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Dilma: “Impeachment sem base legal é atalho para o poder dos que não têm voto, não têm capacidade de atrair apoio [do povo]”

A quatro dias do julgamento de seu impeachment pelo plenário da Câmara dos Deputados, a presidenta Dilma Rousseff recebe os dez repórteres que foram ao Palácio do Planalto para uma entrevista coletiva com um sorriso, e cumprimenta um a um com simpáticos beijinhos na face, independentemente do veículo. Estão ali representantes da chamada “grande imprensa”, […]

Cynara Menezes
13 de abril de 2016, 20h09
(Dilma e os jornalistas. Foto: Roberto Stuckert Filho/PR)

(Dilma e os jornalistas. Foto: Roberto Stuckert Filho/PR)

A quatro dias do julgamento de seu impeachment pelo plenário da Câmara dos Deputados, a presidenta Dilma Rousseff recebe os dez repórteres que foram ao Palácio do Planalto para uma entrevista coletiva com um sorriso, e cumprimenta um a um com simpáticos beijinhos na face, independentemente do veículo. Estão ali representantes da chamada “grande imprensa”, que a castiga diuturnamente e promove a sua destituição do cargo, um repórter da revista CartaCapital e também dois blogueiros “sujos”, como a mesma imprensa se refere à mídia progressista: eu e Luis Nassif. Dilma está vestida com uma blusa preta de bolinhas brancas que fazem jogo com o par de brincos de pérolas que já se tornaram a sua marca. Tem, ao contrário do que eu imaginava, uma aparência descansada de quem continua dormindo o sono dos justos, o que ela confirmará em seguida.

“Eu durmo bem dormido e não tomo remédio. Se eu tomar um remédio para dormir, vocês nunca mais vão me ver acordada, porque durmo muito fácil, não posso tomar nada”, brinca. “Começo a ter muito sono ali pelas 10 e meia da noite. Se achasse que tinha cometido alguma coisa que merecesse tudo isso, eu não dormia, não. Mas eu acho que não fiz. Só não sei se quem faz isso dorme. Fui investigada, virada dos avessos. O impeachment sobre uma contabilidade esotérica (todos os que me antecederam usaram, todos os governos usam) evidencia que não acharam outro motivo para tentar forçar meu impedimento. Repudio todas as tentativas de me ligar a atos que nunca pratiquei. A dificuldade é que sabem disso, sabem perfeitamente disso.”

O rivotril de Dilma é andar 50 minutos de bicicleta nas cercanias do Alvorada todos os dias de manhã, sob o olhar atento da equipe da rede Globo que faz plantão desde a madrugada às portas do palácio e dos “atrasadinhos”, que é como a presidenta se refere ao grupo do SBT que também bate ponto por lá logo cedo. “Alguém que está muito ruim levanta e vai andar de bicicleta às 10 para as 6? E anda 50 minutos no mínimo, faz musculação, você acha que isso é possível? Eu tenho uma grande competência quando aumenta a tensão e a minha fraqueza é quando eu relaxo. Quando eu tô muito feliz, tô muito normal, igual a todo mundo. Quando tô tensa, sou presidente da República. Não há na história do mundo um presidente que não tenha uma tensão.”

Dilma avisa logo de cara que não dará uma entrevista muito bem comportada e, apesar de elegantemente não citar nomes, seus principais alvos são o vice-presidente Michel Temer e o presidente da Câmara, Eduardo Cunha. “Uma das questões mais perversas dessa história é quem preside meu impeachment, inequivocamente. Não só essa pessoa pratica desvio de poder como, ao contrário dele, não tenho conta no exterior, não tenho nenhuma das acusações que recaem sobre ele. Mas o que eu acho mais grave não é que ele presida o impeachment, é que a proposta que está na mesa contra a minha permanência no cargo de presidente tenha ele como vice. Ele será o vice-presidente da República. E tem com o atual vice uma relação de profunda sociedade. São associados.”

Todo o tempo, a presidenta usa a palavra “golpe” para definir o processo que está em curso, e coloca o vice Michel Temer como um dos artífices da trama que pretende arrancá-la do poder com base em um relatório, em suas palavras, “fraudulento”. “A máscara caiu, a fantasia foi rasgada e não fui eu quem disse, é só ler as declarações, um vazamento interessantíssimo, porque nunca vi vazar para si mesmo, é algo fantástico. Foi tratado como vazamento o que não foi, era uma manifestação deliberada nunca dantes vista na história do mundo. Um processo está em curso e alguém tenta, sem olhar o resultado, fazer um discurso de posse. Eu chamei de golpe, de chefe do golpe e de vice-chefe do golpe. Eu só não sei quem é o chefe e quem é o vice-chefe. Acho que são associados, um não age sem o outro. Uma parte do golpe depende do presidente da Câmara, diretamente do presidente da Câmara.”

Dilma faz questão de lembrar que são ambos, Michel Temer e Eduardo Cunha, dois políticos que jamais chegariam à presidência da República por meio do voto popular, e por isso recorrem ao tapetão do impeachment para tomar o poder. “Tem gente tentando, através do impeachment, fazer uma eleição indireta daqueles que não têm voto. Todo mundo sabe disso. Uma eleição indireta perigosíssima, porque não resolve os problemas do país”, diz. “Eu não respeito e nenhum de nós pode concordar com um impeachment sem base legal. Fere nossa democracia, é um atalho para o poder daqueles sem voto, que não vão se submeter a nenhuma eleição, porque não serão sequer considerados, porque não têm os requisitos necessários para se apresentar como tal. Podem porque são brasileiros natos, mas não têm capacidade de atrair apoio.”

A presidenta cobrou a velha mídia por não deixar claro para seus leitores a falta de consistência, em termos jurídicos, do relatório aprovado esta semana na Comissão Especial que cuida do impeachment na Câmara. “O impeachment está previsto na Constituição, essa é uma afirmação correta dos órgãos de imprensa, mas estes órgãos de imprensa se esquecem que um impeachment tem que ter base legal. Não dá para fazer o salto no escuro de um impeachment fraudulento, sem base legal. Não sei se isso terá consequências imediatas, mas marcará indelevelmente a história do presidencialismo no Brasil. Os que fazem isso tem que saber as consequências do seu ato, que estão ocultas. Não vejo nenhum grande órgão de imprensa dizer que é golpe, vi alguns articulistas. Como presidenta tenho de fazer uma denúncia: há um estado de golpe sendo conspirado no Brasil. E tem tanto aqueles que agem a favor abertamente, como os que agem ocultamente; e tem aqueles que se omitem. Todos serão responsáveis. Não se pode supor que certos atos políticos não têm consequência.”

Há uma inescapável melancolia no ar que Dilma trata de dissipar demonstrando otimismo em relação à votação de domingo. “Nessa reta final vamos sofrer uma guerra psicológica. Este será um processo que tem um objetivo: construir uma situação de efeito dominó”, adverte. “Eu acredito que nós temos todas as condições de ganhar no Congresso Nacional. Acho que o resultado que nós obtivemos na comissão, ao contrário do que foi cantado em prosa e verso, foi importante: 41,5%. Se você fizer uma projeção, dá 213 votos. Dá um desconto, ainda fica na faixa do conforto. O governo vai lutar até o último minuto do último tempo por uma coisa que nós acreditamos que é factível, ganhar contra essa tentativa de golpe que estão colocando para nós através de um relatório que é uma fraude. O relatório tem momentos que são estarrecedores.”

A presidenta admitiu, no entanto, que a proposta de convocar eleições gerais seria menos antidemocrática. “Em que pese considerar que a Constituição diz o dia que começa e o dia que termina meu mandato, respeito uma proposta que passa por eleição, que tenha voto popular. A minha não é essa, mas respeito”, disse. Se ganhar, Dilma pretende convocar a sociedade brasileira para um pacto, mas tem perguntas a fazer sobretudo à mídia: “O que tem que se avaliar não são os poderes, é: como se comportará a imprensa diante da continuidade? O impeachment não passando, a espetacularização da investigação vai continuar? Uma coisa é investigar, outra é a espetacularização, um instrumento político. Vaza prova nos EUA para ver o que acontece: o processo é anulado. Grave presidente da República sem autorização do Supremo para ver o que acontece.”

Além de um pacto “sem ódio, sem vencidos e vencedores”, Dilma fala de reformas necessárias, como a política e a tributária. Pergunto como isso se dará quando sabemos que, mantida no cargo, também estarão mantidos o presidente da Câmara e um Congresso francamente hostil. A presidenta reclama que essa é “a pergunta do fim do mundo” e conta uma história de quando estava presa durante a ditadura como metáfora de que é preciso ter esperança e não ser pessimista, mesmo depois que ela deixou claro que os acenos à esquerda não fazem parte de sua agenda e sim da de Lula. “O presidente Lula quando presidente teve um comportamento, fora da presidência ele tem outro. Eu teria também. Mas tenho que ter uma posição que diz respeito ao todo. O presidente Lula pode falar tudo que ele pensa, tem todo o direito. Eu não posso defender todas as minhas posições pessoais, seria colocar os meus interesses na frente de todos que estou representando. Não posso ter posições que sei que uma parte da população brasileira não endossa. Um presidente não cria divisão.”

No final da entrevista, um garçom do Palácio chega com uma bandeja de pães de queijo recém-assados e Dilma titubeia, indecisa entre quebrar ou não a dieta, tapando o rosto com a mão esquerda para manter a guloseima longe das vistas. Em seguida, se arrepende. “Sabe o quê? Vou comer um, sim.”

 


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