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Morte ao pajé: a Bíblia como arma do etnocídio indígena

Documentário de Luiz Bolognesi é estrelado por Perpera, líder religioso dos Paiter Suruí que o fundamentalismo transformou em ex-pajé

Perpera. Foto: divulgação
Cynara Menezes
02 de maio de 2018, 23h35

O pajé Perpera só dorme de luz acesa. Tem medo de os espíritos da floresta virem bater nele. Depois que o pastor fundamentalista estrangeiro disse que “pajé é coisa do diabo”, Perpera se viu transformado da noite para o dia de líder religioso respeitado por todos em cidadão de segunda classe, a quem ninguém na aldeia dirigia a palavra até ele ceder, vestir gravata e tornar-se zelador da igreja.

Na abertura do documentário Ex-Pajé, de Luiz Bolognesi, aparece uma frase do antropólogo francês Pierre Clastres que diferencia o termo genocídio do etnocídio: “o genocídio assassina os povos em seus corpos e o etnocídio os mata em seu espírito”. Pouco a pouco, o espectador irá entender a violência deste termo na prática.

O pajé já não cura: as plantas foram substituídas pelas aspirinas e injeções dos missionários. O pajé tampouco dá conforto espiritual: convertidos, os indígenas preferem Jesus. E Perpera virou um ex-pajé

Perpera é o pajé do povo Paiter Suruí, em Rondônia. Sua intimidade com os espíritos da floresta, a quem trata como amigos e parceiros, é destroçada pela presença da igreja neopentecostal na aldeia. O pajé já não cura: as plantas foram substituídas pelas aspirinas e injeções dos missionários. O pajé tampouco dá conforto espiritual: convertidos, os indígenas preferem Jesus. E Perpera virou um ex-pajé.

Todo falado em Mondé, a língua autóctone dos Paiter Suruí, o documentário de Bolognesi mistura habilmente cenas reais com recriações, utilizando os índios como atores. Perpera é o centro da trama, mas o filme também se debruça sobre a vida cotidiana na aldeia, onde se mesclam o passado das tradições se desvanecendo com o presente esmagador das caminhonetes, das embalagens plásticas e dos tablets nas mãos das crianças. O pajé versus o pastor.

Em certos momentos, Perpera lembra Santiago, o mordomo do documentário de João Moreira Salles, com sua elegância e dignidade natas, que não se curvam à servidão. Sentimos a dor da humilhação do pajé obrigado a ser porteiro da casa de um deus em que não acredita. Seu protesto silencioso se esconde nos detalhes: Perpera está sempre de costas para o púlpito, e o zunzum das abelhas parece falar mais à sua alma do que as palavras que saem da Bíblia.

Seu protesto silencioso se esconde nos detalhes: Perpera está sempre de costas para o púlpito, e o zunzum das abelhas lhe interessa mais do que as palavras que saem da bíblia

A brutalidade do líder cristão contra o pajé Paiter Suruí está longe de ser, porém, um caso único. Embora a a Constituição reconheça “a organização social, costumes, línguas, crenças e tradições” dos povos indígenas, as igrejas neopentecostais têm avançado sobre as diversas etnias, e seu primeiro alvo é o pajé. Algumas aldeias abandonaram completamente as crenças tradicionais e viraram evangélicas, com as proibições cristãs invadindo suas vidas: não pode mais andar nu, não pode dançar nem beber bebidas típicas e não pode, em hipótese nenhuma, frequentar o pajé.

Ao contrário do que acontecia nos governos petistas, o proselitismo religioso nas aldeias não é mais combatido pela Funai. Pastor evangélico, o ex-presidente do órgão, Antonio Costa, dizia não se opôr às missões e à pregação aos índios. “Vejo com a maior naturalidade”, disse à BBC. Uma missão presbiteriana, a Caiuá, beneficiária de recursos bilionários da União, responde por 64% dos atendimentos médicos à população indígena.

No filme, a redenção do pajé vem da juventude, de uma nova geração de indígenas formada na universidade e que está redescobrindo o respeito pelo saber ancestral como forma inclusive de empoderamento. Quem sabe eles não consigam salvar os Perperas do etnocídio?

Veja o que os índios acharam do filme, exibido no Acampamento Terra Livre, em Brasília.

 

 


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João Junior em 04/05/2018 - 00h35 comentou:

Antropólogos e historiadores devem aproveitar a oportunidade única de ver na prática como ainda apupamos os índios desde os primeiros portugueses do Sec. XVI que aportaram por aqui. Como sou ateu, não tenho o menor problema de afirmar que isso é só mais um acinte indesculpável dos cristãos sobre outros povos, a tática insaciável de buscar mais “almas para Cristo”. Se trata apenas de poder, mais poder. Há quem defenda a ideia de que antigamente era assim, que os cristãos de hoje são diferentes dos de antigamente. Mas não são e não se dão conta disso. Se se dessem conta, teriam rejeitado a atitude do pastor.

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