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Cultura

O dia em que Renato Russo pegou bode de Brasília

Há 30 anos, o cantor do Legião Urbana abandonava show no estádio Mané Garrincha que terminou em quebra-quebra

Reprodução/ Arquivo Daniel Cariello
Daniel Cariello
18 de junho de 2018, 11h26

Será?*

Daqui, vejo uma massa humana correndo de um lado para o outro. Eles vão e voltam em bloco desorganizado, mantido unido apenas pelo movimento conjunto. Não há escolha. Acompanham a onda ou caem e são pisoteados.

Um pouco à frente, uns brigam contra aqueles com quem cantavam abraçados há poucos minutos. E destroem o que encontram pela frente. E quem encontram pela frente. O futuro da nação.

Assustada, acuada, a Legião Urbana abandonou o palco. A violência não começou depois da fuga, foi a sua causa. Aquele ali, com um pedaço de madeira na mão, já estava brigando do lado de fora, assim como tantos outros. Escapou, por sorte, da polícia montada que investia sobre a fila que se encaracolava nela mesma, em uma espiral infinita.

Acuada, a Legião abandonou o palco. A violência não começou depois, foi sua causa. Guardo o ingresso, já sabendo se tratar de uma relíquia, apesar de compartilhar da decepção de todos os presentes, fiéis burgueses sem religião a quem o messias deu as costas

Vi o show da arquibancada, não do gramado, como havia previsto. Cheguei ao estádio sozinho e encontrei, por sorte, amigos da escola, acompanhados de um pai solidário e roqueiro. Eles preferiram ficar mais altos e seguros, o que foi uma boa escolha. Daqui, podemos sair sem passar pela confusão.

Pego um dos muitos ingressos abandonados no chão. O meu foi confiscado na entrada. Guardo, já sabendo se tratar de uma relíquia, apesar de compartilhar da decepção de todos os 50 mil presentes, fiéis burgueses sem religião a quem o messias deu as costas. As mesmas costas mais cedo atacadas por um exaltado que driblou a segurança e agarrou o cantor por trás.

Ao meu lado, estoura uma bomba. Sinto-me em perigo. É possível, ou melhor, é provável que os quatro músicos também se sentiram da mesma maneira quando uma explodiu no palco, soando em uníssono com o rufar dos tambores de Conexão Amazônica.

Não tinha que ser assim. Há pouco mais de uma hora, um barbudo de bata branca se aproximou do microfone e começou a falar sobre querubins para uma plateia extasiada. Era uma piada sobre três anjinhos enviados a três países diferentes. Quando o último descobria seu destino, desesperava-se: “Pro Brasil, não! Pro Brasil, não!”. O barbudo emendou, então, o refrão de Que País é Esse?, em comunhão com todos os presentes.

Assim como a tragédia de Altamont marcou a transição dos sonhadores anos 60 para os pesados 70, o show do Mané Garrincha foi também um divisor de águas na história da cidade

Porém, a noite não foi engraçada. Depois desse início catártico, tudo degenerou rapidamente. A procissão, que começou um mês antes, quando foi anunciado o maior show da história da cidade, está terminando em tragédia, com incontáveis feridos e o estádio destruído. Hoje, dia 18 de junho de 1988, os milhares de fanáticos espalhados pelo Mané Garrincha viraram soldados. Agora, eles querem lutar. E eu só quero ir pra casa e nunca mais escutar Legião Urbana.

***

Lá se vão 30 anos do show. O primeiro de minha vida. O último do grupo em Brasília. E, claro, ainda hoje ouço suas músicas.

O punk Aborto Elétrico virara a roqueira Legião Urbana que se transformou em nova religião. Seus discos vendiam aos milhares e suas canções invadiam FMs e AMs. A banda entregava energia e revolta em suas músicas e isso levou milhares ao estádio. Quando as coisas começaram a dar errado, ficou impossível controlar os ânimos.

Assim como a tragédia de Altamont (festival ocorrido em 1969, com os Rolling Stones, cujos seguranças espancaram um espectador até a morte) marcou a transição dos sonhadores anos 60 para os pesados 70, o show do Mané Garrincha foi também um divisor de águas na história da cidade e na carreira do grupo, que passou a evitar longas turnês e abandonou o discurso político.

E Renato Russo, um professor de inglês fã de Rimbaud e Sex Pistols, desceu do pedestal de messias no qual fora colocado. Ele já não pretendia mais mudar o mundo. Desejava apenas cantar suas próprias aflições e angústias.

Aquele show mudou minha vida. E em 1988 eu era tão jovem…

*Texto originalmente publicado no livro Cidade dos Sonhos – Crônicas Brasilienses

 


(8) comentários Escrever comentário

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Luis Fernando Querino em 18/06/2018 - 13h02 comentou:

SEMPRE SEREI UM LEGIONARIO

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Hércules em 18/06/2018 - 13h04 comentou:

Fui em vários Shows da Legião e nunca teve confusão.
Em 90 o maior e melhor show deles, fui nos dois dias sábado(pista) e domingo(arquibancada).
Mais de 50.000 pessoas cada dia.
Fila imensa desde os dias anteriores e nenhuma confusão.
Nem quando surgiriam os ingressos falsos que inclusive meu irmão teve a má sorte de comprar.
Dois shows memoráveis.
Concluo que ” se há AMOR, não existe SOFRIMENTO”.
RAÇA HUMANA A BEIRA DA irracionalidade, acaba na tragédia do Mané Garrincha.
Att.
Hércules
VIVA RENATO RUSSO e A LEGIÃO👑

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Reginaldo Zacarias em 18/06/2018 - 17h17 comentou:

Gosto muito da legião urbana desde dos meus 15 anos , e eu nunca tive uma oportunidade de ir a algum Chow.e estes bandos de babacas não souberam aproveitar está oportunidade única de suas vidas .

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Jorge Amado Azevedo de Oliveira em 18/06/2018 - 18h31 comentou:

Sou fã incondicional desta banda que mudou a história do rock brasileiro. E que também mudou a minha vida. Tenho muita saudade dos anos 80. Quanto a este show tive conhecimento pelos meios de comunicação da época. Se é que houve show…..mas o fato é que com este acontecimento as coisas mudaram para a minha Religião URBANA….! A legião urbana jamais será vencida e jamais sera esquecida!

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Ivan Lima em 18/06/2018 - 19h38 comentou:

Eu estava neste dia, tudo começou porque a banda demorou duas horas para iniciar o Show após o horário previsto , é mesmo depois de toda essa demora Renato Russo chegou doidão é falou ao microfone. ” Aí seus otarios o dinheiro já está na minha conta, se quiser dar o Show eu dou, se não quiser eu vou embora seus babacas”. Foi o suficiente para galera revoltada invadir o palco e pular nas costas do Renato Russo. Ficou proibido de fazer show em Brasília se nao se retratasse publicamente, ficou tres anos sem fazer show na capital. Se arrependeu e decidiu pedir desculpas em uma radio da cidade.

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Francisco Wagner em 19/06/2018 - 09h26 comentou:

Sou fã do legião urbana serei sempre um legionário, enquanto houver oportunidade de ir aos shows do legião lá estarei pois mesmo com a ausência do Renato nos palcos,pra mim ele sempre estará presente em cada canção que ouço do legião
Somos soldados pedindo esmolas……

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Fernando em 19/06/2018 - 10h23 comentou:

Embora considere o talento e uma certa genialidade do Renato Russo, no fundo, no fundo, ele era um grande babaca, deslumbrado com o sucesso…

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Marcelo em 19/06/2018 - 10h24 comentou:

Tal como o Ivan Lima, também fui testemunha ocular do referido show. Houve um atraso de mais de duas horas e, quando a banda entrou, sequer um pedido de desculpas ao público pagante.
Em determinado momento, com brigas na platéia, o Renato falou: “Podem se matar aí embaixo, o dinheiro já está na minha conta, se quiser dar o Show eu dou, se não quiser eu vou embora seus babacas”. E, neste momento, ficou invisvel a continuidade do show…
Lembfando que essa mesma galera prestigiou inúmeros outris shows na Caoital e nenhum “acabou sem terminar”. Plebe Rude, Capital Inicial, Raul Seixas, etc… shows excelentes e que tiveram bom termo…

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