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O que a França tem a aprender com o Brasil (notas sobre a assombração)

Macron precisa dar respostas para impedir que o protesto dos "coletes amarelos" descambe em fascismo verde-amarelo, como ocorreu aqui

Os "coletes amarelos" enfrentam a polícia. Foto: Ministério do Interior da França
Jean Wyllys
10 de dezembro de 2018, 20h10

Nas últimas semanas, o mundo inteiro acompanha as notícias dos telejornais sobre os massivos e violentos protestos dos “jalecos amarelos” em Paris. As imagens da Avenue des Champs-Élysées coberta de fogo, pedras e poeira assombram os telespectadores; tanto no sentido espanhol do termo “asombrar“, que denota surpresa, admiração, quanto no francês “assombrir“, semelhante ao português “assombrar”, que remete ao medo, à preocupação, àquilo que é triste e sombrio. Ao mesmo tempo, porém, elas evocam em muita gente uma identificação romântica com a ideia revolucionária: o povo na rua, o questionamento ao sistema que tantas injustiças produz, a rebelião.

Trata-se de um movimento difícil de definir, seja para aderir ou para criticá-lo, e talvez aí guarde sua maior (e mais perigosa) força em tempos de rede social e convergência de bolhas aparentemente incompatíveis. Há um movimento em direção a lugar nenhum, contrário a tudo o estabelecido, que é responsabilizado sem nuances por tudo o que está errado.

Como aconteceu em junho de 2013 no Brasil, não há uma única agenda, nem um viés ideológico claro, nem interlocutores para estabelecer negociação. A manutenção do conflito após o recuo de Macron mostra que era bem mais do que isso. Mas o quê?

Mesmo que o estopim possa ter sido o preço dos combustíveis (consequência ruim, mal administrada politicamente, de uma política progressista em favor do meio ambiente), a manutenção do conflito após o recuo do governo Macron mostra que era bem mais do que isso. Mas o quê? Como aconteceu em junho de 2013 no Brasil, não há uma única agenda, nem um viés ideológico claro, nem representantes ou interlocutores para estabelecer algum tipo de negociação com o governo.

A gente que está na rua não foi convocada por partidos e sindicatos, e desconfia deles. Também não têm uma identidade de classe comum: há os mais marginalizados, a classe média, pequenos empresários, alguns patrões, gente que partilha uma indignação comum por motivos diversos e às vezes contraditórios, o que faz do conflito um beco sem saída, porque parece não haver solução que possa ser administrada pela via da negociação política.

Eles estão contra tudo isso que está aí. Mas, e então? Vão trocar pelo quê?

Junho de 2013 foi um marco no Brasil, ainda mal compreendido, por sua própria essência contraditória. Reivindicações progressistas por saúde e educação públicas de qualidade, contra as despesas milionárias dos megaeventos, por mais investimentos sociais, contra a tomada da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados pelos fundamentalistas homofóbicos, contra a violência policial, e outras semelhantes conviveram nas ruas com uma agenda autoritária e conservadora que incluía pedidos de intervenção militar, antipetismo, redução da maioridade penal, pena de morte e palavras de ordem macarthistas. Em algumas cidades, como o Rio, a agenda progressista era mais forte, enquanto a agenda conservadora crescia por exemplo em São Paulo, gerando o embrião de grupos protofascistas que tempo depois defenderiam o impeachment da presidenta eleita.

Desconfio de movimentos contra “tudo isso que está aí”, que parecem querer jogar o bebê fora junto com a água suja. O bebê é a democracia, ameaçada por alternativas populistas e autoritárias que oferecem soluções mágicas para problemas complexos

A luta contra o aumento das passagens (e, ao mesmo tempo, sua negação: “Não é por 20 centavos”) funcionou como bandeira comum para manter toda essa gente unida contra tudo e contra todos. Mas, em que pesem as boas intenções de milhares de pessoas que participaram dos protestos, o desfecho não foi o esperado. Pode não vir a sê-lo, tampouco, na França. Pode piorar lá também.

Eu tenho uma desconfiança gigantesca por esses movimentos contra “tudo isso que está aí”, que parecem querer jogar o bebê fora junto com a água suja. O bebê é a democracia, cada dia mais ameaçada no mundo inteiro por alternativas populistas e autoritárias que oferecem soluções simples e mágicas para problemas complexos, geralmente baseadas no ódio, no medo e no fundamentalismo.

Vamos ver no que vai dar esse movimento dos jalecos amarelos, mas, antes de embarcar nele, prudência. Eu torço para Macron não cometer os erros da Dilma em junho de 2013, porque se a democracia francesa não conseguir dar respostas aos anseios da população, respostas que façam as pessoas acreditarem de novo na institucionalidade democrática, o que pode crescer é o fascismo, que nem aqui. Madame Le Pen espera sua vez, como Bolsonaro. E o futuro pode ser realmente sombrio.

 


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Claudio Nannini em 11/12/2018 - 21h43 comentou:

O que acho é que aquele junho/2013 foi pensado pra dar nisso tudo que veio depois. A mídia conduziu com maestria todo aquele movimento e criou o clima do impeachment, direcionando toda e qualquer insatisfação contra a pessoa de Dilma.

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Maria Luisa em 14/12/2018 - 10h14 comentou:

Como sempre as esquerdas foram bucha de canhão da direita e desaguaou na vitoria da extrema-direita. A França também caminha nessa direção. A resposta do voto no populismo de extrema-direita é a resposta da desilusão com a politica (provocada pela imprensa) e com esse “tudo que esta ai”.

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Sarah em 14/12/2018 - 13h19 comentou:

Obrigada Jean Wyllys para essa analise bastante interessante apesar de ser feita com um foco institucional e cultural o que torna a comparação entre os dois paises um pouco inviavel porque os dois têm instituções e culturas com modos de funcionamento bem diferentes…
Além do mais trago, humildemente, algumas observações que me parecem uteis para afinar um pouco o seu discurso…
Primeiro, comparar Dilma e Macron não faz sentido, pois a Dilma era herdeira de Lula, representante do PT um partido que se reclama de esquerda (tipo Partido Socialista na França).
Macron é herdeiro de Rothschild e criou um partido centrista social-liberal para não ser associado à esquerda (Macron é mais tipo Doria).
Segundo, o movimento dos “jalecos amarelos” esta em constante evolução desde que nasceu. Ao contrario do que as midias falam (você não fala na sua matéria qual são as suas fontes de informação mas as midias mainstream aqui em França TF1, France 2 et 3, BFM TV, C News, LCI, Le monde, Le Figaro e até Libération ou l’Obs não valem muito mais que a Globo, Tv Record, Veja e por ai vai), o movimento se tornou bem mais que um movimento “tudo isso que está aí”, eles têm (e escreveram) : revendicações espécificas (https://blogs.mediapart.fr/jeremiechayet/blog/021218/liste-des-42-revendications-des-gilets-jaunes), estão propondo o RIC (Referendum de Iniciativa Cidadã https://mrmondialisation.org/quest-ce-que-le-ric-que-reclament-les-gilets-jaune/ & https://clic-ric.org/). Os jalecos amarelos estão se politizando (se trata de pessoas que não se interessavam em politica e que agora estão se construindo e se organizando politicamente, que estão despertando a ideia de que que a politica não deve ser o monopolo das instituições, estão até pensando em apresentar um lista eletoral nas eleições européias). Tem racistas e fascistas neste movimento ? Tem. Pois eles representam o povo francês e tem racistas e fascistas no povo francês isso não é novidade, mas mais uma vez ao contrario do que se fala nas midias eles são uma minoria e muitos estão mudando de opinião porque estão entendo (neste processo de politização) que o problema não é o outro ( o estrangeiro) mas bem o governo e o sistema… Além do mais os sindicatos, coletivos de movimento sociais e estudantes que estão se juntando ao movimento desde o inicio de dezembro (contra o aumento dos custos de inscrição nas faculdades particularemente para estudantes estrangeiros, reforma no ensino médio,etc…) denunciam estes elementos fascistas dentro do movimento. Tudo isso para dizer que toda militancia esta alerta e de olho nesses elementos fascitas, existe até colectivos anti fascistas que cumpram a missão de neutralizar os fascistas durante as manifestações.
Terceiro, não existe democracia francesa Jean, a ideia de que temos em França uma democracia funcionando é um absurdo. Primeiro o Macron não obteve maioria nas eleições (muitos votaram contra Marine Le Pen não por ele, isso nos que votaram porque teve um nivel de abstenção enorme).Segundo, se você acompanhou um pouco as noticias destes ultimos anos, desde 2016, François Hollande manteve o estado de exeção durante mais de 1 ano, Manuel Valls usou o artigo 49-3 para aprovar uma lei sem consultar o parlamento, no verão Macron inclui na lei alguns artigos do estado de exeção fazendo de medidas de exeção a regra em termos de repressão policiais e restrições de liberdade, fez votar a reforma do trabalho num parlamento quase vazio, esta recusando conversar com os sindicatos, os movimentos sociais e por ai vai). A França esta sob uma ditadura liberal liberticida e discriminante por isso fico até constrangida de ler de você (que acompanho com muita admiração e respeito – morrei de 2015 a 2018 no Brasil) que « Eu torço para Macron não cometer os erros da Dilma em junho de 2013, porque se a democracia francesa não conseguir dar respostas aos anseios da população, respostas que façam as pessoas acreditarem de novo na institucionalidade democrática… ». Por favor Jean não torce para o Macron conseguir calar o povo e continuar o seu despotismo liberal porque ao contrario do que você escreveu é se ele conseguir isso que a Marine Le Pen sera eleita em 2022. Torce para que esse movimento que é verdadeiramente politico e democratico consegue destituir esse governo e que a França possa enfim ter uma democracia…

O poder é do povo não das instituições !

Com toda a minha amizade !

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Nilce Geoffroy em 14/12/2018 - 23h13 comentou:

Já vi muito essa comparação. A mim ela me impressiona e me inquieta. Inquieta-me este olhar do brasileiro sobre a França, sem nenhum cuidado, sem nenhuma referência sem nenhuma reflexão sobre a diferença cultural entre o povo brasileiro e o povo francês ; entre um povo profundament religioso e um povo de cultura laica há mais de um século, já ; entre um povo que não lê e um povo que lê mesmo na praia, em férias ! …Entre um povo que já assumiu o individualismo da técnica e optou pela solidariedade de Estado e um povo que ainda se balança entre o nós tribal e o eu individual, confundindo solidariedade com caridade, e responsabilidade cidadã com pieguice burguesa…Enfim, inquieta-me a prepotência, a arrogância ingênua do povo brasileiro que ainda não conseguiu desviar o olhar do próprio umbigo para o mundo, que construiu sua história em cima do grito de independência de um príncipe e não consegue se emancipar. Mas que olha para o mundo cheio de lições para dar !

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antipaneleiro em 14/12/2018 - 23h31 comentou:

Ainda não mudei minha opinião sobre 2013: era uma revolta tipicamente burguesa, com aqueles termos abstratos de sempre: educação, saúde, corrupção. Assim como os jalecos amarelos. Aliás, aqui como ali, é difícil encontrar rostos negros na multidão, o que já diz muito para quem conhece a estrutura da sociedade brasileira e da francesa. Na Turquia, que também teve o mesmo tipo de revolta burguesa em 2013, Erdogan conseguiu impedir um golpe de Estado militar e desde então teve que endurecer o regime. Veremos como Marcon sairá dessa sinuca de bico!

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