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Horrores do capitalismo: repórter de 31 anos morreu de tanto trabalhar no Japão

Emissora de TV pública reconheceu que jornalista teve um ataque cardíaco após um mês em que teve apenas duas folgas e 159 horas de trabalho extra

Ilustração japonesa sobre Karoshi
Da Redação
06 de outubro de 2017, 12h34

Após quatro anos, a emissora de televisão pública do Japão NHK admitiu que a jornalista Miwa Sado, de 31 anos, morreu de insuficiência cardíaca por ter sido forçada a trabalhar sem parar em julho de 2013. No mês anterior, tinha acumulado 159 horas extras acumuladas e apenas dois dias de folga.

Repórter de política, ela havia atuado na cobertura das eleições da Assembléia Metropolitana de Tóquio e da Alta Câmara Nacional, em junho e julho de 2013. Morreu três dias após o segundo evento. Segundo o jornal New York Times, a jornalista raramente tinha folgas no final de semana e trabalhava até meia-noite todo dia. Em seu aniversário, ela mandou um email aos pais, que acharam-na fraca.

“Mesmo hoje, quatro anos depois, não podemos aceitar a morte da nossa filha como uma realidade. Esperamos que a tristeza de uma família de luto não seja desperdiçada”, disseram os pais da jornalista, em um comunicado emitido pela NHK. O porta-voz da emissora reconheceu que a morte de Miwa refletiu uma realidade da organização, a forma como as eleições são cobertas e “o sistema trabalhista” do país.

O excesso de trabalho já havia sido reconhecido como causa da morte da jornalista por um escritório de direitos trabalhistas em Tóquio, mas a emissora só o fez agora. No Japão, a expectativa é que o reconhecimento seja capaz de mudar a realidade de um país que cunhou até mesmo um termo para a morte por excesso de trabalho: Karoshi, ou “morrer de tanto trabalhar”, um fenômeno reconhecido como um lado sinistro do milagre econômico japonês do pós-guerra. No final da década de 1980, esta palavra já era comum na sociedade japonesa.

As mortes por excesso de trabalho são tão frequentes no país que se cunhou uma palavra: Karoshi, ou “morrer de tanto trabalhar”

Em um informe produzido pelo governo em 2016 sobre o tema, um quarto das empresas pesquisadas disseram que havia empregados trabalhando mais de 80 horas semanais. Em fevereiro, o governo e a Keidanren, o maior grupo comercial do Japão, criaram a Premium Friday, para encorajar as empresas a liberar seus funcionários às 15h na última sexta do mês. Poucas empresas aderiram.

A Organização Internacional do Trabalho publicou um relatório em 2013 sobre Karoshi onde cita alguns casos famosos:

– Um homem trabalhou 110 horas em UMA SEMANA numa fábrica de salgadinhos e morreu de ataque cardíaco aos 34 anos.

– Um motorista de ônibus trabalhou mais de 3 mil horas em um ano e não havia tido uma folga sequer nos 15 dias que antecederam sua morte por infarto.

– Uma enfermeira de 22 anos morreu de ataque cardíaco após 34 horas contínuas de plantão.

Karoshi não é um termo puramente médico mas um termo médico-social que se refere a fatalidades ou à incapacidade de trabalho devido a um ataque cardiovascular (que pode ser um acidente vascular cerebral, um enfarte do miocárdio ou uma falha cardíaca) agravado por uma carga de trabalhado excessiva ou muitas horas de trabalho”, diz a OIT.

Além das mortes por causas “naturais”, o relatório da OIT também leva em consideração os suicídios causados por excesso de trabalho no Japão, que também têm uma palavra específica, Karojisatsu. As medidas apontadas pela organização para deter o crescimento de Kairoshi e Karojisatsu são reduzir as horas trabalhadas e o excesso de trabalho; proporcionar assistência médica e psicológica adequada; e estabelecer diálogo entre patrões e empregados.

Por causa do debate suscitado pelas mortes por excesso de trabalho (e as consequentes indenizações), o país está sendo obrigado a rever sua cultura de que longas cargas horárias são sinônimo de dedicação, ainda que haja pouca evidência de que isso melhore a produtividade, enquanto sobram provas de que detona a saúde do trabalhador

 

 


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Rodrigo Dias em 06/10/2017 - 13h48 comentou:

Mas para os “cristãos”, malvada mesmo é a China. Falam mal da China porque invadiram o Tibete. Seria como se a Inglaterra tivesse invadido só a Irlanda… Falam mal da China por controlarem a natalidade, mas quando vc diz que comem cachorro por ter gente demais mandam eles pararem de ter tantos filhos… Falam mal da China por não serem cristãos, mas Bertrand Russell escreveu que as mitologias deles exigem um comportamento praticável, ao contrário do ideal cristão (“O último cristão morreu na cruz”, escreveu Nietzsche). Mas quem foi Bertrand Russell mesmo? Os japoneses invadiram a China, a Coreia… mas os “cristãos” gostam deles porque se submeteram aos interesses dos EUA, e “se é amigo do império, é nosso amigo”. Quanta subserviência!

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