Socialista Morena
Maconha

Grandes escritores & maconha

Maconha não é, ao contrário do que tentam pintar, "coisa de vagabundo". pelo contrário: muita gente boa fuma maconha e você nem imagina. Vejam uma seleção de textos e opiniões de grandes escritores "maconheiros" sobre a erva

Charles Baudelaire em daguerreótipo de 1850
Cynara Menezes
12 de maio de 2014, 20h20

Na semana passada, o presidente Pepe Mujica assinou o decreto regulamentando a legalização da maconha no Uruguai, que se tornou o primeiro país do mundo a estabelecer um mercado com regras para o cultivo, venda e uso da planta. Usuários registrados poderão comprar sementes em farmácias e cultivar até seis pés de maconha em casa. As cooperativas e clubes de consumo também foram autorizados.

Enquanto isso, no Brasil, a ignorância sobre a maconha continua a vicejar. Um preconceito histórico também contribui para a erva ser considerada “maldita”: como foi trazida ao Brasil pelos negros africanos, o combate à maconha carrega uma dose de racismo implícito desde seus primórdios. Para piorar, o forte lobby evangélico tem se associado ao conservadorismo impedindo que a descriminalização seja sequer discutida em nosso país –inclusive para uso medicinal.

Mas maconha não é, ao contrário do que tentam pintar, “coisa de vagabundo”. Pelo contrário: muita gente boa fuma maconha e você nem imagina. Em homenagem aos uruguaios, compilei uma seleção de textos e opiniões de grandes escritores “maconheiros” sobre a erva. Viva Mujica!

***

Hunter S. Thompson (1937-2005)

(Hunter em Cozumel, México, 1974. Foto: Al Satterwhite)

“Sempre amei a maconha. Ela tem sido uma fonte de alegria e conforto para mim por tantos anos. E eu ainda acho que é uma das coisas básicas da vida, ao lado da cerveja, gelo e grapefruits –e milhões de americanos concordam comigo.”

Norman Mailer (1923-2007)

“O efeito da maconha em alguém é sempre existencial. Pode-se sentir a importância de cada momento e como isto nos afeta. É possível sentir a própria essência, tornar-se consciente do enorme mecanismo do nada –o zumbido do aparelho do som, o vazio de uma interrupção sem sentido. Nos tornamos conscientes da guerra dentro de cada um de nós, e como o nada dentro de nós busca atacar a essência dos outros, e como nossa essência, por sua vez, é atacada pelo nada dos outros.”

Carl Sagan (1934-1996)

(O astrônomo e escritor Carl Sagan: “Não esqueça, nada de cartazes no espaço”)

“Minha experiência com a cannabis melhorou muito minha apreciação da arte, um tema que nunca pude apreciar antes. O entendimento do propósito do artista, que eu obtenho quando estou chapado, algumas vezes continua quando estou de cara. Esta é uma das muitas fronteiras humanas que a cannabis me ajudou a transpor. Tem também algumas sacadas relacionadas à arte –eu não sei se elas são verdadeiras ou falsas, mas foram muito divertidas de formular. Por exemplo: passei algum tempo doidão apreciando o trabalho do surrealista belga (na verdade francês) Yves Tanguy. Alguns anos mais tarde, ao emergir depois de um longo mergulho no Caribe, afundei exausto na praia formada pela erosão de um recife de coral nas proximidades. Examinando à toa os fragmentos arqueados de coral em tons pastel que formavam a praia, vi diante de mim uma pintura de Tanguy. Talvez ele tenha visitado uma praia assim na infância.” (leia o texto completo de Sagan sobre a maconha aqui. Em inglês.)

Alexandre Dumas (1802-1870)

(Dumas em 1855)

“Julgue por si mesmo, senhor Aladim –julgue, mas não se resuma a uma só tentativa. Como tudo o mais, precisamos acostumar os sentidos a uma primeira impressão, suave ou violenta, triste ou alegre. Há uma luta em nossa natureza contra essa substância divina –nas naturezas que não são feitas para o prazer e se aferram à dor. É preciso que a natureza subjugada sucumba no combate, o sonho tem que vencer a realidade e o sonho reinar supremo; então o sonho se transforma em realidade e a realidade se torna sonho. Mas que mudanças ocorrem! Apenas pela comparação da dor da existência verdadeira com as alegrias da existência assumida é que você desejará não mais viver, mas sonhar para sempre. Quando você retorna a esta esfera mundana de seu mundo visionário, é como se trocasse uma primavera napolitana pelo inverno da Lapônia –deixar o Paraíso pela Terra, céu pelo inferno! Experimente o haxixe, meu hóspede –experimente o haxixe.” (em O Conde de Monte Cristo)

Stephen King (1947-)

(Stephen King em ilustra de CrisVector)

“Eu acho que a maconha deveria não só ser legal como deveria ser uma indústria caseira. Seria maravilhoso para o Estado do Maine. Tem uma erva muito boa plantada em casa. Tenho certeza que seria ainda melhor se fosse possível cultivar em estufas, utilizando fertilizantes…”

Friederich Nietzsche (1844-1900)

(Nietzsche: óleo sobre tela de Edvard Munch, 1906)

“Quando a gente quer se livrar de uma pressão insuportável o haxixe é necessário.”

Gilberto Freyre (1900-1987)

(Foto: Fundação Gilberto Freyre)

“Já fumamos a macumba ou diamba. Produz realmente visões e um como cansaço suave; a impressão de quem volta cansado dum baile, mas com a música ainda nos ouvidos.” (nas notas de Casa Grande & Senzala)

Ramon Del Valle-Inclán (1866-1936)

(O espanhol Valle-Inclán fotografado por Alfonso em 1930)

–O México me pareceu um país destinado a fazer coisas maravilhosas. Tem uma capacidade que o mundo não sabe admirar em toda a sua grandeza: a revolucionária. Através dela avançará e evoluirá. Dela… e do cânhamo índico, que lhe faz viver em uma exaltação religiosa extraordinária.
–O cânhamo índico?
–A erva maconha ou cânhamo índico, que é o que os mexicanos fumam. É o que explica seu desprezo à morte, que lhes dá um valor sobre-humano. (entrevista ao jornal El Heraldo de Madri, 1918)

Charles Baudelaire (1821-1867)

(Baudelaire em daguerreótipo de 1850)

“Eis a felicidade! Uma colherinha bem cheia! A felicidade com toda a sua embriaguez, todas as suas loucuras, todas as suas criancices! Pode tomá-la sem medo; ninguém morre por causa disso. Seus órgãos físicos não sofrerão dano algum. Talvez mais tarde, se recorrer muitas vezes ao sortilégio do haxixe, diminuirá sua força de vontade e você será menos homem que agora; mas está tão longe o castigo e é tão difícil determinar a natureza do futuro desastre! Que risco você corre? Um pouco de cansaço nervoso no dia seguinte. Mas você não se expõe todos os dias a castigos maiores por menores recompensas?” (em Os Paraísos Artificiais)


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carmen r dias em 13/05/2014 - 00h47 comentou:

Adorei, super matéria, amei a simplicidade de tudo, cannabys nua, toda arte, toda ela mesma, isenta de culpas. Muito boa mesmo. Grata, querida. Abraços.

Responder

Broz em 13/05/2014 - 01h29 comentou:

Poderia incluir também o Walter Benjamin que sobre o haxixe disse que "chegamos também a experiências próximas da inspiração, da iluminação".

Responder

tupy or not tupy em 13/05/2014 - 02h44 comentou:

a fotografia do Baudelaire é extraordinária!

Responder

josé em 13/05/2014 - 03h44 comentou:

Alcoólatras , viciados em psicotrópicos, etc. também justificam , exaltam, quase de forma religiosa a droga do seu vício. Eles sonham acordados, sentem o êxtase melhor que um orgasmo. Estar sóbrio é chato, mas drogado , se conseguem ter êxtase, não conseguem resolver uma equação. Acho que o artista tem uma aceitação melhor das drogas. Sei la. Ou o homem é tão triste sóbrio, e eu sou a aberração. Só me sinto feliz , sóbrio.
Estes que falaram aí, apenas drogaditos. maus exemplos. Ah, não apelem por alguns deles serem famosos, ou tidos como inteligentes, ou intelectuais, isto não conta , tanto faz se é um famoso ou um Zé ninguem. Os famosos cometem erros, e muito graves. Quantos poetas se entregaram ao vício, morreram jovens. Ah, mas fizeram o q queriam, foram grandes, experimentaram coisas……..Ahnnn? pare com isso, eram irresponsáveis, talvez não tivessem filhos. Embora ja vi pai e filho perdidos na sdrogas, vivendo como bichos.

Responder

    Eduardo em 13/05/2014 - 15h29 comentou:

    O que eu faço e que não interfere na vida alheia, eu julgo ser apenas problema meu.
    Meu hábito só interfere na vida alheia quando tenho que recorrer ao tráfico, se pudesse plantaria minhas espécies favoritas. Que bom seria o mundo se as pessoas se preocupassem mais com suas próprias vidas, né?

    holo em 13/05/2014 - 18h06 comentou:

    falou e disse eduardo !

    Daniela em 13/05/2014 - 21h21 comentou:

    O que você faz não interfere na vida alheia? Caramba nos vivemos em uma sociedade, tudo o que fazemos ou deixamos de fazer afeta a vida de outras pessoas, no caso dos usuários de maconha e outras drogas os que mais sofrem são os familiares que assistem a degradação do membro da família e convivem diariamente com as mudanças de comportamento e ate mesmo com sintomas de esquizofrenia no usuário (que na maioria das vezes esta viciado demais para se dar conta do quanto a droga afetou a sua vida).

    Midas em 14/05/2014 - 14h09 comentou:

    Daniela, seu pensamento fascista de controlar o q os outros podem fazer prejudica muito mais…

    Guilherme em 14/05/2014 - 14h23 comentou:

    Daniela, você assistiu ou leu alguma coisa sobre maconha? Que não seja revistinha de igreja.
    Muitas pessoas como vc vem à sites como esse com a cabeça tão fechada para o assunto que não absorve conhecimento algum. E ao invés de discutir ou argumentar vem com o mesmo discurso furado que se ouve de outras pessoas. Você simplesmente falou besteira! Eu garanto! Não passe mais vergonha.

    Nenhum usuário de maconha rouba pra alimentar seu vício, nenhum usuário de maconha fica agressivo. Esquizofrenia não se dá ao uso de maconha, (quem tem esquizofrenia não deve usá-la, pois piora, mas não é ela quem a causa). Esse papo de que maconha é a depressão do lar da "família" é lorota.
    Muito diferente, mas muito diferente mesmo dos usuários de álcool, de cracks, da cocaína, anfetamina e todas as outras minas. Essas sim são drogas destruidoras do próprio indivíduo.

    Pra finalizar, a minha vida quem vive sou eu! É claro que eu causo impacto sobre a sociedade e o ambiente só do fato de eu existir. Porém o modo que eu quero viver não deverá ser dito pelos outros. Ninguém deve dizer o que eu ou você deve fazer.

    Joao em 14/05/2014 - 15h49 comentou:

    Você realmente acha que a maconha trás a degradação do membro da familia? sintomas de esquizofrenia? vicio? Isso não condiz com a realidade. E o fato da esquizofrenia, caso a pessoa JÁ tenha desenvolvido tendências de esquizofrenia, o uso continuo da erva pode sim agravar o caso.

    Fred Policarpo em 15/05/2014 - 14h41 comentou:

    Certamente o uso de qualquer droga pode trazer consequências. A diferença entre o remédio e o veneno é a dose, para qualquer medicamento. Isso não justifica a proibição: as pessoas podem usar alcool, não podem? Mesmo que o uso irresponsável cause danos, diga-se muito mais graves que da Maconha. Para morrer de maconha só se você passar embaixo de um prédio de 10 andares e alguém soltar um tijolo de maconha de 1kg sobre sua cabeça, é uma droga segura em vista das que a sociedade consome sem controle criminal.
    Direitos individuais.

    Igor em 16/05/2014 - 18h22 comentou:

    Eu comecei a fumar maconha a 3 anos com 28 anos hoje tenho 31, tenho 3 filhos. A maconha só me beneficiou, me fez ter reflexões que eu não conseguiria ter sem estar chapado, eu emagreci, o meu relacionamento com todos melhorou e inclusive comigo mesmo. No começo eu exagerei, mas com as responsabilidades da vida consegui maneirar no chá e ter um bom relacionamento com a erva, o uso dela é totalmente controlável para mim, conheço pessoas que exageram sim, mas elas exagerariam em qualquer coisa pois é um desequilíbrio advindo de outros problemas pessoais. Eu nunca contei meu exemplo em público mas após ler um monte de lorota da grande mídia resolvi externalizar minha opinião. Para mim o alcool é muito mais maléfico que a maconha, e eu tenho uma verdade para mim que o lobby da industria do álcool é uma das maiores influências para que a maconha não seja liberada. E José realmente é triste pensar que precisamos de substancias para sermos felizes, é triste mas é real nunca se vendeu tantos anti-depressivos rivotrils e afins concorda comigo? Indústria farmacêutica outra que deve fazer muito lobby por baixo dos panos para barrar o uso da ganja.

Nilce Azevedo em 13/05/2014 - 13h32 comentou:

Excelente matéria. Vale muito a pena divulgar.

Responder

Andrea em 13/05/2014 - 15h18 comentou:

A ideia do próprio texto é ruim. Usar os mortos para dizer que a maconha é boa! Não convence.
Mas, falar sobre tabus é bom. Então vale a quebra de paradigmas.

Responder

    Felipe em 14/05/2014 - 17h01 comentou:

    Andrea não entendi o seu ponto de vista.
    O passado da humanidade teve grandes pensadores, inclusive com níveis altíssimo pela diferença da época e da falta de informação, sendo que hoje em dia muitos estão alienados ( muitos pelo fato de não estudar o passado, a história, pois assim, se perde no presente).

Maia Kaefman em 13/05/2014 - 16h02 comentou:

O mocinho e a mocinha da novela das 8 fumam, o físico de QI superior fuma, o escritor genial fuma, o jornalista corajoso fuma, o nadador imbatível fuma, o músico virtuoso fuma, o político honesto fuma, o craque camisa 9 da seleção fuma, o artista transcendente fuma, o advogado justo fuma, o engenheiro metódico fuma, o médico habilidoso fuma, o trabalhador braçal incansável fuma, o artesão talentoso fuma. Poderia continuar aqui até amanhã…Para cada exemplo pensei em uma pessoa real.

O chato não. O chato não fuma. Não pode nem sentir o cheiro.

Responder

    holo em 13/05/2014 - 18h08 comentou:

    auah eesse foi o melhor comentario haha

    concordo 100%

    Guga em 13/05/2014 - 23h56 comentou:

    É, Maia. Minha irmã fuma. Ferra a família toda, incluindo a mim. Ela é um exemplo de pessoa real. Consigo pensar em mais vinte, continuando aqui até amanhã. E aí.

    Na moral, nada nessa história de drogas é simples. Simplifique questões complexas e acabará ignorando toda uma gama de problemas que você, por sorte, não vê.

    angelo em 14/05/2014 - 13h47 comentou:

    Mimimimi….
    Tallvez o problema seea sua irma e nao a maconha Guga…As vezes e dificil enchergar a realidade sem subterfugios.rsrsrs

    Guga em 14/05/2014 - 16h42 comentou:

    Opa, Angelo, como vai? Não tenho a menor dúvida que o problema é a minha irmã, cara. Nenhuma dúvida. *Eu* sei que a questão é complexa. E as drogas (no caso, maconha) são parte dessa equação. Não é uma parte indivisível do problema, porém. E aí?

    Enquanto você resume a questão a "Mimimimi", eu estou mostrando um quadro complexo. Fingir que ele é simples, não resolve, nem converte ninguém.

    Repito – nada na questão das drogas é simples. Enquanto os *dois* lados continuarem pensando que é "Mimimimi", a coisa não anda.

    P.S.: "EnXergar".

    Joao em 14/05/2014 - 15h51 comentou:

    Desculpe a pergunto, mais como sua irmã "ferra" toda sua familia pelo simples fato de fumar um?

    Guga em 15/05/2014 - 00h50 comentou:

    Oi Joao. Perguntar não ofende não, sussa.
    Olha, é difícil resumir 12 anos de história familiar nessa caixinha de comentários, mas a verdade é que pessoas reagem de formas diferentes a substâncias diferentes. Veja meu exemplo no comentário abaixo – meu avô. Ele era alcóolatra. Perdeu o controle sobre si mesmo, bateu na minha avó, ela e meu pai saíram fugidos de casa e meu avô morreu de cirrose aos 49. Agora veja o meu exemplo: álcool, em mim, vai sussa. Eu não me descontrolo, não fico alucinado pela próxima dose, etc. A maioria dos usuários de maconha que eu conheci conseguem levar maconha numa boa. Um número razoável, não. Ela interfere fodasticamente no estilo de vida deles. Sim, é bem capaz de álcool ter o mesmo efeito, mas aí é que está o busílis de todo esse debate – quem leva maconha numa boa, não entende o lado de quem diz que tem casos onde dá mer–. Quem acha que é uma droga do cramulhão, não quer nem ouvir sobre as vantagens, sobre ser menos danosa até do que aspartame, e por aí vamos.

    E quem perde com isso? Quem tá no fogo cruzado.
    Eu fiquei 12 anos no fogo cruzado vendo minha irmã afundando cada vez que se escorava na cannabis. Justo cannabis, que normalmente é tão sussa (sem ironia).

    Será que eu sou o chato que não fuma? Ou só quem viu em primeira mão como isso pode ser complicado (e não consegue nem se expor antes de ouvir que é chato, que minha família deve ser preconceituosa e que eu devo ser um coxinha de direita empedernido [essa foi por minha conta, hehe]).

    Enfim… acho que o debate precisava de um pouco mais de oxigênio, dos dois lados.

    Maia Kaefman em 14/05/2014 - 17h18 comentou:

    Talvez a sua família careta e preconceituosa é que ferre a sua irmã. Vai saber né? Meus exemplos mostram apenas que demonizar a substância como se em si ela fosse incapacitante é que é uma simplificação da realidade.

    Fotografei durante 3 anos no Glicério, centro de SP, a comunidade de rua lá. O crack e o alcool rolam a solta, coisa feia mesmo. Então só posso rir do teu comentário de que "dei sorte de não ver toda uma gama de problemas por isso simplifico questões complexas".

    Não há nada de simples na minha visão sobre a cannabis. Alias você sabe porque ela é proibida?

    Guga em 15/05/2014 - 00h39 comentou:

    Oi, Maia. Minha família não é careta nem preconceituosa. Aliás, são de esquerda, sendo meu pai militante do PT no seu início. Meu avô, inclusive, morreu cedo de cirrose, sendo um puta dum alcóolatra. Pode ver que tenho um pouquinho de experiência com drogas (mesmo as "lícitas") e seus efeitos nas pessoas. Exatamente por isso que não demonizo a cannabis unicamente, nem de longe.

    E concordo 100% com você sobre demonizar uma substância ser uma simplificação da realidade.

    O debate TODO em relação a drogas e seus efeitos, aliás, está enviesado para ambos os extremos, e quase ninguém cede, por achar que vai dar voz e argumentos ao outro "lado". Isso é deprimente pra quem sofre com os efeitos *reais* dos problemas que acontecem em correlação ao uso de drogas (notou, né? não são *causados* por elas).

    Mas cometi um erro no meu comentário inicial. Por ver uma simplificação na sua frase final, generalizei o meu comentário e acabei "simplificando" a sua visão de mundo. Me desculpe, sinceramente.

    Continuo achando sua última frase…. excessivamente reducionista. Sem ofensas.

    P.S.: Minha tendência pessoal é pela descriminalização da maior parte das drogas. Eu te disse que não era simples.

    Gabs em 15/05/2014 - 14h03 comentou:

    Guga, meu irmão fuma a 10 anos e também sempre foi um imenso problema na minha família, onde todo mundo tem nível superior, alguns bebem, fumam cigarro e todo mundo paga de suuuuuper cabeça aberta. Realmente, ele faz um monte de merdas e ao mesmo tempo não faz porra nenhuma, o que corrobora a opinião preconceituosa da minha família em relação À MACONHA. Só que o problema não é a maconha, percebe?

    Eu particularmente acho que se, quando ele tinha lá seus 14 aninhos e foi descoberto, o povo lá em casa tivesse agido com alguma naturalidade e não tivesse marginalizado o moleque com várias internações, situações degradantes, humilhações, etc, e tivesse simplesmente conversado com ele como um adolescente e um ser humano imperfeito, – com uma perspectiva mais realista do que significa OMFG FUMAR MACONHA!!!!, – tudo estaria muito melhor pra todo mundo. Mas não. Até hoje se arrasta o drama do menino "perdido na vida". Será que era perdido mesmo ou será que era um menino normal que a família tratou como perdido e convenceu q era perdido? Pensa bem se não é isso que acontece na sua casa também.

    Quem colocou que o problema da sua irmã e da sua família era a maconha foi você:

    "É, Maia. Minha irmã fuma. Ferra a família toda, incluindo a mim. Ela é um exemplo de pessoa real. Consigo pensar em mais vinte, continuando aqui até amanhã. E aí."

    Eu não estou dizendo aqui que fumar cannabis (ou o que quer que seja) seja inofensivo. Todo mundo sabe que não é. Mas chinelada tb não é, nem cheetos, nem computador demais. O que estou dizendo é que talvez essa marginalização do indivíduo seja beeeeem mais problemática que o prejuízo pra saúde, por exemplo.

    E me parece reducionista, na verdade, tratar a maconha como uma droga como o crack, a cocaína ou o lsd, que conhecidamente são muito mais destrutivos fisicamente e causam realmente uma adicção quase sempre desfuncional no indivíduo. Eu tb sou a favor da descriminalização da maior parte das drogas pq acho que a dependência química deveria ser tratada como um problema de saúde pública e não criminal. Mas sou, sinceramente, a favor da legalização da maconha, o que é muuuuuuuuuito diferente.

    Guga em 15/05/2014 - 17h47 comentou:

    Oi Gabs, obrigado pela resposta. Eu sei bem o que você quer dizer, e concordo, como já até concordei com outro comentarista – é claro que o problema é com a minha irmã. Certeza. Eu já disse isso para os meus pais, inclusive, que vira e mexe tentam "explicar" o comportamento dela como se fosse derivado do vício (CALMA…. eu já volto a essa palavra ;-)).

    Mas entenda – o problema, no caso do meu avô, também não era o álcool. Era o fato dele ter se entregado ao álcool e, escorado nisso, feito barbaridades, não ter aceito ajuda, etc. Conhecemos a história, não há nada de novo nela (infelizmente). Só que ele tinha uma propensão muito maior do que, por exemplo, a minha, a sucumbir a isso.

    A propensão da minha irmã, neste caso, é de sucumbir à maconha. Entenda – existe um grupo reduzido, mas real, de pessoas que se *estrupiam* usando isso. Minha irmã é um exemplo dos que fazem parte disso. O problema é ela? Sem dúvida. Mas o problema existe, é não é único a ela. E aí? Entende?

    Se isso fosse mais aceito por todos, inclusive pelos que são pró-cannabis de carteirinha, o debate seria MAIS forte (apesar de, no começo, parecer que abre muitas concessões). Encarando os problemas que *podem* acontecer, a conversa fica mais sincera, mais honesta, e mais compreensível pelo outro lado. Pelo menos pra ser interpretado por pessoas dispostas. As que não estão dispostas não vão mudar de opinião de qualquer jeito.

    Eu nem comparo cannabis a nenhuma das drogas que você mencionou. Com certeza é muito diferente. Acho seu posicionamento sobre a marginalização do indivíduo excelente e fundamental para entender o que não fazer a respeito. Mas algo que devia entrar nos manuais do que "não fazer" ao falar de maconha é não lidar com o fato de que, para uma parte considerável da galera, ela não é tão inócua assim.

    Eu gostaria que fosse. Ia ser bem mais sussa pra mim. 🙂

    P.S.: Quanto à minha palavra-que-não-pode-ser-nomeada (vício) – tem gente que vicia até em Candy Crush. É a isso que me refiro. Não comparo adicção de drogas sintéticas ao nosso debate.

    Igor em 16/05/2014 - 18h30 comentou:

    Oi Guga sera que seu irmã para dar trabalho assim é viciada só em Maconha? Será que ela não é viciada em outras coisas não, em pó por exemplo? Para ela da tanto trabalho assim sera que não era questão de dar trabalho para ela e assim ela parar de dar trabalho para vocês. Não estou julgando, entendo que tem muito maconheiros que dão trabalho para a família, mas estamos discutindo aqui propriamente a culpa que a maconha tem nisso, e pessoas que dão trabalho para família tem de todos os tipos até um careta que é viciado em video game pode dar trabalho para os seus pais.

    Guga em 17/05/2014 - 20h53 comentou:

    Oi, Igor! Bem, ela não tem grana pra vício em pó (que é caro) e, se fosse crack, por exemplo, ela estaria já bem acabada, exatamente pela situação + extrema e entorno ao qual você acaba se submetendo. Nós achamos que não tem não. Ela bebe… não o suficiente pra uma auto-destruição bombástica, mas nas fases mais "down" dela sempre tem muito álcool e maconha.

    Eu concordo quanto aos diferentes vícios (como até mencionei acima). E é exatamente esse o meu alerta – em um número não irrisório (nao majoritário, mas não irrisório) de casos, maconha é suficiente pra ajudar a atrapalhar *forte* alguém. Esse é o meu alerta. Isso faz os debates sóbrios em relação à maconha serem mais honestos.

    É só isso. Sem exageros, e sem demagogia.

    Chari Martin em 29/10/2014 - 08h49 comentou:

    E eu também fumo!!!

márcio em 13/05/2014 - 20h05 comentou:

Segundo uma biografia que eu li, Descartes, no século 17, fumava.

Responder

Orlando em 14/05/2014 - 00h26 comentou:

Engraçado:
Um site socialista que tem a mesma opinião literária da imprensa liberal
– listando Gilberto Freyre como "grande escritor".
Em tempos de campanha pró-maconha;
isto soa como (mais) uma tentativa de tornar simpática a imagem do romancista em questão.

Mas vale lembrar as posições do ilustre sociólogo:
Segundo Freyre a colonização portuguesa no Brasil ,e noutras colônias lusitanas, foi soft, quer dizer, harmoniosa( para quem?);
além de ter se posicionado contra os movimentos de independência em Angola e Moçambique( sendo porta-voz do regime colonial salazarista)

Esse não merece mesmo constar na lista de ilustres.
A que ele fumou estava estragada.

Responder

    morenasol em 14/05/2014 - 12h57 comentou:

    não é por que não concordamos com ele em alguns aspectos que gilberto freyre não era um grande escritor. ele era um gênio. muito acima, aliás, do que se tem hoje no brasil em termos de "liberalismo"

    Maia Kaefman em 14/05/2014 - 17h24 comentou:

    Harmoniosa? Leia ou releia o CG&S. Um fator é a capacidade lusitana de miscigenação com os povos das colônias, muito superior a de outras metrópoles, fato, nesse sentido pode se falar em "harmonia", mas o livro é cheio de exemplos da brutalidade portuguesa no Brasil.

Christine em 14/05/2014 - 14h09 comentou:

Discussão saudável!
Agora é por na balança.

Responder

Juarez em 14/05/2014 - 14h32 comentou:

Tadinha da Daniela, nem sonha sobre o que é a maconha. Ele generaliza e crê que toda droga é como o craque. Ela não consegue imaginar (de novo…tadinha) que o álcool e o cigarro são, mil vezes pior pra saúde e pra sociedade do que a maconha. Tá bem Dani, vou te explicar: quem fuma maconha não bate carro, não entra em brigas, não rouba pra comprar; não bate na mulher, não tem ressaca. Não existe over dose de maconha; no máximo dá um pouquinho de fome, e, pra gordinhas, realmente não serve. E para os burrinhos que criticam a opinião de gênios (como C. Sagan e S. King), é importante lembrar… ELES SÃO GÊNIOS!!! A OPINIÃO DELES É MELHOR QUE A DE VOCÊS!!!!

Responder

marilson em 14/05/2014 - 17h10 comentou:

Sensacional seleção dos grandes mestres falando sobre a maconha. Ótimo texto de abertura, principalmente, discutindo sobre a mistura horrível da religião com o estado, seja com a religião evangélica, católica, judáica, islâmica, não importa, uma coisa é uma coisa outra coisa é outra coisa.
Agradecido, parabéns e ótimo trabalho.

Responder

Diego em 14/05/2014 - 20h46 comentou:

Parabéns, gostei muito da matéria, de como você organizou essas idéias para defender o livre cultivo e consumo da maconha, esse conteúdo se tornou impactante e muito reflexivo, sem perder a leveza, ou se tornar chato. Costumo odiar com muita força aquilo que voc escreve,( principalmente sobre economia e relações humanas) mas desta vez eu me rendo. =)

Responder

Paulo Oliveira em 15/05/2014 - 00h27 comentou:

Excelente matéria da Carta Capital, fui jornaleiro e percebi que muitas revistas não perderam seu foco. Grandes Gênios…

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Fernando em 15/05/2014 - 06h00 comentou:

Perdoe-me minha cara, mas devo dizer que seu inteiro texto é uma tremenda falácia. Nem vou enumerá-las porque não pretendo me alongar. Porém posso te aconselhar, por exemplo, a ler mais, estudar, um pouco que seja, e se informar mais sobre esse vício que, entre tantos outros, fragilizam cada vez mais a nossa tão sofrida gente. O país não precisa de maconha ou de maconheiros…o país precisa de educação, saúde e segurança principalmente. Precisa de investimentos em tecnologia, precisa se modernizar, precisa abrir seus portos ao comércio internacional, precisa conter o desmatamento que está destruindo nossas reservas verdes, precisa de justiça, precisa se estruturar. No meu modo de ver as coisas, você é só uma menina pirracenta. com uma boa dose de raiva de "sei lá o que".

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    Juarez em 15/05/2014 - 15h44 comentou:

    Fernandinho, se liga! Em qual planeta você vive? Essas coisas que tu querias para o Brasil, não vão acontecer, porque a crise é moral! Se a gente for conversar a respeito de corrupção aí sim, podemos tentar. Mas é preciso lembrar que todo ser humano tem sua gama de vicissitudes e fraquezas; sendo assim, não acha melhor que seja por uma droga que causa muito menos danos a saúde do que o tabaco e o álcool. Também é importante te lembrar que Holanda, Inglaterra, vários Estados nos E.U.A, e muitos outros países (que possuem todas essas coisas lindas que você quer), legalizaram o uso da maconha, com bastante sucesso. Talvez você prefira um Valium pra dormir; ou uma dosinha de Vodka… antidepressivos, antiansioliticos, um pote de sorvete inteiro, comer carne até não poder mais… qual é sua fraqueza meu irmão? tenho certeza que você tem algumas…. então respeita cada um na sua… incluindo essa blogueira, que conheci agora mas que já admiro muito.

Fernando em 16/05/2014 - 07h05 comentou:

Quando compramos um eletrodoméstico, um computador ou um automóvel, é interessante dar uma lida no manual de instruções para o uso correto daquilo que estamso adquirindo.
No do automóvel, por exemplo, está escrito qual o combustível e aditivos a serem usado para o bom, funcionamento do motor. Certamente, determinadas advertências são tão óbvias
que nem mesmo constam do manual, a exemplo de "não usar água como combustível".
Certo, não somos máquinas, mas certamente temos uma espécie de manual vurtual de bom funcionamento. Se atentarmos para as instruções, com certeza iremos encontrar coisas do tipo:
1. Pulmões: Funcionamento com ar atmosférico. Não usar fumaça, principalmente a de cigarros, charutos, maconha, etc. 2. Estômago: Usar somente alimentos nutritivos e energéticos.
Não ingerir gordura em excesso, alcool e muito menos fezes. 3. Aparelho excretor: Não introduzir objetos contundentes ou outros. O tubo excretor tem sua estrutura toda voltada
a expelir dejetos. Sua configuração anatômica não permite ser usado para outra função…o ânus não é um órgão sexual. Em casos extremos, consultar um médico que é o único autorizado
a examinar a região. 4. Cérebro: Necessita somente de boa alimentação e oxigenação. A ingestão de drogas, de substâncias químicas fora dos padrões recomendados, danificam o seu
funcionamento, sendo um processo irreversível.."nervo lesado, nervo acabado". 5. Bastam água, boa nutrição, vida saudável, estímulo ao cérebro e conduta compatível com a vida e
que não seja contrária às instruções deste manual.

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    Maia Kaefman em 16/05/2014 - 18h18 comentou:

    Nossa vc deve ser a alegria da balada hein brow?

Emiliane em 16/05/2014 - 22h44 comentou:

Adorei, matéria e fotos.

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Engasgo em 02/06/2014 - 21h36 comentou:

Jaime Batalha Reis, na introdução de Prosas Bárbaras, sobre Eça de Queiroz: "Contou-nos casos das suas viagens, descreveu-nos tipos, cenas nos bazares do Cairo, no deserto egípcio, os guias, os cheiks, e à noite, em volta das fogueiras, os camelos, «de expressão humorística, sorrindo ironicamente», e alongando as cabeças para escutar o narrador, por sobre os ombros dos beduínos atentos, graves e encruzados. Analisou, minuciosamente, as sensações que lhe dera, no Cairo, o uso do «Haschisch», e as visões fantásticas que nos preparava — porque ele e o conde de Resende haviam-nos trazido «Haschisch» misturado a geleia, a bolos, e a pastilhas que se fumavam nuns cachimbos especiais." (pp. 38-39)

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