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Mídia golpista chama golpista para dizer que não houve tentativa de golpe por Bolsonaro

É inacreditável a lavagem de reputação que a mídia faz com Michel Temer, convocado a analisar o 8 de janeiro como se fosse um grande legalista

Temer recebe o então presidente eleito Bolsonaro em 2018. Foto: Alan Santos/PR
Cynara Menezes
14 de fevereiro de 2024, 16h26

Parece inacreditável, mas quem é que a mídia comercial ressuscitou para comentar a tentativa de golpe promovida por Jair Bolsonaro? Michel Temer, o homem que deu um golpe em Dilma Rousseff. Surreal. Chamar Temer para analisar o 8 de janeiro é como escalar um homicida para opinar se alguém cometeu assassinato ou não, é como convocar um canibal para atestar se há problemas éticos em comer carne humana ou chamar um machista inveterado para defender o feminismo.

É lógico que Temer, o “legalista”, passaria pano para o golpista Bolsonaro. Mesmo após ser revelada a reunião onde Bolsonaro explicitava os planos para se manter no poder, e mesmo após documentos virem à tona em defesa do “estado de sítio” e da prisão de Alexandre de Moraes, para Temer não há indicativo de que houvesse “um plano completo” de golpe nem há elementos para prender o ex-presidente. “Pelo menos pelos fatos que vieram à luz até agora, penso que não há razão para prisão”, disse Temer, ele próprio preso preventivamente em 2019.

Chamar Temer para analisar o 8 de janeiro é como escalar um homicida para opinar se alguém cometeu assassinato ou não, é como convocar um canibal para atestar se há problemas éticos em comer carne humana ou chamar um machista inveterado para defender o feminismo

Eu não devia, mas ainda fico impressionada com a lavagem de reputação que a mídia comercial promove sobre Michel Temer. O ex-vice traíra de Dilma usou a Constituição para arrancar do poder uma presidenta legitimamente eleita que não cometeu crime de responsabilidade algum para se tornar alvo de um impeachment –que é a única justificativa para o impeachment, segundo a Carta da qual Temer seria guardião. E então, oito anos depois, este homem que rasgou a Constituição é convocado a opinar sobre temas constitucionais? Oi?

Ainda que não fosse um golpista de marca maior, Temer jamais poderia ser convocado a opinar sobre o 8 de janeiro na autoproclamada “mídia imparcial” simplesmente porque não tem imparcialidade alguma em relação a Bolsonaro. Em 2021, o então presidente da República recorreu ao usurpador para que escrevesse uma de suas famigeradas cartas, atestando para os trouxas que quisessem acreditar que Bolsonaro não teve a intenção de agredir os poderes ao discursar no 7 de setembro chamando Alexandre de Moraes de “canalha”.

Ou seja, Temer já agiu para conferir legitimidade a Bolsonaro antes. Como alguém comprometido assim pode opinar sobre uma tentativa de golpe? “Ah, mas contra a Dilma não foi golpe”. Ora, o próprio Michel Temer, em ato falho, já se referiu ao “impeachment” desta forma, em entrevista ao programa Roda Viva, em 2019. “Eu jamais apoiei ou fiz empenho pelo GOLPE”, disse ele, com todas as letras. “Eu não era adepto do GOLPE”, volta ele a dizer no final da frase.

É bem verdade que não podemos esperar muito de uma mídia que, ao mesmo tempo que se reputa “isenta”, comporta-se de forma recorrente como negacionista de golpes. Em 1964, negou que João Goulart tenha sido arrancado do poder por um golpe, chamado por ela de “revolução”. Conquistaram muito dinheiro e poder, aliás, ao garantir para a posteridade que aquilo foi um movimento de “democratas” que impediram comunistas de governar o país.

Em 2009, a mídia comercial cunhou o termo “deposição constitucional” para definir o golpe em Honduras que daria início à sequência de golpes contra governos de esquerda na América do Sul; o mesmo aconteceria com o golpe contra Fernando Lugo no Paraguai em 2012. Tucanaram os golpes de Estado em nosso continente dando um verniz “legalista”, ou melhor, um verniz Temer, às destituições de adversários no tapetão, sem eleição.

Em 2016, a mídia negou e continua negando que o golpe contra Dilma fosse um golpe, embora a ex-presidenta tenha sido inocentada de todas as acusações feitas a ela, inclusive das pedaladas fiscais. Agora, está em curso idêntica estratégia em relação à tentativa de golpe de Bolsonaro em 8 de janeiro de 2023. Por enquanto, estão dizendo que não está comprovado que houve crime. Daqui a pouco vão transformar em “levante patriota”. Temer, escreva uma cartinha, por favor.

 


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Mário em 14/02/2024 - 21h59 comentou:

Salve Cynara!

Agora mesmo escutei Vera Magalhães dizer que o ato convocado pelo genocida é a mesma coisa que o Lula fez para tentar “retardar”a sua prisão… quando não passam pano pra fascista tentam de toda forma justificar suas posições comparando tudo o que não presta com o Lula. Que desgraça esse maldito PIG

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