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Trabalho

Jane Fonda: “Sou uma trabalhadora. E tenho sorte de ter um sindicato”

Como o #MeToo está se transformando em um movimento por melhores condições de trabalho para todas as mulheres nos EUA

Jane Fonda entre a líder das trabalhadoras domésticas, Ai-Jen Poo, e das trabalhadoras rurais, Monica Ramirez. Foto: divulgação
Cynara Menezes
09 de agosto de 2018, 18h16

Em 1972, Jane Fonda foi sarcasticamente apelidada de “Hanói Jane” ao aparecer sentada numa bateria antiaérea ao lado dos vietcongues, usando um capacete deles, em um protesto contra a guerra do Vietnã. A imagem, porém, foi mal compreendida, Jane foi massacrada pela mídia e pela direita e se desculparia muitas vezes ao se dar conta de que a foto transmitia a ideia de que ela estava contra os soldados norte-americanos, e não em defesa da paz. Nos anos 1980, Hanói Jane se transformaria em musa fitness , mas o apelido permaneceu, assim como o ativismo político da atriz.

Aos 80 anos, além de estar bombando no Netflix com a comédia Grace And Frankie, Jane continua ativíssima e engajada em várias causas ao mesmo tempo: está envolvida na defesa dos nativos americanos Sioux, nos protestos contra a instalação de um oleoduto que passa no meio da floresta de Great Bear e no movimento #MeToo, que denuncia o assédio sexual em Hollywood, e no que ele derivou: “Time’s Up” (“este tempo acabou”, em tradução livre), uma plataforma para ajudar as mulheres trabalhadoras de maneira geral a denunciar o assédio.

Se nós vamos realmente confrontar e resolver assuntos de direitos dos trabalhadores e dignidade e segurança contra assédio sexual no ambiente de trabalho, vamos ter que estar ao lado em harmonia e amor e aliança com nossas irmãs de outros setores

Esta semana, a atriz participou, a convite da Federação de Trabalhadores da Califórnia, de um painel em defesa de uma ação coletiva visando proibir os empregadores de condicionar a contratação de trabalhadores à assinatura de acordos prévios que os proíbem de recorrer à Justiça reclamando qualquer direito depois. Lembram do item da “reforma” trabalhista de Temer que diz que o negociado entre as partes vale mais que a lei? Então, a situação dos EUA é como se eles fossem o Brasil na etapa posterior da trama contra a CLT, quando já não existe mais a Justiça trabalhista e estivessem lutando para tê-la de volta.

Em maio, a Suprema Corte norte-americana negou, por 5 votos a 4, o pedido dos sindicatos para proibir a prática, mas agora, graças às denúncias do #MeToo, as ativistas estão recorrendo novamente sob a alegação de que este tipo de acordo afeta e impede as denúncias de assédio sexual. Logo no início de sua fala, a atriz fez questão de lembrar de que, glamour à parte, não há diferenças entre as mulheres trabalhadoras. “Sou Jane Fonda e sou uma trabalhadora. Posso ser famosa, mas sou uma trabalhadora. E tenho sorte de ter um sindicato”, disse, no relato de Samir Sonti, do Sindicato de Trabalhadores em Hotelaria.

 

Após as denúncias de assédio sexual e estupro contra o megaprodutor Harvey Weinstein virem à tona no ano passado, as atrizes de Hollywood começaram a ser procuradas por trabalhadoras de baixa renda pedindo atenção para os seus problemas, e Jane Fonda logo tomaria a frente da luta em comum. No início do mês passado, Jane estava em intensa campanha no Congresso por melhores direitos no trabalho para as mulheres, lado a lado com representantes dos sindicatos de trabalhadoras domésticas e rurais.

“Se nós vamos realmente confrontar e resolver assuntos de direitos dos trabalhadores e dignidade e segurança contra assédio sexual no ambiente de trabalho, vamos ter que estar ao lado em harmonia e amor e aliança com nossas irmãs de outros setores”, ela disse, de acordo com o Washington Post. “O que aconteceu no último outono com o #MeToo foi decisivo para nós em Hollywood. Transformou a teoria da interseccionalidade em mulheres reais”, disse, segundo o sindicato das trabalhadoras domésticas.

O “turning point” de que fala Jane veio, em novembro passado, com uma carta em que 700 mil trabalhadoras rurais dos EUA manifestavam solidariedade com as atrizes de Hollywood por suas denúncias de assédio sexual e denunciavam sua própria realidade. “Infelizmente não estamos surpresas, porque é uma realidade que conhecemos de perto muito bem. Inúmeras trabalhadoras rurais em nosso país sofrem em silêncio pela prática disseminada de assédio e violência sexual que enfrentamos em nosso trabalho”, dizia o texto, assinado por Monica Ramírez, da Alianza Nacional de Campesinas. “Embora trabalhemos em ambientes diferentes, temos em comum o fato de sermos molestadas por indivíduos com o poder de contratar, demitir e colocar em listas negras, além de ameaçar nossa segurança econômica, física e emocional.”

“Embora trabalhemos em ambientes diferentes, temos em comum o fato de sermos molestadas por indivíduos com o poder de contratar, demitir e colocar em listas negras”, disseram as trabalhadoras rurais em carta às atrizes

Depois da carta, o #MeToo começou a se transformar em algo maior, em um movimento que saísse de Hollywood para olhar também as demais trabalhadoras do país. Os EUA são, por exemplo, uma das poucas nações desenvolvidas do planeta que não têm licença-maternidade remunerada. São as empresas que decidem se pagam ou não. Imaginem como é para mulheres de baixa renda, que trabalham como domésticas e trabalhadoras rurais. Jane Fonda está se tornando a maior porta-voz destas trabalhadoras unidas, mostrando que a luta das mulheres trabalhadoras é uma só e que tudo está relacionado, assédio, más condições de trabalho, xenofobia, capitalismo. É dessa interseccionalidade que ela fala.

Para nós, este tipo de união deveria ainda servir de inspiração nestes momentos pós-reforma trabalhista, de precarização do trabalho, do fim do imposto sindical. Se não nos organizamos em sindicatos, se não soubermos fortalecer os sindicatos, quem irá nos defender?

 

 


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