O chato que reclama de praia cheia deveria ser enviado a uma ilha deserta
Para quem, como eu, mora a 1000 quilômetros da praia mais próxima, a praia lotada é só um detalhe. E quem reclama dela, bom sujeito não é
Há muitos tipos de chatos neste mundo, mas se há um tipo de chato que enche o saco no verão é o chato que reclama que a praia está cheia. Para quem, como eu, mora a 1000 quilômetros da praia mais próxima e só está a fim de lagartear na areia, nadar no mar e curtir a maresia ao pôr-do-sol, praia lotada é só um detalhe. E quem reclama dela, bom sujeito não é.
O natural de uma boa praia num dia de sol é ela estar lotada. Ao contrário do que querem os bolsonaristas, empenhados em privatizar nossas areias, a praia é um lazer popular. Como não se cobra (ainda) ingresso para ir à praia, todo mundo ali é bem-vindo; classes, gêneros e raças se misturam numa algazarra deliciosa para quem possui bom humor. A praia cheia é alegre, colorida, alto astral.
Tem coisa mais engraçada do que ouvir conversas alheias numa praia lotada? Observar as pessoas, apreciar as belezas das gentes com pouca roupa, os ambulantes passando com seus bordões… Eu acho enriquecedora essa troca e a praia possibilita isso
Tem coisa mais engraçada do que ouvir as conversas alheias numa praia lotada? Observar desconhecidos, apreciar as belezas das gentes com pouca roupa, os ambulantes passando com seus bordões… Outro dia vi no Porto da Barra, minha praia favorita em Salvador (e sempre lotada), uma moça linda de megafone anunciando seus camarões no bafo. “Discretíssima”, rimos. Há quem ache barulhento: já eu acho enriquecedora essa troca.
Gosto de fazer amizades aleatórias na praia lotada. E possuo uma boa capacidade de abstração, condição necessária para saber apreciar uma bela praia cheia. Posso passar horas vendo a galera jogando altinha. Fico na água um tempão olhando para a areia. Fico na areia um tempão olhando para a água. Me distraio com alguma figura interessante. Não percebo qual é exatamente o problema com a praia cheia porque não me incomoda em nada a balbúrdia, ela me diverte.
O chato que reclama da praia cheia, ao contrário, me irrita porque eu o considero, em primeiro lugar, um elitista. Não gosta de “se misturar”. Quer pegar sua praia num lugar onde não haja ninguém para incomodá-lo: crianças, risadaria, música alta… Não quer mergulhar suas carnes nas mesmas águas que a ralé. Tem nojo de dividir o mar, infinito, com seus semelhantes.
Dirá o chato que reclama de praia cheia: “não se trata disso, é que a praia cheia é suja”. Não será o contrário? Praia suja não fica cheia, oras. Praia cheia em geral é praia boa, valorizada. Mar com coliformes fecais não atrai banhistas, correto? É inclusive considerado impróprio para o banho. Quem dá essa desculpa pretende apenas esconder seu esnobismo, disfarçar que considera o povão sujo.
E a insatisfação com a praia cheia, na verdade, é muito fácil de ser contornada. Tenho algumas dicas:
1. Acorde cedo: se você for para a praia às 6, 7 da manhã e não ao meio-dia, qualquer praia do mundo estará vazia. Faça o teste e verá. O problema é que sua majestade, o chato que reclama da praia cheia, quer acordar tarde, ir para a praia no auge do sol e encontrá-la vazia a seu dispor. Mas é cada uma!
Tenho várias dicas para quem não gosta de praia lotada. Mas o chato que relcama da praia cheia não quer saber de sugestões para evitar as praias cheias. O que o chato que reclama da praia cheia gosta mesmo é de ir para a praia cheia reclamar que ela está cheia –ou não seria um chato
2. Fique na água: normalmente a areia fica cheia, mas a água não fica. Então, se você não quiser ficar ao lado de outros seres humanos durante um par de horas na areia, vá para a água e fique lá boiando, nadando… No mar tem sempre espaço de sobra! E lá você não corre o risco de encostar em ninguém –a não ser nos tubarões.
3. Vá para longe: o chato que reclama da praia cheia gosta de reclamar que a praia está cheia, mas não se dispõe a gastar mais dinheiro para ir para as praias desertas, que ficam sempre longe, não nas zonas urbanas. Se você se sente de fato incomodado com gente na praia, largue de ser pão-duro e se mande para alguns dos refúgios exclusivos que há na nossa imensa costa marítima.
4. Fique em casa: se você não consegue acordar cedo, não gosta de ficar na água e nem tem dinheiro para ir para uma praia vazia (e longínqua), fique em casa. Assim nem você se aborrece com a praia lotada nem enche o saco dos outros com suas reclamações.
O problema é que o chato que reclama da praia cheia não quer saber de sugestões para evitar as praias cheias. O que o chato que reclama da praia cheia prefere mesmo é ir para a praia cheia reclamar que ela está cheia –ou não seria um chato. No fundo, a solução para este tipo de chato seria enviá-lo para uma ilha deserta no verão.
Ou para sempre.
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Daniel Paula em 17/01/2025 - 18h18 comentou:
Reclamar de praia cheia nunca foi elitismo.
A crítica sobre quem reclama de praia cheia ignora que o direito ao lazer (Art. 6º da Constituição) deve coexistir com a preservação ambiental e o bem-estar coletivo.
O barulho e o lixo muitas vezes prejudicam a experiência e o meio ambiente.
Buscar o equilíbrio entre conforto e respeito ao meio ambiente não é “nojo da ralé”. O nome disso é bom senso.
Taluana em 20/01/2025 - 12h15 comentou:
Escutar no celular, num volume razoável pra vc e sua turma ouvir , sem ampliar pra praia toda, eu sou a favor. Música é alegria da alma. Mas essas caixas de som são um inferno. Muito potentes.
Todos podem ,devem frequentar e curtir. Isso tem que fazer parte da educação, poluição sonora, não de punição.
Paulo Roberto Martins em 24/01/2025 - 12h33 comentou:
Você está errada e sendo bem discriminatória, como os chatos que você critica.Em primeiro lugar, o povão é mal educado,deixa lixo, liga seu asqueroso sertanojo a todo volume, dá bolaço na cabeça dos outros, trás cachorro para cagar na praia, grita e fala alto,não respeita os mais velhos, joga frescobol na tua cara, bebem e se alcoolizam, adoram escândalos e brigas. Portanto pessoas que querem sossego fodam-se. Este é o teu julgamento. Lastimo. Como pessoa de esquerda odeio este pseudo pieguismo de que todo pobre pode fazer o que quer, senão é “discriminação”. Por tudo isso é que mesmo morando a 1 km da praia já fazem muitos anos que fico em casa, só tomando banho de chuveiro. Me incomodo menos e não tenho de suportar observações descabidas como a sua.Só para novamente deixar bem claro: não sou bolsonarista, muito menos de direita. Sou apenas gente!
Paulo Roberto Martins em 24/01/2025 - 12h39 comentou:
Exatamente. Detesto este pieguismo que pobre pode fazer tudo. Moro na praia e sei bem o que significa o lixo,o barulho, a falta de educação, até o perigo que representa uma praia cheia. Por isso a anos fico em casa. Não posso desfrutar de um lugar cheio de merda de cachorro, coliformes fecais, restos de coco e melancia, fraldas descartáveis, absorventes e preservativos usados, bola na cara, sertanojo no ouvido, bêbado do teu lado sendo inoportuno e até agressivos, enfim, a ralé. E deixo bem claro: não sou de direita, nem conservador, nem qualquer destas bostas fascistas. Mas sou uma pessoa de idade que gostaria de ter um minimo de sossego e respeito. Esta opinião da Cynara é uma opinião de bosta!
Eugênio em 26/01/2025 - 15h16 comentou:
Que os deuses nos livrem de epidemias, pandemias etc. e tal.
Mas eta saudade do isolamento social!
Uma ilha deserta seria realmente espetacular.
Bem longe dos ricos … inatingíveis e repugnantes:
Bem longe da classe mérdia, ignorante e burra, seja vermelha ou amarela;
Bem longe do povão, que horror o que escutam, que horror o que dizem, que horror…
Tão longe também do mar — mineiro…. –, basta andar pela cidade destruída pela miséria e ter, realmente, vontade de levar a vida do Robinson Crusoé.
Flávio Lima em 19/02/2025 - 21h05 comentou:
Cynara, você azedou um monte de chatos reclameiros de praia cheia.
Concordo com você, estar na praia é um privilégio que não se deve desperdiçar sendo chato
Aliás, estar vivo também