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Mangueira é campeã com enredo esquerdista e homenagem a Marielle

Chora, bolsominion: o desfile da escola vencedora foi um manifesto pró-Paulo Freire e contra o "escola sem partido"

A bandeira do Brasil da Mangueira. Foto: Fernando Grilli/Riotur
Da Redação
06 de março de 2019, 20h43

Foi uma vitória da história contada sob a ótica dos vencidos, não dos vencedores. Com um enredo esquerdista, contra tudo que Jair Bolsonaro representa, a Mangueira se sagrou campeã do carnaval carioca falando em demarcação de terras, criticando a ditadura militar, exaltando os heróis negros e indígenas e homenageando e ao mesmo tempo cobrando solução para a execução da vereadora Marielle Franco, morta há exatamente um ano.

Ao apresentar o samba-enredo, em janeiro, o carnavalesco da escola, Leandro Vieira, deixou clara sua intenção de combater o discurso “escola sem partido” da era Bolsonaro, que tenta edulcorar a ditadura militar e promover “heróis” brancos como dom Pedro I e a princesa Isabel.

“O Brasil vive hoje um momento de questionamentos a respeito da defesa da causa indígena, da causa negra, da causa quilombola. O que a Mangueira propõe em termos de conteúdo de enredo é contrário ao que o pensamento conservador propõe”, disse Leandro ao jornal Extra. “O desfile da Mangueira para este ano é um olhar para a História do Brasil com visão crítica, para desmistificar personagens que aprendemos como heróis e dar representatividade aos que não foram colocados nessa condição.”

“Numa sociedade que discute mal a demarcação das terras indígenas e a questão quilombola, acho importante uma escola de samba, território de minorias, se posicionar a favor delas”, disse o carnavalesco da escola, Leandro Vieira

Em outubro, o carnavalesco já tinha falado ao jornal O Globo sobre seu desprezo ao “escola sem partido”. “Vivemos um momento controverso do ensino. A proposta de retirar das escolas o pensamento crítico é um crime!”, disse. “Numa sociedade que discute mal a demarcação das terras indígenas e a questão quilombola, acho importante uma escola de samba, território de minorias, se posicionar a favor delas e reassumir o papel de liderança popular. Se vou desmistificar personagens históricos, é essencial dizer ‘que a liberdade não veio do céu nem das mãos de Isabel’ (trecho do samba), consagrada como a libertadora.”

Na comissão de frente, a Mangueira colocou os “heróis” da historiografia oficial como anões diante dos “gigantes” indígenas e negros. O samba-enredo lembrou negros como Luiz Gama, jornalista e líder abolicionista, e Luísa Mahin, sua mãe, que lutou na revolta dos Malês, na Bahia, em 1835, e na Sabinada, em 1837. Mahin foi revivida pela cantora Lecy Brandão, enquanto Alcione representou Dandara, e Nelson Sargento, Zumbi.

Nelson Sargento como Zumbi e Alcione como Dandara. Foto: Fernando Grilli/Riotur

A jornalista Hildegard Angel, filha de Zuzu Angel, aparecia à frente do carro “A história que a história não conta”, onde se podia ler “Ditadura assassina”, para reavivar a memória das viúvas do regime militar que enaltecem a tortura, como o próprio presidente da República.

Foto: Dhavid Normando/Riotur

Na última ala, veio a homenagem a Marielle, com a viúva dela, Monica Benício, à frente de flâmulas que traziam, em verde e rosa, os rostos da vereadora, do compositor Cartola, da escritora Carolina de Jesus, do cantor Jamelão e do humorista e músico Mussum. Para culminar, uma bandeira do Brasil onde, em vez de Ordem e Progresso, estava escrito “Índios, Negros e Pobres”, as chamadas “minorias” que, ao lado dos LGBTs, podem se tornar as principais vítimas do governo de extrema-direita.

Filiado ao PT, Deivid Domênico, um dos autores do samba, não esqueceu de fazer a referência ao educador Paulo Freire, demonizado pelo bolsonarismo.

“Nós exaltamos uma mulher negra, que saiu de comunidade, que quebrou o paradigma que o Paulo Freire sempre colocou, de que ‘quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser o opressor’. Ela virou uma vereadora, representante das mulheres, das negras, dos homossexuais, dos oprimidos, da luta contra a desigualdade, da favela. E ela foi morta por causa disso. Logo, ela está dentro da ‘história que a história não conta’. Inclusive a história não conta quem matou Marielle”, disse Domênico em entrevista ao blog Setor 1.

“O que vai acontecer com o Domênico, um simples compositor da Mangueira? Eu estou muito preocupado com a vida da minha família. Eu tenho duas filhas e vou ser avô em abril”

Na época, ele já se preocupava com a repercussão do desfile entre os fascistas. “O que vai acontecer com o Domênico, um simples compositor da Mangueira? Eu estou muito preocupado com a vida da minha família. Eu tenho duas filhas e vou ser avô em abril. Eu sou uma liderança sindical nos Correios, e muitos trabalhadores lá ainda não compreenderam a gravidade do problema, o que está por vir. Eu temo que possam silenciar algumas frases do samba”, disse. “Mas eu espero e acredito que esse samba vai ser o samba da resistência, que vai dar voz às pessoas, que estão acuadas com essa onda fascista.”

No twitter, Carluxo, o filho mais novo de Bolsonaro, passou recibo. Logo eles criticando “envolvimento com milícia”? Ué… Nem parece a mesma família que homenageou milicianos.

Confira o desfile da escola e a letra do samba-enredo, ganhador do Estandarte de Ouro:

História para Ninar Gente Grande

Mangueira, tira a poeira dos porões
Ô, abre alas pros teus heróis de barracões
Dos Brasis que se faz um país de Lecis, jamelões
São verde e rosa, as multidões

Mangueira, tira a poeira dos porões
Ô, abre alas pros teus heróis de barracões
Dos Brasis que se faz um país de Lecis, Jamelões
São verde e rosa, as multidões

Brasil, meu nego
Deixa eu te contar
A história que a história não conta
O avesso do mesmo lugar
Na luta é que a gente se encontra

Brasil, meu dengo
A Mangueira chegou
Com versos que o livro apagou
Desde 1500 tem mais invasão do que descobrimento
Tem sangue retinto pisado
Atrás do herói emoldurado
Mulheres, tamoios, mulatos
Eu quero um país que não está no retrato

Brasil, o teu nome é Dandara
E a tua cara é de cariri
Não veio do céu
Nem das mãos de Isabel
A liberdade é um dragão no mar de Aracati

Salve os caboclos de julho
Quem foi de aço nos anos de chumbo
Brasil, chegou a vez
De ouvir as Marias, Mahins, Marielles, malês

 

 


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(1) comentário Escrever comentário

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Rodrigo em 24/03/2019 - 14h17 comentou:

Simplesmente sensacional, de arrepiar! Não apenas a Mangueira ganhou, como ganhou com a nota máxima: 270 pontos! A última vez que isso aconteceu foi em 2001, com a Imperatriz Leopoldinense. Ou seja, não apenas uma vitória, mas uma vitória em grande estilo, como o Brasil não via há 18 anos! Obrigado Mangueira, vocês lavaram nossa alma! Os brasileiros merecemos!

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