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Viagem à Transnistria, o país que não existe –mas é a última “província soviética”

No livro O Púcaro Búlgaro, o romancista mineiro Campos de Carvalho (1916-1998) conta a história de uma cômica expedição à Bulgária –como tentativa de “provar” que o país, na verdade, não existe. A narrativa surreal, publicada pela primeira vez em 1964 e considerada um clássico da literatura brasileira, só errou de lugar. Existe um país que […]

1 May - Labor day event in the centre of Tiraspol. Veterans are holding an old soviet Lenin flag high in the air
Cynara Menezes
11 de outubro de 2016, 16h49

(Celebração do Primeiro de Maio na Transnitria. Foto: Julia Autz)

No livro O Púcaro Búlgaro, o romancista mineiro Campos de Carvalho (1916-1998) conta a história de uma cômica expedição à Bulgária –como tentativa de “provar” que o país, na verdade, não existe. A narrativa surreal, publicada pela primeira vez em 1964 e considerada um clássico da literatura brasileira, só errou de lugar. Existe um país que não existe a 744 km da fronteira búlgara: a Transnistria ou República Moldávia Pridnestroviana. A Transnistria não só não existe como pode ser considerada a última província soviética, embora a União Soviética tenha acabado há 25 anos.

Vocês pensam que é ficção? Pois a fotógrafa alemã Julia Autz esteve no país que não existe e, tal qual os companheiros de viagem do protagonista de O Púcaro Búlgaro, documentou a não-existência do lugar. Como é possível um país não existir? Em 1990, quando a Moldávia se separou da União Soviética, uma pequena aldeia gaulesa, ops, um pequeno país com cerca de 500 mil habitantes não quis se desvincular do passado comunista e se declarou independente, situação em que se encontra até hoje.

transnistriamapa

A Transnistria não foi reconhecida pelas Nações Unidas, que, 26 anos depois e apesar de possuir governo próprio desde então, ainda a considera parte da Moldávia. Só três países no mundo reconhecem a existência da Trasnistria, todos tampouco reconhecidos pela ONU: a Abecásia, a Ossétia do Sul e Nagorno-Karabakh. Juntos, os quatro formaram a Comunidade para a Democracia e Direitos das Nações, mais conhecida como Comunidade dos Estados Não-Reconhecidos, uma espécie de Brics de países pequeninos órfãos da União Soviética que se recusam a fazer parte de outros. Uns irredutíveis, sem dúvida.

Geograficamente, a Transnistria se situa ao leste da Moldávia, fina, comprida e comunista como um Chile que não tivesse tido Pinochet. Ao contrário de tantos países da região que derrubaram os monumentos aos heróis da revolução russa, uma estátua de Lenin continua intacta em frente ao Parlamento, em Tiraspol, capital do país. Na Transnistria, o muro de Berlim continua de pé e a União Soviética só morreu em seu coração, ingrato. A bandeira do país, aliás, é a única por aquelas plagas que ainda ostenta a velha foice e martelo.

(A estátua de Lenin em frente ao Parlamento. Foto: Moldovaoffrecord)

(A estátua de Lenin em frente ao Parlamento. Foto: Moldovaoffrecord)

Se tivesse que escolher, o país preferia voltar a ser anexada à “mãe” Rússia do que à Moldávia –o que até seria possível se não houvesse uma Ucrânia no meio do caminho. A Rússia tem se comprometido em proteger a Transnitria, mas não a reconhece como país independente. Em maio deste ano, o presidente Yevgeny Shevchuk voltou a declarar seu desejo de que a Transnitria se una em “um Estado comum” com a terra de Vladimir Putin, como nos gloriosos tempos da URSS.

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(Emblema oficial da Transnitria com a foice e o martelo)

Em entrevista à revista londrina Huck, a fotógrafa Julia Autz contou que ir à Transnitria é como “uma viagem no tempo, como se o tempo não tivesse passado por lá. Há muitas coisas remanescentes da era soviética em toda parte e monumentos que mostram que o passado ainda é presente. Há uma atmosfera muito especial de nostalgia sem fim pelo passado soviético. Mas também há uma presença muito forte de militares onde quer que você vá”.

Considerada um “museu vivo da era soviética”, a Transnitria aproveita a fama. Agências de viagens oferecem diversos roteiros no país, inclusive um “tour soviético”, perfeito para bolcheviques nostálgicos. Uma das atrações é a destilaria Kvint, na capital Tiraspol, famosa por fabricar a bebida favorita do cosmonauta Yuri Gagarin.

Foi complicado para a fotógrafa alemã se comunicar, porque não havia muita gente que falasse inglês em Tiraspol, mesmo entre os jovens. Quem falava inglês não parava de lhe perguntar: “O que você está fazendo aqui? Você é uma espiã? Você esteve na Disneylândia? Você gosta do Putin?” No geral, ela achou tudo “muito frio e depressivo”. “Muitos jovens querem deixar o país porque está cada vez mais difícil achar um trabalho que pague o suficiente, para não mencionar que os diplomas da Universidade da Transnitria não são reconhecidos fora do país. Muitos garotos me falaram que sonham em estudar na Rússia”, disse Julia.

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(Jovens da Transnitria. Foto: Julia Autz)

Veja mais fotos da última província soviética (que não existe) no site de Julia Autz.

 

 


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