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Cultura

Ao levar fake news contra Lula para o Netflix, Padilha se iguala a troll

Cineasta de Tropa de Elite criou, com O Mecanismo, uma nova forma de fazer ficção, a ficção baseada em fatos reais inventados

O cineasta no festival de Berlim, em 2008. Foto: divulgação
Cynara Menezes
26 de março de 2018, 10h50

O Brasil e o mundo vivem uma guerra contra as notícias falsas que, com as redes sociais, se espalham como rastilho de pólvora. O potencial das fake news é literalmente explosivo: estudo mostra que apenas três delas foram capazes de influenciar o resultado das últimas eleições nos EUA. No Brasil, as fake news têm servido para incitar o ódio contra o ex-presidente Lula, principal alvo delas no país hoje. Sobre Lula e sua família já se publicaram as maiores barbaridades, desde que o filho dele é dono de uma mansão no interior usando uma foto da ESALQ; até dizerem que sua mulher, Marisa, não morreu e está na Itália.

A pretexto de fazer ficção em cima de fatos reais, o cineasta José Padilha, de Tropa de Elite, se tornou um produtor de fake news ao inserir na boca do personagem baseado em Lula de sua nova série da Netflix, O Mecanismo, a frase sobre “estancar a sangria” celebrizada pelo senador golpista Romero Jucá. Ou seja, Padilha colocou na boca do ex-presidente uma frase pronunciada por um político que estava do outro lado do espectro político, seu ex-aliado, é verdade, mas naquele momento seu inimigo. Seria o mesmo que atribuir a John Kennedy uma frase dita por Richard Nixon. Isso não é ficção “baseada em fatos reais”; isso se chama falsear a história. Mentir.

É lamentável que um cineasta com carreira internacional se rebaixe dessa maneira, igualando-se a um troll qualquer de internet. Não há diferença entre Padilha e o troll Luciano Ayan (agora identificado como Carlos Augusto de Moraes Afonso), que teve seu perfil cancelado no facebook após ficar demonstrado que foi um dos principais disseminadores de calúnias sobre a vereadora Marielle Franco, executada há duas semanas. Ninguém duvide que, se algum dia for contar a história de Marielle, o cineasta coloque frases da desembargadora Marília de Castro Neves em sua boca.

Tudo é possível no mundo fakecional de Padilha, e a esquerda não pode nem criticar, tem de aceitar caladinha ou será acusada de “censura”. Pois eu não defendo cancelamento de assinatura da Netflix e nem mesmo que as pessoas deixem de assistir à série. Só quero, como jornalista, repor a verdade dos fatos e apontar que o que faz o diretor ao subverter a história, ao mentir, é desonestidade intelectual –um paradoxo para quem diz que quer “contribuir”, com seu trabalho, para um país melhor.

É lamentável que um cineasta com carreira internacional se rebaixe dessa forma, igualando-se a um troll qualquer de internet. Não há diferença entre Padilha e o troll Luciano Ayan, que disseminou mentiras sobre Marielle

Em nota pública, a presidenta eleita Dilma Rousseff apontou outras inverdades na série do Netflix em que o diretor resolve, à moda de Stalin, recontar a história a seu bel-prazer. “A série O Mecanismo, na Netflix, é mentirosa e dissimulada. O diretor inventa fatos. Não reproduz fake news. Ele próprio tornou-se um criador de notícias falsas”, acusa Dilma. Ela enumera as fake news de Padilha: trata o escândalo do Banestado como se tivesse se passado na época de Lula e não em pleno governo FHC; coloca o doleiro Alberto Yousseff como participante da sua campanha de reeleição, em 2014; e inventa uma relação de amizade entre Dilma e Paulo Roberto Costa, exonerado por ela da Petrobras.

Confrontado com as críticas de Dilma, Padilha se saiu com a resposta habitual: ela “não sabe ler”. “Se a Dilma soubesse ler, não estaríamos com esse problema”, disse o cineasta, que, como muitos direitistas, se define como “nem de direita nem de esquerda” ou “sem ideologia”. Idêntica resposta foi dada pelo diretor ao advogado de Lula, Cristiano Zanin Martins, que se queixou de um artigo publicado em 2016 por Padilha no jornal O Globo onde este pedia “a cabeça” de Lula: “não sabe ler”, afirmou o cineasta sobre o advogado.

E se um cineasta de esquerda resolvesse criar uma série de ficção baseada no escândalo das privatizações e colocasse na boca de FHC a frase “estamos agindo no limite da irresponsabilidade”?

Imaginem se um cineasta de esquerda resolvesse criar uma série de ficção baseada no escândalo das privatizações durante o governo FHC e colocasse o presidente proferindo a famosa frase do diretor da área internacional do Banco do Brasil, Ricardo Sérgio de Oliveira: “Estamos agindo no limite da irresponsabilidade”. Ou se FHC aparecesse num filme dizendo a frase do embaixador Rubens Ricupero no governo Itamar: “Eu não tenho escrúpulos; o que é bom a gente fatura, o que é ruim a gente esconde.” Como reagiriam os tucanos e a mídia que os representa? É que contra Lula e o PT acabaram-se os pruridos. Quando até o “maior jornal do país” é capaz de divulgar uma ficha falsa da futura presidenta da República ou publicar um artigo acusando Lula de estupro, não há mais limites.

Claramente José Padilha criou, com O Mecanismo, uma nova forma de fazer ficção, a ficção baseada em fake news ou faketícia. A partir de agora, tudo pode acontecer: desde um Lula dizendo que “tem que ser um que a gente mata ele antes de fazer a delação” até um Lula dizendo que “tem que manter isso aí” ou “quando vejo passeata contra a violência, tenho vontade de sair metendo a porrada”. A desconstrução do petista como o “inimigo número 1” do país passa pela utilização de mentiras na mídia, nas redes sociais, no cinema e agora também no Netflix. Goebbels está rolando na tumba de inveja.

 

 


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(18) comentários Escrever comentário

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João Donato em 26/03/2018 - 11h16 comentou:

Como entretenimento, a série é bem fraquinha. Como política é meio criminosa.

Enquanto bota Moro andando de bike e lendo quadrinhos, bota Dilma como uma imbecil, repetindo o discurso de “estocar vento”, daí vem gente dizendo “ah, mas é só uma série”, mas não é não.

Pelo menos 90% da população não tem ideia do que é a Lava Jato além do óbvio. Ver uma história tão mastigadinha e supostamente baseada em fatos faz a pessoa acreditar que aquilo é verdade, e não uma ficção.

É muito desonesta, algumas retratações de alguns personagens, principalmente na dicotomia quase romântica entre a PF e a esfera política. É um caso clássico de bem contra o mal, com poucos momentos onde esse maniqueismo é colocado em questão.

Mas a cereja do bolo, sem qualquer dúvida, é a fala mais famosa do golpe, a do acordão pra “estancar a sangria” falada na vida real pelo Romero Jucá, na série ter saído da boca de Lula. Essa não é liberdade artística não, é intenção pura de confundir e divulgar mentira mesmo.

Em resumo, a série é irresponsável e vai criar diversos “especialistas” na Lava Jato que na verdade só sabem mesmo o que está dito ali. Em tempo de fake news, levar o mesmo discurso político raso e distorcido para uma série do Netflix é mais que irresponsável, é criminoso.

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Manoel em 26/03/2018 - 11h19 comentou:

Seu texto elenca todos motivos para cancelar e boicote sim.

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José Santana em 26/03/2018 - 14h18 comentou:

Engraçado que ninguém fala do Aécio playboy conspirando com o Temer pra derrubar a Dilma na série, não, o problema é como trataram o coitado do Lula.

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Cristina Silveira em 26/03/2018 - 15h28 comentou:

Chamar padilha, o Palha, de cineasta é uma afronta ao Glauber Rocha, ao Mário Peixoto e tantos outros. Tropa de elite não vi porque não gostei e me disseram que é uma imitação barata de seriados dos eua-cia. Este cara não tem estofo intelectual pra além de mentiras e disseminar o ódio com único objetivo: DINHEIRO. É um berda-merda e nada mais. Que vá plantar coquinhos ou peidar n’água nas prais dos eua-cia.

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Sergio Souza em 26/03/2018 - 15h34 comentou:

Boa atitude cancelar a assinatura do netflix. Isso é democracia. Porém, faria bem melhor ao país, se o PT, fosse legitimamente um partido de esquerda, fizesse uma sincera auto crítica, e seu eleitores estimulassem o partido a cancelarem alianças políticas espúrias com o PMDB. Alianças com Renan Calheiros, Eunício Oliveira… Chega dessa velha politicagem! Vamos aproveitar o momento para renascer!

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Rossi em 27/03/2018 - 05h32 comentou:

Feiquenius é o Ministério da Verdade previsto por Orwell,para reescrever a história com sua Novilíngua.Fazem parte desta organização(epa!) a grande mídia,oligopólio das cinco famílias,órgãos do governo com estes índices de inflação e de produção agrícola para exportação,Copons com 6,5% de juros e bancos com 350 a 400%,elogios à democracia enquanto apoia a ditadura e o golpe,judiciário,-ah este é novo no golpe,mas aprende rápido com seus penduricalhos-jornalistas selas,se não me engano e agora “cineastas” cooptados pelo sistema ou seria pelo “mecanismo”?Falando nisso,Adolf também tinha uma.

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Carimbo Miguel Porfírio em 27/03/2018 - 09h22 comentou:

Vocês são piada pronta demais, com esse maniqueísmo tosco, achando-se donos da verdade, e acusando (de isentão, de despolitizado, ou algo que o valha) quem julga não se encaixar nesses rótulos ultrapassados e patéticos de esquerda e de direita.

Vocês, esquerda parada no início do século XX, em nada diferem da caricatura que é o MBL. Ambos são uma mistura do mal com atraso e pitadas de psicopatia. Vocês, no caso, contam com bandeiras toscas de apoio a Maduros, Lucianas Genros e coisas que o valham.

Poucos são os mais ponderados, que conseguem fugir do lugar comum intempestivo de ataque ao “capitalismo”, ao “capital estrangeiro” etc., como Haddad e Freixo.

Não conseguem reconhecer (ou nem se deram ao trabalho de pesquisar), sequer, os fundamentos jurídicos para o impeachment da presidenta, não sabem o que são pedaladas fiscais, não sabem o que é abrir crédito por decreto. De verdade: quantos aqui conseguem definir o que são e em que consistiram essas violações à Lei de Impeachment? Apenas repetem como papagaios, como idiotas (in)úteis, clichês de “fora, temer”, “presidente eleita”, “golpe parlamentar” e idiotices genéricas do tipo.

Faço esse preâmbulo porque eu, por exemplo, jamais teria um interesse natural em assistir à série “O Mecanismo” da Netflix, inspirada na Lava Jato. Não é o estilo de coisa a que eu assista nos meus momentos de lazer.
MAS…
a propaganda petista/esquerdista tem sido realmente muito boa e fiquei muito curioso pra assistir à série. Até a Dilma fez propaganda!
É bem possível que eu não goste da série, mas estou com uma vontade imensa de assistir. É aquela história: “está todo mundo comentando…”, “falem mal, mas falem de mim…”
Imagino que assim como eu, muitas outras pessoas vão assistir pura e simplesmente em função da polêmica. E a série será um sucesso de visualizações.
Parabéns à militância petista, mais uma vez dando tiros e tiros no próprio pé! #nãopassarão #nãoassistirão #sóquesim

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    Cynara Menezes em 27/03/2018 - 12h06 comentou:

    “repetem como papagaios”. o que dizer dos midiotas de direita, que só sabem comentar coisas como “mimimi”, “vai pra cuba”, “chola mais” ou “lula é o maior bandido do brasil”?

    Sergio Souza em 27/03/2018 - 14h40 comentou:

    Gostei dos “midiotas” kkkkkkk

    Carimbo Miguel Porfírio em 28/03/2018 - 15h05 comentou:

    A mesma coisa. Digo a mesma coisa desse tipo de pessoa.

    Uma coisa não exclui a outra, em absoluto. Percebe?

    Só me entristece que a esquerda sustenta um manto de “intelectuais”, “críticos”, mas a autocrítica nunca é feita. No fim do dia, dá no mesmo.

    Mas reconheço que não esperava a aprovação do meu comentário. Então, parabéns por isso.

Mario em 27/03/2018 - 12h27 comentou:

Parece que o “palha” tá disputando uma vaga de ministro da Educação (ou Cultura talvez) com o Alexandre Fossa.

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Sérgio Ricardo em 27/03/2018 - 16h22 comentou:

Padilha foi uma decepção. Até então era apenas um apoiador de Marina Silva e crítico ao PT. Normal. Mas pra que isso agora? Na sarjeta da fama…

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Wadia Schabib Hanny em 27/03/2018 - 18h24 comentou:

Parabens Cinara! Concordo e compartilho a sua opinião, mas penso que temos que ser radicais com “seres” como Carimbo cuja opinião é difundida pelas tvs abertas. Esse tipo de comentários devem ser excluídos do seu canal.

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Fernando em 28/03/2018 - 04h30 comentou:

Falou o cara que se acha sabido demais e o único que sabe “em que consistiram essas violações à lei do impeachment”, alguém dê um pé de macarrão para esse rapaz. O caba enche uma linguiça danada pra ficar em cima do muro e acabar num textinho maniqueísta de quem decorou algumas formulas, mas não tem a capacidade de interpretar a situação do país e muito menos de fazer alguma coisa por ele

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Cristina Silveira em 31/03/2018 - 16h37 comentou:

É o “Empadilha”, vassalo dos eua-cia. Não vi e não gostei da Tropa.

Responder

Homem-Man em 01/04/2018 - 10h36 comentou:

Tem um texto SEU aqui mesmo dizendo que boicotar uma obra por discordar dela é covardia e burrice. Defendendo o filme Aquarius. Agora, é válido o boicote? Gente sem vergonha…

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    Cynara Menezes em 01/04/2018 - 11h09 comentou:

    como todo reaça, você sofre de dificuldade cognitiva e é inimigo da leitura. está escrito no texto que não defendo boicote

Wendell em 02/04/2018 - 15h07 comentou:

Muito bem Cynara. Como sempre, um ótimo texto!

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