O medo do subcomandante diante da agulha

Eu considero o subcomandante Marcos, líder do Exército Zapatista de Libertação Nacional, uma das mais fascinantes figuras da esquerda mundial. Quero ler mais sobre ele e, quem sabe algum dia, entrevistá-lo. Guerrilheiro e escritor, tem mais de 20 livros publicados, inclusive histórias para crianças. E é disso que quero falar.

Do pouco que li sobre Marcos, tem uma informação que me deixou feliz e ao mesmo tempo estupefata. Aquele mexicano valente confessa ter pavor de injeção, igualzinho a mim. Ele diz que seu colega, o “coronel insurgente” Moisés, costuma apresentá-lo como “parte das crianças zapatistas”. “Talvez para desafiar o calendário, os zapatistas cumprem anos ao contrário, e em lugar dos 515 anos que tenho na minha certidão de nascimento, cumpri cinco anos agora e entrei no sexto, ou seja, tenho 7 anos. Pode ser, depois de tudo que demonstrou o zapatismo, que muitas coisas que pareciam impossíveis se tornam possíveis com imaginação, inventiva e audácia. Em defesa do meu absurdo calendário posso dizer que com os meninos e meninas compartilho a fobia às injeções e o gosto por contos e histórias”, escreveu o subcomandante.

Em uma carta escrita ao amigo René Villanueva em 2000, Marcos se estende sobre o tema “medo de agulhas”. Em tom de protesto, o subcomandante  diz não entender por que ainda hoje existem as injeções. Eu também não entendo.

“Irmão René:

Por aqui ficamos sabendo que você está doente. Nestas terras, quando alguém tem um parente (porque você é um parente de todos nós, zapatistas) que está doente, temos o costume de fazer com que lhe ministrem todos os remédios possíveis (e os impossíveis também) para que fique curado. Como estar doente é algo comum e freqüente nestas montanhas, por todos os lados há um vaivém de receitas que abundam em xaropes, chás, poções, comprimidos, vapores e, horror!, injeções.(…)

Como você é nosso irmão, não podemos dar-lhe qualquer coisa. Muito menos se esta ‘coisa’ é uma injeção, este sofisticado instrumento de tortura que, apesar de estarmos prestes a entrar no terceiro milênio, não tem sido proibido por nenhuma organização mundial de nenhum tipo. Por aqui, por exemplo, Olivio propôs que uma palavra de ordem para a marcha das mulheres zapatistas do próximo dia 08 de março seja ‘Chocolates sim, injeções não!’. Eu falei para ele que não rimava, e ele me respondeu que as injeções não rimam com nada mesmo e, ao contrário, ‘chocolates’ rima com ‘brinquedos’ (no original. ‘chocolates’ rima con ‘juguetes’).

Não, senhor, não te podemos dar injeções. Claro que tampouco podemos te dar os chocolates. Não só porque Olivio os devorou, mas também porque com certeza chegariam todos derretidos. Por isso, consultamos nosso livro especial de medicina que se chama ‘Remedios y Recuartos’ e encontramos algo que, ainda que não te cure, com certeza não vai te deixar pior (o que nestes tempos de ‘medicina moderna’ já é uma vantagem): um abraço! Todos e todas nós te mandamos um abraço. Pode ser aplicado a seu critério, mas não abuse senão vai acabar causando dependência e abraços como aquele que te mandamos têm muito poucos.

Então. Não seja bobo, tome o remédio sem fazer caretas e fique curado, porque sua ausência e a de Beatriz no ‘Correo Ilustrado’ tem feito despencar o ‘rating’ dessa seção (é isso mesmo, já fiz uma pesquisa muuuuuuuito científica).

Até mais. Saúde e não esqueça que os abraços devem ser como os olhares: amplos e limpos.

Das montanhas do Sudeste Mexicano

Subcomandante Insurgente Marcos

México, fevereiro de 2000″

Foi o maior bafafá no México quando veio a público a notícia de que o subcomandante Marcos é contrário às injeções. Entidades médicas protestaram que ele estava prestando um desserviço. Pois eu acho belo quando homens feitos confessam as suas fraquezas. Ainda mais quando isso vem de um guerrilheiro que vive nas selvas profundas.

 

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Publicado em 21 de outubro de 2012