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Matilde, o primeiro amor de Jorge Amado

Há 11 anos, quando Jorge Amado faleceu, viajei a Salvador para cobrir o funeral para a Folha de S.Paulo. No quarto do hotel onde estava hospedada, folheei um livreto sobre a vida do escritor e, numa cronologia, vi menções à primeira mulher de Jorge Amado, Matilde Garcia Rosa, e à filha do casal, Lila. Quem […]

Matilde, o primeiro amor de Jorge Amado
Matilde, o primeiro amor de Jorge Amado
Cynara Menezes
18 de setembro de 2012, 06h00

Há 11 anos, quando Jorge Amado faleceu, viajei a Salvador para cobrir o funeral para a Folha de S.Paulo. No quarto do hotel onde estava hospedada, folheei um livreto sobre a vida do escritor e, numa cronologia, vi menções à primeira mulher de Jorge Amado, Matilde Garcia Rosa, e à filha do casal, Lila.

Quem seriam elas? Nunca, até então, eu tinha ouvido falar em outra mulher de Amado além de Zélia Gattai, sua companheira de toda a vida, e mãe de seus filhos João Jorge e Paloma. Em uma pesquisa no guia telefônico, descobri muitos “Garcia Rosa” no Rio de Janeiro. Decidi começar pelos que apareciam como advogados. “Advogado costuma saber de tudo”, pensei. Batata, como diria Nélson Rodrigues. Logo na primeira ligação, ouvi do outro lado: “Sim, conheço, ela era tia de um primo meu”.

Com o coração acelerado de repórter, liguei para a casa do sobrinho de Matilde. Atendeu uma senhora, que disse: “Matilde morou nessa casa, tem até uns papéis antigos de Jorge Amado aqui, umas fotos”, disse a senhora. Obviamente fiquei ainda mais excitada com a notícia. Aquilo era ouro puro! E era mesmo verdade: descobri um livro inédito do escritor baiano e pude contar a pouco conhecida história de seu primeiro amor e de sua filha Lila, morta tão jovem… Quem sabe não aprofundo esse relato algum dia?

Em comemoração aos 100 anos do nascimento de Jorge Amado, republico aqui a reportagem.

Matilde, o primeiro amor de Jorge Amado

Baú de ex-mulher revela o poeta Jorge Amado*

Uma parte da biografia do escritor baiano Jorge Amado, morto há uma semana aos 88 anos, não ficou nem na casa do Rio Vermelho, onde morou com Zélia Gattai por mais de 30 anos, nem na fundação que leva o seu nome, em Salvador.

A Folha localizou no Rio os familiares de Matilde Garcia Rosa, a primeira mulher do escritor, morta em 1986, e descobriu uma relíquia: um livro de versos escrito à mão por Amado em homenagem àquela que se tornaria mãe de sua primeira filha, Lila. Com Zélia, o escritor teria outros dois filhos, João Jorge e Paloma.

Mais do que o valor estritamente literário dos poemas de juventude, porém, a descoberta do livro tem a virtude de lançar alguma luz sobre um período desconhecido da vida do escritor: os 11 anos –entre 1933 e 1944– em que esteve casado com Matilde.

Nos pertences da primeira mulher de Amado também aparecem fotos da filha do casal, nascida em 1935 e que recebeu o nome da mãe do escritor, Eulália. Lila, como era chamada, morreu aos 15 anos –segundo a família, vítima de leucemia.

Jorge e Matilde se conheceram bem jovens. Ele tinha 21 anos, ela, 17. “Minha avó contava que eles tiveram de fugir para se casar, porque meu avô era contra”, conta o sobrinho de Matilde, Osiris Garcia Rosa, que herdou a casa na Urca, zona sul do Rio, onde morou o casal, e, junto com ela, alguns documentos, fotos e o livro.

Osiris nasceu na casa de quatro quartos onde moravam Jorge, Matilde, os pais e a irmã dela, Ivone, com o marido (pais de Osiris). Em uma das poucas menções que faz à primeira mulher em suas memórias, no livro “Navegação de Cabotagem”, Jorge Amado conta que a casa da Urca também serviu algumas vezes de refúgio para os amigos comunistas.

Sobre a filha, diz apenas: “Mal a conheci, não houve tempo e ocasião”. Quando Lila nasceu, os avós dela construíram para a família Amado uma casinha nos fundos da propriedade.

Muita coisa se perdeu das lembranças de Matilde, mas foi preservado o manuscrito intitulado “Cancioneiro”, com pequenos poemas que Amado dedicou à então pretendente. São poemas juvenis e apaixonados, divididos em 14 capítulos e com os textos escritos sempre ao pé das páginas, em caligrafia caprichada.

A sensualidade característica no escritor já está presente nas declarações de amor que Amado, então com 21 anos, faz a Matilde: “Vejo os teus seios pequenos de menina”, escreve. Ou: “Eu gosto de ti por interesse /para possuir o dote do teu corpo”.

Sedutor, mostra saber também ser romântico: “O teu beijo purifica os meus lábios”, diz, no capítulo intitulado “Purificação”. Em “Poesia”, escreve: “A poesia vem de ti”. No final, chama: “Companheira: Vem/ eu te amo”.

Não foi um livro feito para posterior publicação. Nas primeiras páginas, Jorge Amado escreve que é uma edição “de um único exemplar manuscrito”, que dedica a Matilde Garcia Rosa. À guisa de esclarecimento, diz também que havia sido feito para ser lido “unicamente” por ela, “em honra de um grande e puro amor”.

Durante o tempo em que estiveram juntos, Amado publicou alguns romances importantes, como “Cacau” (1933), “Jubiabá” (1935), “Mar Morto” (1936) e “Capitães da Areia” (1937). A fase mais politizada se intensificaria depois da separação, já com Zélia.

Matilde não se casou novamente, e, após a morte da filha do casal, só voltou a ter algum contato com o escritor em 1978, durante o processo de divórcio que possibilitou a Jorge e Zélia oficializarem sua união. Na época, chegou a dar uma entrevista ao extinto jornal “Última Hora”, na qual mostrava certo ressentimento em relação à separação, mas tudo acabou sendo feito amigavelmente.

Na entrevista, a mãe dela, Dalila, criticava Jorge Amado porque não teria comparecido ao enterro da filha. A menina morreu em 1950, dois anos depois de Amado, eleito deputado federal pelo PCB, ser cassado e ter ido viver na Europa, primeiro na França e depois na então Tchecoslováquia.

A família de Matilde diz que não pretende doar o manuscrito ou os outros documentos para a Fundação Casa de Jorge Amado, que reúne a maioria dos originais do escritor. Mas não descarta que a relíquia se torne atração de um futuro leilão, a exemplo do que vem acontecendo com manuscritos deixados por autores famosos.

Poema Inédito

“Meus olhos vêem no copo de whisky a tua miragem
Quando virás derramar a taça de whisky e me dar o vinho bom dos teus lábios e o gosto saboroso do teu corpo?”
“Bar”, do livro “Cancioneiro”, dedicado por Jorge Amado à sua primeira mulher, Matilde Garcia Rosa

*Reportagem publicada originalmente no caderno Ilustrada do jornal Folha de S.Paulo em 13 de agosto de 2001


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(11) comentários Escrever comentário

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claudia pinheiro em 22/09/2012 - 20h01 comentou:

relíquias preciosas….
c

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antonio gomes em 24/09/2012 - 04h13 comentou:

Grandiosa revelacao que so poderia ter sido feita,pelo seu apurado faro jornalistico.Ate os garndes genios da artes,tem segredos que nao gostam de revelar.Jorge Amado povou meus sonhos de adolescencia,com seus personagens dos livros que editou neste periodo c/Matilde.Fiquei triste,por ele ter enterrado seu passado de muito amor e paixao!!!!!

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Ana Paula em 11/11/2014 - 01h22 comentou:

Não podemos esquecer o passados hora ele aparece e nos aponta a nossa peqines

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Alicia em 17/09/2018 - 15h03 comentou:

Muito misterioso o que aconteceu entre ele e a Matilde, nao existem tantos relatos sobre eles, obrigado por ter postado o seu,
É impressão minha ou a familha dela nao gostava muito do Jorge?
Parecia que ele tinha uma paixao juvenil muito forte por ela, eu se fosse a Zélia teria ficado com um pouco de ciúmes rsr

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Rodolfo Venicius Rodrigues Gomes em 29/04/2019 - 11h21 comentou:

Bom dia Cynara

Estou realizando um trabalho acerca de Monteiro lobato e me deparei com um artigo da extinta revista Vamos Lêr! de 1940 escrito pelo Jorge Amado, no referente artigo ele trata de literatura infantil e num dado momento ele cita a Matilde Garcia Rosa como autora de livro infantil, procurei por informações sobre esse tal livro e não encontrei nada, haja vista que muitos autores desse gênero desapareceram assim como suas obras. Se por acaso você tiver informações sobre essa obra da Matilde peço encarecidamente que me envie.

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    Cynara Menezes em 29/04/2019 - 23h58 comentou:

    também não me lembro de ter visto isso, vou pesquisar. tem link do artigo?

Rodolfo Venicius Rodrigues Gomes em 14/05/2019 - 01h15 comentou:

Eis aqui o link

http://memoria.bn.br/DocReader/183245/8353

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    Cynara Menezes em 15/05/2019 - 19h34 comentou:

    obrigada

Ricardo de Mattos Faro em 13/08/2019 - 17h07 comentou:

Boa tarde Cynara, o livro em questão se chama “A DESCOBERTA DO MUNDO” de 1933, um abraço

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    Cynara Menezes em 13/08/2019 - 18h12 comentou:

    obrigada!

Amâncio Cardoso em 27/08/2019 - 15h46 comentou:

Olá, Cynara Menezes.
Sou Amâncio Cardoso, professor de História do IFS (Instituto federal de Sergipe) e moro em Aracaju.
Só agora, sete anos depois, me deparo com esta página. Mas queria dizer que Matilde Garcia Rosa era sergipana e tinha um irmão, o poeta Antônio Garcia Rosa (1877-1960); moravam em Aracaju.
Jorge Amado passou um tempo em Estância, cidade ao sul de Sergipe, onde o escritor tinha parente – o pai dele era de Estância, além de Gilberto Amado (seu primo).
Pois bem, nesse auto exílio em Estância de Jorge e Matilde, o escritor baiano foi entrevistado por Joel Silveira (1918-2007), então jovem estudante secundarista, que viajou de Aracaju a Estância para entrevistar o já famoso Jorge Amado, em 1936.
Tudo isto está registrado no livro de memórias de Joel, “Na Fogueira”, páginas 13 a 19.
Parabéns por resgatar a memória de Matilde Garcia Rosa.
Até breve.

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