“Bronca” uma ova: o que Silvio Santos fez com Sheherazade foi machismo e assédio moral

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(Foto: divulgação)

Não suporto Rachel Sheherazade. Ideologicamente, estamos em campos opostos. Para mim, ela é uma das mais legítimas representantes da direita que mais desprezo: a que vocifera, baba de raiva, principalmente contra minorias, contra feministas e a esquerda em geral. Mas não posso me calar diante do que o apresentador Silvio Santos fez com ela no domingo, diante de milhões de espectadores do seu Troféu Imprensa. Mexeu com uma, mexeu com todas, mesmo. Não só com quem a gente gosta.

O apresentador, que à medida que fica mais velho tem assumido livremente seus preconceitos, como se a idade fosse lhe conceder salvo-conduto, humilhou Rachel para o Brasil inteiro ver. O “patrão”, como muita gente o trata no SBT, ordenou que ela não volte a fazer comentários políticos em sua emissora. “Mas quando você me chamou foi para dar a minha opinião”, disse uma constrangida Rachel, ao que o patrão retrucou com a mais machista das frases: “Não, eu te chamei para você continuar com sua beleza, com sua voz, para ler as notícias, e não dar sua opinião”.O apresentador ainda falou do noivo de Sheherazade: “Ele deixa você trabalhar na televisão? Você merece (o prêmio), e merece ficar quietinha. É melhor pensar no seu novo casamento”.

Não satisfeito, e aproveitando-se do fato de estar acima dela em termos hierárquicos, Silvio apelou para o assédio moral descarado: “Se quiser falar sobre política, compre uma estação de TV e faça por sua própria conta”. Ou seja, claramente ameaçou a moça de colocá-la no olho da rua se não se comportar como ele manda. Rachel, com medo de perder o emprego (o que também é compreensível, todo mundo tem filhos para sustentar), baixou a cabeça. Já a “bronca” no também boquirroto e reacionário Danilo Gentili foi muito mais suave: “Você não deve falar sobre política porque me complica”.

A imprensa comercial noticiou o caso brandamente, como se fosse apenas mais um acontecimento pitoresco na lista de anedotas do lendário apresentador: “Rachel leva bronca de Silvio”, “Silvio enquadra Rachel”, “Sheherazade leva chamada de Silvio”. Não foi. Pode ser que nem a jornalista tenha se dado conta, mas foi vítima do machismo de um apresentador que tem protagonizado cenas lamentáveis nos últimos tempos, como agarrar por trás mulheres da plateia de seu programa, fazer piada com o cabelo de uma criança negra ou chamar o filho do cantor Leonardo de “bichinha”. Quer dizer: ele pode, os empregados, não. E todo mundo passa a mão na cabeça de Silvio Santos por ser quem é, o apresentador-mito.

Rachel estava coberta de razão ao dizer que foi contratada para opinar. Em 2011, ela foi “descoberta” por Silvio Santos quando, numa afiliada da emissora na Paraíba, um vídeo seu criticando o carnaval bombou no youtube, com mais de um milhão de acessos. O próprio apresentador contou a Sheherazade que estava em Los Angeles quando viu o vídeo e imediatamente pediu para que ela fosse contratada. Em suma: Rachel foi mesmo contratada para dar opiniões como aquela, e estreou no SBT como âncora E comentarista.

Seus problemas começaram quando, em 2014, aplaudiu um grupo de justiceiros no Rio que tinham acorrentado um menor infrator a um poste. A rejeição à opinião de Rachel foi enorme, ao ponto de ela fazer um segundo comentário “esclarecendo” seu ponto de vista. O patrão, que sempre foi amigo dos governos, qualquer um, mostrou que não tinha a coragem para bancar o verbo da jornalista que aparentou ao contratá-la. Arregou. Desde então, Sheherazade virou uma leitora de notícias. Silvio a amordaçou. No Troféu Imprensa, o apresentador foi além e colocou-a “no seu devido lugar”: a moça paraibana cheia de opiniões foi reduzida por ele a apenas “uma moça bonita”.

Me parece absurdamente contraditório que gente de esquerda aplauda o que aconteceu ali por representar um “revide” pelos tantos ataques que sofremos dela. Está errado. Uma pessoa de esquerda nunca pode aplaudir que uma mulher seja “colocada em seu lugar” e julgada pelas aparências, nenhuma mulher. Uma pessoa de esquerda nunca pode aplaudir que uma trabalhadora seja alvo de assédio moral do patrão, nenhuma trabalhadora. Mesmo que Rachel Sheherazade não a queira, tem aqui a minha solidariedade.

 

 

 

 

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Publicado em 10 de abril de 2017