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Pedagogia da ignorância: reaça usa rede do governo federal para atacar Paulo Freire

Apenas um mês atrás, um levantamento feito com base na ferramenta de busca Google Scholar apontou a Pedagogia do Oprimido, do educador brasileiro Paulo Freire (1921-1997), em terceiro lugar entre os livros mais citados por pesquisadores em Ciências Sociais de todo o mundo. O pernambucano Freire é reconhecidamente uma sumidade internacional na área da educação e […]

Cynara Menezes
01 de julho de 2016, 12h11
paulofreire

(Foto: Instituto Paulo Freire)

Apenas um mês atrás, um levantamento feito com base na ferramenta de busca Google Scholar apontou a Pedagogia do Oprimido, do educador brasileiro Paulo Freire (1921-1997), em terceiro lugar entre os livros mais citados por pesquisadores em Ciências Sociais de todo o mundo. O pernambucano Freire é reconhecidamente uma sumidade internacional na área da educação e deveria ser motivo de orgulho para qualquer um de nós -menos para os reaças que nunca o leram e que não sabem patavinas do que falam, mas se dedicam a atacá-lo.

pedagogia

(O estudo que apontou a Pedagogia do Oprimido como o terceiro livro mais citado em Ciências Sociais)

Esta semana veio à tona a denúncia de que um cidadão de direita encastelado no governo ilegítimo de Michel Temer utilizou a rede do Serpro (Serviço Federal de Processamento de Dados) para mexer no verbete sobre Paulo Freire na Wikipedia. O Serpro, empresa de tecnologia da informação do governo federal, soltou comunicado dizendo que “a alteração realizada não partiu das instalações do Serpro, mas, sim, de um órgão público, cujo acesso à internet é administrado pela empresa. Entretanto, o Serpro não está autorizado, por questões contratuais, a divulgar informações de acesso de seus clientes à rede”.

O discípulo de Alexandre Frota que adulterou o verbete acrescentou trechos de artigo escrito por integrantes do Instituto Liberal, “Paulo Freire e o Assassinato do Conhecimento”, com a clara intenção de espalhar ignorância sobre o trabalho do educador. “Aí está uma das origens da nossa já conhecida doutrinação marxista nas escolas e universidades, que em vez de formar cidadãos e profissionais para o crescimento do país, forma soldados dispostos a defender com unhas e dentes o marxismo no meio acadêmico”, dizia o trecho de um dos parágrafos inseridos no artigo, já modificado novamente para fazer jus à realidade: o que Paulo Freire pregava era uma educação libertadora, capaz de tornar o estudante num cidadão crítico, questionador. Ou seja, educar como sinônimo de formar cidadãos pensantes, independentemente da ideologia que abracem.

A adulteração do texto da Wikipedia teve a clara intenção de reforçar os argumentos do estúpido movimento direitista Escola sem Partido, que pressupõe que todos os educadores brasileiros querem “doutrinar” seus alunos para que sejam “comunistas”. Contra essa falácia, os mentores da ideia apelam à censura do professor em sala de aula -um tiro no pé que vai atingir também os docentes identificados com a ideologia de direita. Quem nunca teve um professor reaça?

Em abril, a Assembleia Legislativa de Alagoas aprovou um projeto que PROÍBE os professores do Estado de emitir opiniões em sala de aula. O Sindicato dos Professores alagoanos está recorrendo da iniciativa, que vai de encontro à liberdade de expressão prevista no artigo 5 Constituição. A secretaria estadual de Educação também está recorrendo. Os “pedagogos da ignorância” fizeram o mesmo projeto em pelo menos nove Estados e 13 cidades, incluindo capitais como São Paulo, Rio de Janeiro e Curitiba. Um projeto de lei com teor idêntico tramita na Câmara dos Deputados.

Escrito em 1968, quando Paulo Freire estava exilado no Chile, a Pedagogia do Oprimido é um clássico em sua área e foi traduzido em mais de 20 idiomas, inclusive para o português:  proibido pela ditadura militar, só foi publicado no país em 1975. É considerado um dos textos fundadores da pedagogia crítica, que defende um pensamento crítico por parte do estudante, “libertador”.

E é aí que reside o problema da direita brasileira com Freire: no fundo, o que eles querem impedir é a formação de cidadãos que questionem as injustiças da sociedade e que sejam incapazes de protestar contra elas. Mal sabem os reaças que, não fosse pela concepção de Paulo Freire, os movimentos de jovens de direita que questionavam o governo Dilma nem sequer existiriam. Ser contra Freire não é ser contra a esquerda: é querer que o jovem, de direita ou de esquerda, seja como gado e aceite tudo passivamente.

 


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