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Cultura

A complexa relação dos hindus com as vacas (e com quem as come)

Incentivado pelo governo de direita, movimento nacionalista da Índia está tentando usar a noção de santidade da vaca para privar muçulmanos de seus direitos civis e oprimir as castas inferiores

Krishna com sua flauta. Gravura do século 18. Museum of Fine Arts, Boston
Wendy Doniger
01 de agosto de 2017, 14h50

Do The Conversation

Tradução de Mauricio Búrigo*

Há pouco tempo, em junho passado, num encontro nacional de várias organizações hindus na Índia, uma líder religiosa popular, Sadhvi Saraswati, sugeriu que aqueles que consumissem carne de vaca deveriam ser enforcados publicamente. Mais tarde, no mesmo evento, um ativista dos direitos dos animais, Chetan Sharma, disse:

“A vaca é também a causa do aquecimento global. Quando ela é abatida, algo chamado ODE é liberado, que é diretamente responsável pelo aquecimento global. É o que se chama ondas de dor emocional”.

Estes comentários provocativos aparecem numa hora em que grupos de justiceiros hindus estão linchando pessoas na Índia por comerem carne de vaca. Tais matanças têm aumentado desde que Narendra Modi e seu partido de direita Bharatiya Janata chegaram ao poder em setembro de 2014. Em setembro de 2015, um muçulmano de 50 anos de idade, Mohammad Akhlaq, foi linchado por uma turba numa aldeia perto de Nova Déli sob suspeita de que havia consumido carne. Desde entãomuitos ataques de grupos de justiceiros de vacas se seguiram. O governo de Modi, além disso, proibiu o abate de búfalos, destruindo assim a indústria de carne de búfalo, dominada por dominada por muçulmanos, e causando dificuldades econômicas por toda a parte.

Em 2015, um muçulmano de 50 anos de idade foi linchado por uma turba numa aldeia perto de Nova Déli sob suspeita de que havia consumido carne

A maioria das pessoas parece supor que jamais hindu algum consumiu carne de vaca. Mas isto é verdade?

Na qualidade de estudiosa do sânscrito e da religião ancestral indiana há mais de 50 anos, sei de muitos textos que oferecem uma resposta clara a esta pergunta.

As vacas na história antiga da Índia

Estudiosos sabem há séculos que os antigos indianos comiam carne de vaca. Depois do século IV a.C., quando a prática do vegetarianismo se espalhou por toda a Índia entre budistas, jainistas e hindus, muitos hindus continuaram a comer carne de vaca.

No tempo do texto sagrado hindu mais antigo, o Rig Veda (c. de 1500 a.C.), a carne de vaca era consumida. Como a maioria das culturas que criavam gado, os indianos védicos comiam em geral bois castrados, mas comiam a fêmea da espécie durante rituais, ou quando recebiam um convidado ou uma pessoa de status elevado.

Textos rituais antigos conhecidos como os Brâmanas (c. de 900 a.C.) e outros textos que ensinavam o dever religioso (darma), do século III a.C., dizem que um boi ou uma vaca deveriam ser abatidos para serem comidos quando um convidado chegasse.

De acordo com estes textos, “vaca é comida”. Mesmo quando uma passagem no “Brâmana Shatapatha” (3.1.2.21) proíbe comer tanto vaca quanto boi, um antigo sábio hindu venerado, chamado Yajnavalkya, a contradiz de imediato, dizendo que, apesar disso, ele come carne tanto da vaca como do boi, “desde que seja tenra”.

Foi o épico sânscrito Mahabharata (composto entre 300 a.C. e 300 d.C.) que explicou a transição para o não se comer vacas em um mito famoso:

“Uma vez, quando houve uma grande fome, o rei Prithu pegou seu arco e flecha e perseguiu a Terra para forçá-la a conceder alimento ao seu povo. A Terra assumiu a forma de uma vaca e lhe implorou que poupasse sua vida; ela então permitiu que ele a ordenhasse o tanto quanto fosse necessário ao povo”.

Prithu persegue a vaca. Gravura do século 18

Este mito representa uma transição da caça de gado selvagem à preservação de suas vidas, sua domesticação e criação pelo leite, uma transição à agricultura e à vida pastoral. Visualiza a vaca como o animal paradigmático que concede comida sem que seja abatido.

Comer carne de vaca e casta

Alguns textos de darma compostos neste mesmo período insistem que as vacas não deveriam ser comidas. Alguns hindus que comiam carne abriram uma exceção especial e não comiam a carne da vaca. Tais pessoas podem ter visto o consumo de carne a partir do que a historiadora Romila Thapar descreve como uma “questão de status” –quanto mais alta a casta, maiores as restrições alimentares. Várias sanções religiosas eram usadas para impor a proibição de se comer carne de vaca, mas, como demonstra Thapar, “somente entre as castas altas”.

As vacas –animais inocentes, dóceis– tornaram-se na Índia um para-raios para a crueldade humana, em nome da religião

A meu ver, os argumentos contra se comer vacas são uma combinação de um argumento simbólico acerca da pureza e docilidade feminina (simbolizada pela vaca que dá seu leite ao bezerro em abundância), um argumento religioso acerca da santidade bramânica (visto que os brâmanes vieram a ser cada vez mais identificados com as vacas e a serem pagos através de doações de vacas), e uma maneira de as castas ascenderem na escala social.

O sociólogo M.N.Srinivas salientava que as castas baixas renunciavam à carne de vaca quando queriam subir na escala social através do processo conhecido como “sanscritização”.

No século 19, o movimento de proteção às vacas cresceu. Um dos objetivos implícitos deste movimento era a opressão a muçulmanos.

Como é sabido, Gandhi tentou fazer do vegetarianismo, em particular o tabu sobre comer carne de vaca, um princípio central do hinduísmo. A postura de Gandhi para com as vacas estava ligada à sua ideia de não-violência.

Ele usou a imagem da vaca-Terra (a que o rei Prithu ordenhou) como uma espécie de Mãe-Terra, para simbolizar a sua imaginada nação indiana. Sua insistência na proteção das vacas foi um grande fator no fracasso dele em atrair o apoio muçulmano em larga escala.

Contudo, até mesmo Gandhi nunca exigiu a proibição do abate de vacas na Índia. Ele disse:

“Como posso forçar alguém a não abater vacas a não ser que ele próprio esteja disposto a tal? Não é como se houvesse apenas hindus na União Indiana. Há muçulmanos, parses, cristãos e outros grupos religiosos aqui”.

A Índia de hoje

Sob meu ponto de vista, em nossos dias, o movimento nacionalista e fundamentalista “Hindutva” (“Hinduidade”) está tentando usar esta noção da santidade da vaca para privar muçulmanos de seus direitos civis. E não são apenas os muçulmanos (e cristãos) que comem carne de vaca que são alvo da brigada de ódio do Hindutva. Hindus de castas baixas também estão sendo atacados. Ataques deste tipo não são novidade. Isto tem acontecido desde que o Hindutva começou, em 1923. Em 2002, numa cidade do norte da Índia, cinco hindus de castas baixas por esfolarem uma vaca.

O movimento nacionalista e fundamentalista “Hindutva” (“Hinduidade”) está tentando usar esta noção da santidade da vaca para privar muçulmanos de seus direitos civis

Porém, como mostram análises locais, a violência aumentou muito sob o governo Modi. IndiaSpend, um site jornalístico especializado em estatísticas, descobriu que “os muçulmanos foram alvo de 51% da violência centrada em questões bovinas em quase oito anos (2010 a 2017) e representaram 86% dos 28 indianos mortos em 63 incidentes… De todos estes ataques, 97% foram reportados depois que o governo do primeiro-ministro Narendra Modi chegou ao poder, em maio de 2014”.

Em 2015, no estado de Gujarat, no oeste da Índia, hindus de castas baixas foram açoitados por esfolarem uma vaca morta, provocando protestos de rua espontâneos e contribuindo para a demissão do principal ministro do estado.

Como estes e muitíssimos outros ataques demonstram, as vacas –animais inocentes, dóceis– tornaram-se na Índia um para-raios para a crueldade humana, em nome da religião.

Wendy Doniger é professora emérita de História das Religiões na Universidade de Chicago.

 

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Rodrigo Dias em 02/08/2017 - 17h26 comentou:

Bela reportagem. Recentemente, a Índia voltou a criminalizar a homossexualidade, como os ingleses fizeram logo após invadirem o país no século XIX. Li duas reportagens diferentes, uma falava que a medida foi aprovada por lobistas cristãos e muçulmanos, outra se referia a cristãos, muçulmanos e hindus. Mas parece que o hinduísmo historicamente nunca proibiu a homossexualidade, que devia ser tão escancarada que “exigiu” medidas urgentes dos ingleses (a proibição durante o British Raj aconteceu cerca de dois anos após a invasão). Fica a sugestão para uma reportagem. Grande abraço, e parabéns pelo visual novo, ficou bem legal.

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Vicente em 04/08/2017 - 12h22 comentou:

Tive na India 3 vezes ano passado e o anterior, em Delhi, à trabalho. Passei no total qse 2 meses lá, e é mesmo incrível o lance das vacas. Nas ruas, com o trânsito absurdo, o único ser respeitado são elas. Os carros só desviam delas, de pessoas, esquece.

Uma curiosidade, no entanto, é que a Índia é um dos maiores exportadores de carne bovina no mundo. Acho até que o maior.

Uma percepção que tive não só desse tema, mas de qq um q toque a questão religiosa, é que o indiano, principalmente os mais jovens e com mais conexão com o mundo ocidental, vivem num conflito constante entre as tradições religiosas e o desejo de viver outras experiências. As primeiras coisas que sempre perguntam do Brasil, após o futebol, é sempre sobre mulheres e carne. Boa parte deles queriam vir pra cá comer churrasco e ver mulher pelada na praia (eles mostravam fotos de praias de nudismo italianas, ou de Ibiza, achando que era aqui).

Outro exemplo disso são as baladas, pouquíssimas, mesmo em Delhi. O indiano, sempre pacato e cordial, depois que toma umas… hehe nunca vi tanta briga por metro quadrado numa balada só, e o pior é que nunca eram entre 2 pessoas, em geral eram 5, 6 contra 1, uma certa covardia.

A miséria é chocante, chocante mesmo, e o valor da vida é inexistente pra algumas pessoas. O preconceito com as castas ditas inferiores, embora tenham me dito que só acontece hoje em dia no interior, é palpável, eles nem se dão conta. Eu vi um homem ser atropelado e o atropelador saiu do carro pra esculhambar ele, que nada falou e foi embora mancando de cabeça baixa. Nas filas, mesmo no checkin do aeroporto, alguns caras simplesmente entram na frente sem a menor cerimônia. Nós alertamos os seguranças, pois ninguém mais disse nada, eles foram timidamente pedir pro cara se retirar e o cara esculachou o segurança que saiu de cabeça baixa. No escritório tem tipo uns serviçais, é bizarro, e eles adoravam nosso grupo de brasileiros pelo simples fato de falarmos por favor e obrigado, coisa q ninguém fazia.

O que mais me espanta em todas as loucuras que vi lá, como crianças de 2, 3 anos comendo do lixo na porta de prédios gigantes, é que se vc perguntar a opinião deles, eles vão creditar tudo na conta dos deuses, tanto o sucesso próprio, qto a miséria daquelas crianças. Religião é uma bosta, não importa o quanto a gente glamoriza daqui.

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