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Bacurau conquista a América: aclamação da crítica é uma bofetada nos vira-latas

Atacado no Brasil por articulistas de direita, filme tem recepção calorosa nos EUA e é comparado a Carpenter e Kurosawa

O pôster de Bacurau nos EUA. Foto: divulgação
Cynara Menezes
11 de março de 2020, 19h52

No ano passado, quando Bacurau, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, foi lançado no Brasil, o burburinho em torno da revolução política e estética do filme deixou os articulistas de direita alvoroçados. As carapuças estavam servidas, e muita gente as vestiu: não há dúvida que Bacurau é uma alegoria da luta (armada) do oprimido contra o opressor, algo considerado inadmissível no país atualmente. Nascia ali um clássico do “marxismo cultural”, como diria Olavo.

Com Reinaldo Azevedo fora de combate, já que desde o boicote que propôs a Aquarius vem assumindo uma postura mais progressista, restou a seu colega de Folha e de antigas militâncias Demétrio Magnoli bancar o crítico cinematográfico furibundo. Bacurau, disse o sociólogo, é “o testemunho de nossa miséria intelectual”, a prova cabal da “extinção de qualquer traço de vida inteligente na esquerda brasileira”. “Uma trama tão simples como uma cartilha do PCdoB”, com metáforas dignas de “pré-adolescentes excitados”.

A recepção nos EUA “põe no lixo um discurso muito vira-lata de pessoas no Brasil de que a crítica norte-americana não ia entender. As pessoas que gostam de cinema entendem perfeitamente o ponto de vista do filme, e isso é muito foda”, diz Kleber

Em seu blog no Estadão, Miguel Forlin, da turma da Jovem Pan, foi na mesma toada, e apontou a “baixeza” do filme, em que viu “uma representação pueril” do gênero western, caracterizada “quase que exclusivamente pelo confronto dos moradores contra os forasteiros, se mostrando conformada em copiar preguiçosamente um modelo estrangeiro”. O diretor Kleber Mendonça Filho, que, em Aquarius e O Som Ao Redor, “já tinha nos revelado a pobreza da sua visão cinematográfica”, com Bacurau comprova que “pouco ou nada tem a dizer dos gêneros com que trabalha”.

 

Já o economista Samuel Pessôa, na Folha, embora fazendo a ressalva de ter gostado dos outros filmes de Kleber (“eram tempos de governos do PT, e talvez isso contribuísse para que artistas simpáticos ao partido fossem menos maniqueístas. Conforme o país foi pendendo para a direita, piorou a capacidade de reflexão da esquerda”), denunciou o enredo “simplista” de Bacurau. “O roteiro poderia ter saído diretamente das páginas de um texto marxista dos anos 1960 –por exemplo, da teoria da dependência de um Andre Gunder Frank.”

Justiça seja feita: os críticos de cinema mais sérios e respeitados do país tiveram outra percepção do filme da dupla pernambucana, prêmio do júri no festival de Cannes do ano passado. O tradicional “bonequinho” do jornal O Globo “aplaudiu sentado” numa escala em que o máximo é “aplaudiu em pé”. Na Folha, Inácio Araújo deu cinco estrelas ao filme, que considerou “obrigatório”, e discordou publicamente da visão ideologizada de Magnoli em uma réplica também publicada pelo jornal.

Bacurau, disse Demétrio Magnoli, é “o testemunho de nossa miséria intelectual”, a prova cabal da “extinção de qualquer traço de vida inteligente na esquerda brasileira”, “uma trama tão simples como uma cartilha do PCdoB”

No Estadão, Luiz Zanin Oricchio elogiou: “Inventivo, original, impactante, Bacurau é um filme ao qual ainda voltaremos várias vezes, tantas são suas camadas de compreensão. Múltiplo e afinado em suas significações subjacentes, embora concebido vários anos atrás, e realizado ano passado, ganha macabra atualidade no distópico Brasil de Jair Bolsonaro”. Luis Carlos Merten, no mesmo jornal, também adorou. “Kleber e Dornelles reabrem com brilho a vertente do western ideológico de Glauber Rocha”, escreveu.

A espetacular recepção ao filme pela crítica dos EUA, onde Bacurau estreou no começo do mês, tem o efeito, porém, de uma bofetada na direita vira-lata que tenta reduzir nosso cinema a algo “amador”, “adolescente”, em comparação às produções estrangeiras. E isso em tempos em que o bolsonarismo pretende destruir o cinema nacional, cortando incentivos e impondo um corte de cunho moralista no apoio do Estado ao audiovisual.

O que impressiona nas críticas norte-americanas a Bacurau é justamente a capacidade dos autores de compreenderem o humor do filme e ao mesmo tempo relacionarem a sátira com a atualidade brasileira e mundial. “Ele pode ser visto como uma metáfora sobre o Brasil (e as desigualdades que perturbam o mundo todo), mas, como os Sete Samurais de Akira Kurosawa, também é uma história profundamente enraizada em um lugar exato no mapa”, disse a crítica Manohla Dargis, no New York Times, que elogiou o entrosamento da dupla de cineastas e citou a homenagem ao diretor John Carpenter, com Night, composição de sua autoria, na trilha sonora.

O entusiasmo da crítica, uma das principais do jornal, ficou evidente em seu perfil no twitter: “Sonia Braga! Udo Kier! Agricultores de bunda de fora! Revolucionários sexy! Amor! Morte! Política! Delineador! Imperdível, o fantástico ‘Bacurau’ estreia em Nova York hoje e no resto do país em breve”. O filme entrou em cartaz em Nova York, Los Angeles, Miami, São Francisco, Seattle, Chicago e vai ocupar salas em outras 60 cidades norte-americanas.

O site do crítico Roger Ebert deu cinco estrelas ao longa brasileiro, em um artigo assinado por Monica Castillo. Bacurau “brilhantemente equilibra política e roteiro”, diz Castillo, que coloca o filme entre a tendência de produções que denunciam a desigualdade, a exemplo de Parasita. Sendo que Bacurau “vai mais longe, denunciando os danos do colonialismo, os políticos corruptos e o imperialismo norte-americano em uma sangrenta batalha de vida e morte”.

A revista Rolling Stone o chamou de “jóia” feita para os “politicamente explorados” (um trocadilho com “exploitation movies”, filmes de horror B). “A dupla de diretores criou uma sátira de bordas serrilhadas que tem presas e garras afiadas em pontos finos, pingando o plasma daqueles que vêem tudo em termos de direitos e cifrões”, escreveu o crítico David Fear. “A fotografia de Pedro Sotero é tão impressionante quanto uma pintura e tão psicotrópica quanto as drogas que os moradores tomam.”

Além de Kurosawa e John Carpenter, adorado pelo diretor Kleber Mendonça, os críticos norte-americanos também enxergaram em Bacurau a influência de lendas do cinema como Sergio Leone, George Miller e Alejandro Jodorowsky, assim como dos brasileiros do Cinema Novo. “Bacurau é simultaneamente uma carta de amor afetuosa à carreira do mestre do horror e o melhor filme de Carpenter que Carpenter nunca fez”, elogiou Andy Crump, do site Polygon. “É sobre o Brasil, sertão e colonialismo. É uma versão moderna de Assalto ao 13º DP de Carpenter –escorregadio, vital e crepitante.”

Mendonça, Bong, de Parasita, e Dornelles tomando umas no festival de Sydney, em julho

O Socialista Morena entrou em contato com Juliano Dornelles e Kleber Mendonça Filho, e os encontrou em plena turnê norte-americana, exultantes com a acolhida dos gringos. “É raro ver um filme com uma sequência de críticas tão positivas, não só nos EUA como na Inglaterra. É sempre bom ver uma crítica como a do New York Times. É o terceiro filme meu que tem destaque no jornal, e foi escolha da crítica, ou seja, ela escolheu para comentar”, comemorou Kleber.

Sentados em um café em Londres no dia anterior à partida para os EUA, a dupla de cineastas leu uma resenha que particularmente os impressionou: a de K. Austin Collins na Vanity Fair. “Ficamos impressionados, parece que é alguém que viu o filme algumas vezes”, diz Kleber Mendonça. “Põe no lixo um discurso que é muito vira-lata de algumas pessoas no Brasil de que a crítica norte-americana não ia receber o filme bem, que não ia entender. As pessoas que gostam de cinema entendem perfeitamente as intenções do filme, o ponto de vista do filme, e isso é muito foda.”

“Bacurau é simultaneamente uma carta de amor afetuosa à carreira do mestre do horror e o melhor filme de Carpenter que Carpenter nunca fez”, elogiou Andy Crump, do site Polygon

“O crítico da Vanity Fair notou detalhes importantes, caros a nós, como por exemplo a pilha de livros que é despejada na escola pelo prefeito Tony Júnior”, diz Juliano Dornelles. Esse aspecto –o perfeito entendimento da trama e sua metáfora pelos norte-americanos– é o que mais agradou os diretores pernambucanos. “A gente fez um faroeste, um filme genuinamente estadunidense, e inverteu a posição no jogo, colocou eles como invasores, então esperávamos uma estranheza e ela não veio. Eles entendem totalmente o filme, que é uma espécie de faroeste revisionista.”

Ambos os cineastas demonstram certo desprezo às críticas feitas por articulistas fora da área, sobretudo porque lhe pareceram enviesadas: em geral, vinham de nomes ligados à direita. “Alguns pareciam estar realmente fazendo uma tomada de partido bem clara para tentar desativar o filme”, diz Kleber. “Como Bacurau não era mais só um filme sendo lançado no cinema, ele passou a ser um acontecimento cultural importante, começou a atrair gente de Economia, Cidades, Psicologia, Ciência Política, e aí começaram a surgir várias reações de autores que de fato têm um pensamento neoliberal, conservador, e que foram obviamente contra o filme de maneira supernegativa. Isso aconteceu, de certa forma, também com Aquarius.”

“A gente lia coisas muito reveladoras e absurdas, como um advogado dizendo que o filme era perigoso porque estimula as classes mais baixas a se levantarem contra as classes mais altas. E as classes mais baixas deviam saber o seu lugar”, lembra Juliano Dornelles

“Até a terceira semana após a estreia, a gente só via textos positivos sobre o filme”, conta Juliano. “Depois disso, por conta de todo o zunzunzum em torno do filme, a direita começou a ver o filme e um monte de textos interessantes do ponto de vista antropológico começaram a aparecer. Mas não da crítica, de pessoas ‘normais’, médicos, advogados, gente de tudo que é tipo começou a se manifestar. E a gente lia coisas muito reveladoras e absurdas, como um advogado que escreveu que o filme era ‘perigoso’ porque estimula as classes mais baixas a se levantarem contra as classes mais altas. E as classes mais baixas deviam saber o seu lugar. Em 2019 você estar lendo num jornal de circulação nacional uma coisa dessas… Você vê que as pessoas estão falando sobre elas e não sobre o filme.”

No site Rotten Tomatoes, que reúne as críticas sobre os filmes que estreiam nos EUA, Bacurau aparece até agora com 89% de opiniões positivas no “tomatômetro”. Nada mau para um filme que simbolizava a extinção da vida inteligente na esquerda.


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Saqntiago em 11/03/2020 - 21h10 comentou:

Viva Bacurau nos Estados Unidos , país que nós não devemos chamar de AMÉRICA , os gringos se adonaram de um nome que é nosso também : AMÉRICA DO SUL. !!!!!! —–TODOS SOMOS A AMÉRICA!!!!!!!

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Moema Sabt Anna em 11/03/2020 - 22h00 comentou:

Se o filme é “perigoso porque estimula as classes mais baixas a se levantarem contra as classes mais altas”, então é merecedor de todos os aplausos pois é transgressor, é arte. Bacurau neles!

Responder

LUIZ SIQUEIRA PAES em 12/03/2020 - 10h09 comentou:

Viva Bacurau! Viva o Cinema Brasileiro mais vivo do que nunca.

Responder

Leandro dos Santos Andrade em 12/03/2020 - 21h06 comentou:

Reapresentacoes na UFF???

Responder

Mauro em 11/08/2020 - 23h29 comentou:

Bacurau é o filme mais imperdível desde Parasita, por Eileen Jones https://choldraboldra.blogspot.com/2020/08/bacurau-is-most-must-see-movie-since.html

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