente nesta época de ouro. Obrigado.

Responder

Daniel Saraiva em 21/08/2019 - 15h26 comentou:

Max Yasgur é um dos primeiros nomes que recordo quando o assunto é o festival de Woodstock. Se houve prejuízos financeiros, o evento é eterno. Woodstock forever!

Responder

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