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Ecofascismo: como a extrema direita quer “salvar” o meio ambiente com xenofobia

Autor do massacre em El Paso era "ecofascista", grupo que defende "save trees, not refugees" (salvem as árvores, não os refugiados)

Imagem de ecofascista que circula em fóruns da internet. Foto: reprodução
The Conversation
07 de setembro de 2019, 13h09

Por Alexandra Minna Stern, no The Conversation
Tradução Maurício Búrigo

Nacionalistas brancos mundo afora estão se apropriando da linguagem do ambientalismo.

O supremacista branco que matou 22 pessoas em El Paso, nos EUA, no início de agosto postou uma lenga-lenga de quatro páginas no fórum online 8chan. Nela, o atirador põe a culpa por seu ataque na “invasão hispânica do Texas” e na suposta “suplantação cultural e étnica” dos brancos na América.

Um meme popular nas redes sociais entre extremistas de direita e ecofascistas diz “save trees, not refugees”: salvem as árvores, não os refugiados

O atirador também se refere diretamente ao longo manifesto escrito pelo homem que assassinou 52 pessoas em março, em ataques motivados pela islamofobia em mesquitas de Christchurch, Nova Zelândia.

O atirador de Christchurch chamou a si mesmo de um “ecofascista” que crê que não ser possível “nacionalismo sem ambientalismo”. O atirador de El Paso intitulou sua ação como “Uma verdade inconveniente”, aparentemente em referência ao documentário de 2006 do ex-vice-presidente Al Gore, que alertava para os perigos da mudança climática. Também elogiou O Lórax, clássica história do Dr. Seuss sobre desmatamento e ganância corporativa.

Patrick Crusius, o “ecofascista” assassino de El Paso. Foto: reprodução

O destaque para temas ambientalistas nestes manifestos não é uma esquisitice. Ao contrário, sinaliza a ascensão do ecofascismo como ideologia central do supremacismo branco contemporâneo, uma tendência que descobri quando conduzia a pesquisa para meu recém-publicado livro Proud Boys and the White Ethnostate: How the Alt-Right Is Warping the American Imagination (Caras Orgulhosos e o Etnoestado Branco: Como a Extrema Direita está Deformando a Imaginação Americana).

Os ecofascistas combinam temores sobre mudanças demográficas, que caracterizam como “extinção branca”, com fantasias de terras imaculadas, livres de não-brancos e livres de poluição.

As raízes do ecofascismo remontam ao início dos anos 1900, quando crenças românticas de comunhão com a Terra se apoderaram da Alemanha. Estas ideias encontraram expressão no conceito de lebensraum ou habitat, e em tentativas de se criar uma paternidade ariana exclusiva, na qual o nacionalismo racial “do sangue e do solo” reinasse supremo. O conceito de lebensraum foi integrado às políticas expansionistas e genocidas do Terceiro Reich.

Os ecofascistas combinam temores sobre mudanças demográficas, que caracterizam como “extinção branca”, com fantasias de terras imaculadas, livres de não-brancos e livres de poluição

Há uma longa linha que liga a xenofobia ao ambientalismo de direita. Nos EUA, tendências de ecofascismo apareceram no movimento ambientalista incipiente, adotado por racialistas como Madison Grant, que nos anos 1920 lutou pela preservação da flora nativa, incluindo as sequoias da Califórnia, enquanto demonizava imigrantes não-brancos.

Depois da Segunda Guerra Mundial, em nome de proteger florestas e rios, organizações xenofóbicas que se opunham á chegada de pessoas de países não-europeus atiçaram temores de superpopulação e imigração desenfreada.

Um meme popular nas redes sociais entre extremistas de direita e ecofascistas é “salvem as árvores, não os refugiados”. (Perde-se em português o trocadilho da rima em inglês para “save trees, not refugees”. N. do T.) Com frequência, memes ecofascistas tomam a forma de emojis, como a runa nórdica popular conhecida como Algiz, ou a runa da “vida”. Esta runa, preferida de Heinrich Himmler e da SS, é um dos muitos símbolos alternativos às suásticas que circulam online para acenar, de maneira subentendida, às alianças neonazistas.

A runa Algiz associada ao ecofascismo circulando nas redes. Foto: reprodução

Muitos ecofascistas hoje são atraídos pela “ecologia profunda”, a filosofia desenvolvida pelo norueguês Arne Naess no início dos anos 1970. Naess queria distinguir a “ecologia profunda”, que ele caracterizava como reverência a todas as coisas vivas, do que via como o modismo da “ecologia superficial”.

Descartando a crença de Naess no valor da diversidade biológica, pensadores de extrema-direita perverteram a ecologia profunda, imaginando que o mundo seja intrinsecamente desigual e que hierarquias de raça e gênero façam parte do desígnio da natureza.

A ecologia profunda celebra um vínculo quase espiritual com a terra. Como mostro em meu livro, na versão nacionalista branca somente homens –homens brancos ou europeus– podem comungar de verdade com a natureza de uma maneira significativa, transcendente. Esta jornada cósmica dá combustível ao seu desejo de preservar, pela força se necessário, terras puras às pessoas brancas.

Tanto o atirador de Christchurch como o de El Paso invocam a teoria da “Grande Suplantação”, ou a ideia distorcida de que os brancos estejam sendo numericamente suplantados até ao ponto da extinção pelos imigrantes e pessoas de outras raças

Os nacionalistas brancos hoje voltam seus olhares ao ecofascista finlandês Pentti Linkola, que defende rigorosa restrição à imigração, “a reversão para estilos de vida pré-industriais, e medidas autoritárias para manter a vida humana dentro de limites estritos”.

Refletindo as ideias de Linkola, o webzine nacionalista branco Counter-Currents (Contra-Corrente) impele homens brancos a levar a cabo ações ecofascistas, dizendo que é seu dever “salvaguardar a santidade da Terra”.

Este pano de fundo ajuda a explicar por que o atirador de Christchurch chamava a si mesmo de “ecofascista” e discutia questões ambientais em sua cantilena desconexa.

O atirador de El Paso oferecia exemplos mais específicos. Além de mencionar O Lórax, criticava os norte-americanos por deixarem de reciclar e pelo desperdício injustificado de plástico descartável.

Sua cruzada para salvar as pessoas brancas da supressão pelo multiculturalismo e imigração espelha sua cruzada para preservar a natureza da destruição ambiental e superpopulação.

O critério convencional no público é que o ambientalismo seja o reino dos liberais, se não da esquerda, com seus compromissos de justiça ambiental e neutralização do carbono.

Contudo, a ubiquidade de preocupações ambientais entre nacionalistas brancos mostra que distinções entre liberais e conservadores não sejam necessariamente pertinentes quando se avalia as ideologias da extrema direita hoje.

Imagem ecofascista que circula em chats de extrema direita. Foto: reprodução

Se as tendências correntes continuarem, o futuro será o de aquecimento global intensificado e de padrões climáticos adversos. Haverá um aumento de refugiados do clima, com frequência buscando alívio no norte do globo. Neste contexto, penso que os nacionalistas brancos estarão preparados para fundir a perspectiva de calamidades climáticas às suas ansiedades acerca da extinção branca.

Projeções do censo indicam que por volta de 2050 os EUA se tornarão um país de maioria não-branca. Para os nacionalistas brancos, este relógio demográfico toca [cada vez] mais alto a cada dia. Tanto o atirador de Christchurch como o de El Paso invocam a teoria da “Grande Suplantação”, ou a ideia distorcida de que os brancos estejam sendo demograficamente suplantados em número, até ao ponto da extinção, pelos imigrantes e pessoas de outras raças.

Dados os padrões que vejo vir à tona, creio que o público precisa reconhecer o ecofascismo como uma nuvem perigosa que assoma no horizonte.

Alexandra Minna Stern é professora de Cultura Norte-Americana, História e Estudos Femininos na Universidade de Michigan

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