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O chão da casa de Trotski era vermelho

“Stalin matou nossa velha revolução vermelha para sempre”, escreveu Allen Ginsberg em seu poema Capitol Air. As palavras do poeta beat ressoavam em minha cabeça enquanto eu percorria o Museu Casa de Leon Trotski, em Coyoacan, na Cidade do México. Acho que é um dos museus mais tristes do mundo. Estão depositadas naquele jardim as cinzas […]

Cynara Menezes
14 de fevereiro de 2014, 19h33

(Jardim do Museu Casa de Leon Trotski em Coyoacan)

“Stalin matou nossa velha revolução vermelha para sempre”, escreveu Allen Ginsberg em seu poema Capitol Air. As palavras do poeta beat ressoavam em minha cabeça enquanto eu percorria o Museu Casa de Leon Trotski, em Coyoacan, na Cidade do México. Acho que é um dos museus mais tristes do mundo. Estão depositadas naquele jardim as cinzas do revolucionário russo, assim como as de sua companheira Natália Sedova. É como se o lugar fosse a tumba do sonho comunista. Como se tivesse uma placa invisível pairando sobre a cabeça do visitante: “aqui jaz o comunismo”.

O escritor cubano Leonardo Padura, autor do romance O Homem Que Amava os Cachorros, sobre a vida (e a morte) de Leon Trotski, já havia me contado da emoção que sentira ao entrar naquela casa, muitos anos antes de pensar em escrever o livro. Ali, em agosto de 1940, o catalão Ramón Mercader desferiu o golpe de picareta na cabeça que mataria o segundo do triunvirato que comandou a Revolução Russa em 1917. Lenin estava morto desde 1924. Agora, só sobraria Josef Stalin, a quem Trotski apelidara “o coveiro da revolução”.

No museu ficamos sabendo que Stalin não só perseguiu Trotski até o México como dizimou quase toda a sua descendência: só sobraram dois netos. A tristeza que paira sobre a casa é ainda maior porque normalmente quem a visita o faz depois de ir à Casa Azul, o museu de Frida Kahlo, a poucas quadras dali. A casa de Frida, onde Trotski morou um tempo quando chegou ao México, é colorida, alegre, cheia de vida. A casa de Trotski é escura, acinzentada, com muros altos, protegida por guaritas de vigilância.

Também é um museu acanhado para a estatura de Leon Trotski, como personagem histórico e intelectual. As fotos parecem xerocadas, tudo dá a impressão de ser meio improvisado. Mas as imagens mostram um homem bastante sorridente, relaxado, em paz. Trotski aparenta estar feliz em terras mexicanas. Sente-se livre, talvez? Faz excursões com seus jovens aprendizes, recolhe cactos na natureza para plantar no jardim. Bonito jardim.

A casa onde Leon e Natália viveram permanece intacta. O tempo lá dentro está em suspensão. O chão da casa de Trotski é vermelho, sobre a cama dele há um chapéu e uma bengala. No armário, seu pijamas favorito, algumas roupas e os sapatos de Natália. Que pezinhos pequeninos. No escritório de Trotski, um caderno de anotações aberto. A porta de saída é mínima e blindada. As janelas são tapadas até a metade.

Sinto o peso do mundo sobre meus ombros, penso sobre a capacidade humana de estragar ideias extraordinárias, a possibilidade de um mundo novo, por causa da inveja, do desejo de poder, da vaidade. Na saída, no jardim da casa de Leon Trotski, encontro um beija-flor morto sobre um copo-de-leite.

 


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(19) comentários Escrever comentário

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Antonio Fausto em 14/02/2014 - 22h34 comentou:

Gostei do texto! Emotivo numa dose justa!

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Isabela em 14/02/2014 - 23h22 comentou:

Sou a mais nova assinante da Carta Capital e adorei seu texto sobre a visita a Chiapas. Passei aqui e encontro mais um ótimo relato sobre o México. A imagem do beija-flor no copo de leite é poesia pura e até sintomático: lindo, lindo…

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Wadilson em 15/02/2014 - 13h20 comentou:

Obrigado!

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Josué Rowstock em 15/02/2014 - 13h27 comentou:

Muito lindo o texto. As fotos me trouxeram nostalgia. Trostski é o grande símbolo de uma grande revolução!

Responder

Claudio Santos em 15/02/2014 - 16h47 comentou:

O que comprova que ele tinha um péssimo gosto…

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Amanda em 15/02/2014 - 17h04 comentou:

Estive no final do ano na Cidade do México e confesso, foi o único lugar que me debulhei em lágrimas. A energia do local é incrivel. Tive toda essa sensação relatada no texto.

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Flávio Alimandro em 15/02/2014 - 22h27 comentou:

Estou deveras convencido que o esquerdismo é realmente uma religião, pois só a fé para justificar a crença numa ideologia que jamais demostrou um único caso de sucesso em toda a sua existência !

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    bob dylan em 16/02/2014 - 11h32 comentou:

    Tambem cheguei a mesma conclusao. Alias, todas as ideologias sao. O comunismo por exemplo, possui livros sagrados e martires… Tente questionar um crente a respeito de seus dogmas e observe a reacao.

    Flávio Alimandro em 16/02/2014 - 19h21 comentou:

    Possui o Livros sagrados e profetas maiores e menores…mas resultado que é bom, NADA!!!

    Guilherme Caldas em 16/02/2014 - 14h00 comentou:

    Muito sensacional. Sugiro que o blog passe a se chamar Direitista Morena, em homenagem a todas as ditaduras de direita que são exemplos mundiais e históricos de sucesso.

    Flávio Alimandro em 16/02/2014 - 19h20 comentou:

    "Liberalista Morena" seria um nome maravilhoso, de uma olhadinha na classificação dos países pelas liberdades econômicas e terás uma surpresa ao ver que qualidade de vida e desenvolvimento andam de mãos dadas estado pouco interventor e livre mercado!!…
    http://www.heritage.org/index/

Claudio Vituriano em 16/02/2014 - 12h52 comentou:

Olá, Cynara.
Muito bonito este artigo.
Parabéns!!!
PS.: O livro do Leonardo Padura é uma obra prima que precisaria ser lido por todos que desejam entender um pouco do que acontecia na URSS sob a tirania stalinista.
Um grande abraço!

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alcides valença em 16/02/2014 - 17h38 comentou:

O comunista tinha o sonho da revolução permanente – tinha razão – A REVOLUÇÃO É PERMANENTE E CONTINUARÁ SENDO…………ATÉ E ALÉM DO COMUNISMO (chegaremos lá, a evolução é constante)

Responder

    Flávio Alimandro em 16/02/2014 - 19h25 comentou:

    Sim claro, com a Venezuela com as prateleiras dos mercados vazias e nesse exato momento a beira de uma guerra civil!! e a nossa imprensa CALADA!!!

Lenir Vicente em 17/02/2014 - 00h18 comentou:

Que linda e emocionante crônica Cynara. Grata por nos presentear com as imagens ,não só da casa do Trotsky , mas principalmente do beija-flor. Pura magia.

Responder

Maria em 19/02/2014 - 16h24 comentou:

Parabéns, Cynara. Que texto lindo.
Emocionante e intenso na medida certa, é impossível não sentir um aperto apesar da simplicidade das suas descrições.

Responder

Nelson em 23/03/2014 - 21h41 comentou:

Leon Trotsky: exemplo de teórico marxista e de soldado da revolução socialista. Suas ideias e atos continuam inspirando gerações de homens e mulheres que se recusam a aceitar como natural e dada a sociedade capitalista, que em nome do lucro sem limites exaure as forças vitais e intelectuais do homem no trabalho, e os frustra com a promessa de riqueza e liberdade para todos, que na prática é apenas para alguns poucos. Trotsky também inspira o sonho de que é possível construir um sociedade diferente, uma sociedade socialista, onde o ser humano passará a ser a prioridade e a suas potencialidades individuais possam ser plenamente desenvolvidas.

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Dan Moche Schneider em 10/08/2018 - 21h41 comentou:

Delicado texto. Adoro garimpar por aqui.

Responder

    Cynara Menezes em 12/08/2018 - 00h53 comentou:

    obrigada, amigo

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