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A abstenção ganhou, mas o direitista Piñera levou e volta a governar o Chile

Mais de 50% de chilenos habilitados a votar não compareceram às urnas no segundo turno das eleições presidenciais, neste domingo

A presidenta Michelle Bachelet no tradicional café da manhã com o presidente eleito. Foto: Sebastian Rodrigues/Presidencia Chile
Rogério Tomaz Jr.
18 de dezembro de 2017, 18h07

O bilionário Sebastián Piñera, dono da sétima maior fortuna do Chile, perdeu da enorme abstenção de 52%, mas foi sagrado vencedor do segundo turno da eleição presidencial neste domingo e voltará a governar o país a partir de março de 2018. Candidato da direita, Piñera derrotou Alejandro Guillier, senador que encabeçou a aliança de centro-esquerda Nova Maioria, apoiada pela atual presidenta, Michelle Bachelet.

O resultado da votação decisiva, tal qual no primeiro turno, surpreendeu. A maioria dos analistas e meios de comunicação apostava num resultado muito parelho e muitos lembraram a apertada vitória do socialista Ricardo Lagos em 1999, quando este derrotou o conservador Joaquín Lavín por 187 mil votos, após ter partido com vantagem de apenas 30 mil votos no primeiro turno. Desta vez, Piñera se impôs com mais de 600 mil votos sobre o adversário, depois de sair com números magros na votação de novembro, com apenas 36%, quando as enquetes indicavam que chegaria próximo a 45%.

Com a derrota do que restou da antiga Concertação, é bastante provável que ganhe força o protagonismo da jovem Frente Ampla, que terá 20 deputados, além de um senador, e certamente fará uma oposição dura a Piñera

Após a confirmação da vitória, o presidente eleito se comprometeu a trabalhar pela “unidade de todos os chilenos” através do diálogo “com todas as forças políticas” e dedicou palavras elogiosas ao adversário. “Viva a diferença e o pluralismo de ideias. Essas diferenças não devem nos converter em inimigos. Tenho um grande apreço e carinho por Alejandro Guillier. Trabalhamos juntos no passado e voltaremos a trabalhar juntos no futuro para construir o nosso país. Nunca um chileno deve se sentir inimigo de outro chileno”, declarou Piñera no palco armado em frente a um hotel de luxo da capital Santiago.

Guillier, por sua vez, fez um pronunciamento breve onde repetiu várias vezes a ideia da necessidade de renovação das lideranças e das ações políticas –em gesto que sinaliza um elogio implícito à Frente Ampla, grande novidade destas eleições– do que ele chama de progressismo. “É preciso trabalhar para renovar nossas lideranças, renovar nossas formas de atuação política, abrir-nos aos movimentos sociais, escutar mais a cidadania, esquecer de tantos palácios e irmos mais às associações de bairros, às organizações sindicais, percorrer o país e conversar com o povo”, afirmou, além de sublinhar a importância de manter a unidade da futura oposição ao governo.

Segundo o senador, que garantiu continuar o trabalho “pelo Chile que acreditamos”, esta eleição foi “um sinal que temos que respeitar e do qual temos que aprender”. A única referência ao vencedor foi uma confissão involuntária dos limites do seu projeto. “Devo admitir que o meu rival soube acolher muitas de nossas bandeiras”, admitiu Guillier, criticado por diversos porta-vozes da Frente Ampla por não ser mais enfático na adoção das propostas que poderiam atrair mais votos da terceira grande força política do país.

“Fica claro que não bastava o (lema) ‘anti-Piñera’ para convocar uma maioria. Guillier não se comprometeu com transformações profundas e esse é o resultado. A principal responsabilidade de sua derrota é daqueles que lideraram a campanha”, criticou via twitter o deputado reeleito Gabril Boric, 31 anos, um dos principais referentes da Frente Ampla.

Com a derrota do que restou da antiga Concertação, é bastante provável que ganhe força o protagonismo da jovem Frente Ampla, que terá 20 deputados, além de um senador, e certamente fará uma oposição dura a Piñera. O esfacelamento da coalizão liderada por Bachelet deve prosseguir em fogo lento e a dificuldade de renovação de quadros poderá fortalecer ainda mais o projeto da Frente Ampla, que fez o deputado mais votado do país, Giorgio Jackson, 30 anos, também reeleito e único a superar a marca de 100 mil votos nas urnas.

Com alianças com os partidos da direita, Piñera deverá obter maioria apertada no Congresso, tanto na Câmara quanto no Senado. Resta saber, de um lado, que tipo de conteúdo ele confiará a essa maioria e, no polo antagônico, como a oposição se comportará, sobretudo para além dos limites Valparaíso, sede do Parlamento.

Rogério Tomaz Jr. é jornalista e reside em Montevidéu, onde escreve o livro Conversando com Eduardo, viajando com Galeano.

 

 


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Sergio em 18/12/2017 - 19h22 comentou:

Em 2014, aqui no Brasil, Brancos + Nulos + Abstenções = 27,44%! Altíssimo também!

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