Por que a entrevista de Mirian Dutra sobre FHC é notícia?

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(Lula e FHC em 1980. Foto: Juca Martins)

Muita gente, de direita e esquerda, anda questionando nas redes sociais se a entrevista de Mirian Dutra à revista Brasil com Z, editada na Europa para brasileiros, é notícia, em termos jornalísticos, ou apenas fuxico. Sim, é notícia. Não porque a jornalista fala de sua intimidade com o ex-presidente –embora ela tenha o direito de contar. Afinal, viveu um romance extra-conjugal (da parte dele) com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso por, segundo diz, seis anos, entre 1985 e 1991. Mas com reflexos tremendos sobre a vida profissional e pessoal dela até hoje, o que é inegável.

Por ter se envolvido com FHC, a repórter de TV Mirian acabou deixando o país com um filho de um ano, Tomas, supostamente do ex-presidente, e outra de 7, de uma relação anterior. Sua carreira degringolou, com desastrosas passagens pelas sucursais da Rede Globo em Londres e Madri. A saída de cena dela era uma forma de impedir que Fernando Henrique não fosse prejudicado pela pulada de cerca (ah, o machismo brasileiro…) na campanha à presidência, em 1994. Ou seja, Mirian Dutra tinha o potencial de se tornar a Miriam Cordeiro de FHC, mas não foi. Foi embora do país. A sua volta, em 1997 também poderia atrapalhar a campanha dele à reeleição, então era melhor que ficasse por lá. Ao todo, foram 23 anos de exílio.

Ela diz que partiu, da primeira vez, por conta própria; é a parte nebulosa da narrativa, porque ao mesmo tempo fala que teve contrato com a Globo nos últimos 35 anos, concluído em dezembro passado. A Globo mandou ou não mandou ela embora do país para proteger FHC? Não está claro, mas é insinuado que a repórter foi mantida lá com este objetivo e, de acordo com a jornalista, passou anos deslocando Mirian de um lado para o outro na Europa, sempre indesejada nas sucursais para onde era transferida. Como alguém que escondesse um segredo e de quem a emissora não podia se livrar.

O que emerge da primeira entrevista é o relato de uma mulher sofrida e magoada. “Ele faz parte da minha história, mas… tem algumas pessoas que fazem parte da tua vida mas que te fazem muito mal, fazem um estrago tão grande”, define, à certa altura da entrevista dada à repórter Fernanda Sampaio na capital espanhola. Humanamente falando, é a história triste de uma relação que acabou e deixou um dos lados com rancor por se sentir prejudicada. Mas que notícia haveria nisso? Acontece todos os dias, não é mesmo?

Em primeiro lugar, a entrevista de Mirian Dutra é notícia porque atesta a profunda simbiose entre a rede Globo, a revista Veja e o PSDB. São como irmãos siameses, parte de uma mesma família. A jornalista acusa a Veja de plantar uma nota na seção Gente em que ela aponta que o filho que está esperando, que afirma ser filho de FHC, tem como pai “um biólogo brasileiro”. Se for verdade o que Mirian diz, a Veja criou uma reportagem para encobrir o filho fora do casamento de um político que queria ver presidente. Forjou um álibi para FHC. É bastante grave a acusação, vai contra toda a ética jornalística. A revista deveria responder.

“Quando eu estava grávida de 7 meses do Tomas, a coisa estava para explodir”, diz. “FHC me obrigou a dar entrevista para a Veja dizendo que o pai do meu filho era um biólogo, pode olhar na hemeroteca, em julho de 1991, naquela seção ‘Gente’. Quem é a Mirian Dutra pra aparecer na ‘Gente’ dizendo que vai ter o segundo filho de um biólogo? Foi Fernando Henrique com Mário Sergio Conde (sic)! Isso foi um acerto feito com o diretor da Veja.” De fato, a nota está lá.

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O diretor da revista Veja à época era Mário Sergio Conti, hoje dono de um programa no canal GloboNews. O blog procurou Conti por email, mas ele não respondeu.

Na entrevista que Mirian Dutra concedeu esta semana à repórter Natuza Nery, da Folha de S.Paulo, o tema da nota plantada não é abordado, mas a coisa complica para o lado de FHC porque a ex-repórter da TV Globo afirma que o ex-presidente, ainda no cargo, pagava as pensões do suposto filho com a ajuda de uma empresa. “Tem uma história muito cabeluda nisso tudo, que ele, por meio de uma empresa, mandava um dinheiro para mim. Foi por meio de uma empresa que ele bancou”, disse Mirian.

A repórter Monica Bergamo foi além e descobriu que o dinheiro era enviado a Mirian e seu filho por meio de uma subsidiária da Brasif com sede nas ilhas Cayman, conhecido paraíso fiscal. A jornalista era “contratada” pela empresa para “prestar serviços” junto a lojas e dutyfrees, coisa que, garante, nunca fez, mas recebia pelo não-serviço 3 mil dólares mensais, entre 2002 e 2006. FHC nega ter usado a empresa para bancar a ex-namorada, mas admite à colunista da Folha que possui três contas no exterior: duas no Banco do Brasil em Nova York e Miami e a terceira no Novo Banco, em Madri. Todas estariam declaradas no Imposto de Renda. FHC também assume ter comprado um apartamento em Barcelona para Tomas Dutra por 200 mil euros (896 mil reais no câmbio de hoje), que adquiriu com “rendas legítimas” de seu trabalho.

Por último, fica no ar a história sobre se é ou não verdadeiro o exame de DNA feito por FHC em 2011 afirmando que Tomas não é seu filho, outra acusação grave feita pela jornalista: “é mentira”. O ex-presidente assegura que fez duas provas, ambas nos Estados Unidos, e ambas deram negativo. Mirian afirma que FHC alijou-a do processo, esperando que o rapaz completasse 18 anos para fazer o DNA, longe da mãe, quando estudava nos EUA.

Pouco importa para o leitor que a vida do ex-presidente Fernando Henrique tenha se transformado no programa do Ratinho. Isso é problema pessoal e responsabilidade dele. Mas tem três pontos aí que não podem ser ignorados e que fazem esta história rocambolesca virar, sim, notícia: a relação simbiótica entre FHC, a Veja e a Globo, a ponto de acobertar um romance extra-conjugal; a lisura dos pagamentos feitos à jornalista por empresa com sede em paraíso fiscal; e um exame de DNA acusado de ser falso. É óbvio que este exame precisa ser repetido com toda transparência para dirimir as dúvidas. Na época em que a negativa da paternidade foi divulgada, todo mundo julgou e duvidou do caráter de Mirian Dutra, inclusive eu. É justo para ela, para seu filho e para FHC que esta questão seja esclarecida de uma vez por todas. Um homem público não pode ser acusado de falsear um documento e ficar por isso mesmo.

Na triste geleia geral que se tornou a política brasileira, está cada vez mais difícil ter ídolos. Mas não é correto que alguns se comportem apenas como pedra, quando também são vidraça. Jornalisticamente falando, inclusive.

 

 

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Publicado em 18 de fevereiro de 2016