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Direitos Humanos

Os nordestinos e o preconceito nosso de cada dia

Ex-presidente da OAB conta como foi discriminado por ser nordestino, um preconceito tão arraigado em nosso país que poucos percebem em si mesmos

Campanha da agência Base Propaganda, de Sergipe
Cezar Britto
10 de outubro de 2017, 11h00

“Não nasci nordestino por obra do acaso. Escolheram-me porque saberiam previamente do gosto do meu gostar. E acertaram em cheio!”

Certa vez, ao terminar uma palestra na XVIII Conferência Nacional da Advocacia, na baiana Salvador, fui procurado por um entusiasmado advogado catarinense. Queria me cumprimentar pelo conteúdo e pela forma com que eu expusera sobre o delicado tema das opções econômicas ou sociais na efetivação da Constituição. Olhando-me com a admiração refletida no forte aperto de mão, soltou sua elogiosa pérola:

– Parabéns, Britto, o senhor mudou a minha opinião sobre os nordestinos. É que eu não sabia que havia pessoas inteligentes no Nordeste. Vou contar ao pessoal sobre o senhor e eles também irão mudar de opinião.

Ele externava, com sinceridade ímpar, o preconceito que guardava tão oculto em seu coração que sequer era percebido por ele mesmo. Diferentemente do que ocorrera em outro episódio catarinense, agora na bela cidade de Balneário Camboriú. Naquela época eu acabara de ser eleito presidente nacional da OAB e estava iniciando o meu périplo pelo Brasil, conclamando a advocacia a combater o resistente Estado Policial. O evento da OAB em que falaria iria acontecer no próprio hotel em que me hospedara. Consciente do meu dever de anfitrião, desci para o auditório 20 minutos antes da abertura. Sempre aproveitei este tempo para conhecer, aprender e interagir com outras vozes. Neste dia, entretanto, o seguinte fato me servira como grande lição:

– Pegue água para mim! –era a ríspida voz de uma senhora advogada, elegante e ricamente trajada, confundindo-me com o garçom.

– Pois não, minha senhora! –respondi, gentilmente, dirigindo-me à copa do hotel em busca do objeto de desejo daquela desavisada pessoa.

– Fique aqui! –disse-me ela, sem qualquer gesto de agradecimento ao receber o seu copo d’água, para depois continuar. –Não saia daqui, pois acho que tudo vai demorar para começar. É sempre assim com esses nordestinos preguiçosos, acho que esse tal presidente sergipano deve ainda estar dormindo no quarto.

Pegue água para mim! –era a ríspida voz de uma senhora advogada, elegante e ricamente trajada, confundindo-me com o garçom

– Pois não, minha senhora! Estou aqui exatamente para servir a senhora e a todos vocês –continuei, calmamente, ao seu lado. E assim permaneci todo tempo, sendo vigiado pelo seu agressivo olhar, até que me convidaram para compor a mesa na qualidade de presidente nacional da OAB.

Não sei se meu gesto de assumida simplicidade serviu de lição àquela advogada que, simultaneamente, destilava preconceito de classe e aos nordestinos. Até porque ela saiu em transloucada disparada, não escutando meu improvisado discurso sobre o dever de servir ao outro como condição essencial ao exercício da advocacia. Eu tinha a esperança de que minha ação pacífica, mas não passiva, a fizesse entender que nossa profissão exige que sejamos o outro na busca por Justiça, e que não se luta eficazmente na defesa do outro sem senti-lo como nós. Ou, como ensinou o advogado Mahatma Gandhi: “O melhor modo de encontrar-se a si mesmo é se perder servindo aos outros”.

Nunca saberei, até porque não mais a encontrei. Eu sei apenas que outras de reação reflexiva também são válidas, a exemplo daquela vivenciada por Gerciane Silva, que trabalha comigo há mais de oito anos. Contou-me ela que estava na sala de aula, ainda no início do curso universitário de administração, na “cosmopolita” Brasília, quando o professor passou a explicar a razão principal que entendia ser determinante na vitória da presidenta Dilma Rousseff no segundo turno. Em tom sério e eivado de “verdade”, afirmara que Aécio Neves perdera em decorrência dos analfabetos nordestinos, abduzidos pelos programas assistencialistas dos governos petistas. Ao término da sua prolação, tão comum naquela época, Gerciane pediu a palavra e, para alegre espanto dos colegas, disse:

– Professor, eu queria dizer ao senhor que sou nordestina, empregada doméstica e estou aqui na universidade em razão dos programas que o senhor está condenando. Também queria dizer que se a minha presença incomoda o senhor é problema do senhor, pois não vou sair daqui.

O Brasil tem uma das mais eficientes legislações de combate ao crime de racismo, ao preconceito e à violência contra a mulher. Mas os que têm a raça, a cor, o gênero ou o local de nascimento do preconceito sabem que o Brasil não é o paraíso da igualdade que costuma declamar em versos e prosas. Os símbolos nazistas que voltam às ruas, a apologia ao estupro que recebe milhares de apoio, os nordestinos que são atacados e responsabilizados pelos resultados negativos do país, a homofobia assassina que estampa as manchetes policiais, o feminicídio que segue desenfeitando as estatísticas oficiais e os negros que permanecem tratados como desiguais desmontam qualquer mito ufanista do Brasil justo. O enfrentamento da questão, portanto, não está restrito ao campo da lei, até porque, como nos adverte a história, é mais fácil mudar uma lei do que a cabeça do homem.

Os que têm a raça, a cor, o gênero ou o local de nascimento do preconceito sabem que o Brasil não é o paraíso da igualdade que costuma declamar em versos e prosas

Daí porque os episódios aqui narrados têm em comum o preconceito extralegal que teima em permanecer ativo no coração brasileiro, ainda quando disfarçado em involuntário elogio. Preconceitos que, repetidamente, são ensinados em chavões nada inocentes, como: “negro de alma branca”, “negro de primeira estirpe”, “futuro ou passado negros”, “ela é inteligente, apesar de mulher”, “ela não merece ser estuprada”, “só podia ser essa gorda e feia”, “o seu sotaque é engraçadinho”, “os nordestinos entendem mesmo é de festa”, “apesar de pobre é limpinho”, “até que ele não é um índio preguiçoso”, “eu até tenho um amigo gay”, “pobre é tudo igual”, dentre outras. Preconceito expostos como vísceras depois que tantos resolveram se esconder atrás dos toques digitais das redes sociais. Preconceito que toma conta, sem disfarce, daqueles que praticam a idolatria a um pré-candidato à presidência do Brasil que destila seu ódio sem qualquer cerimônia. É o que bem observou, assertivamente, o advogado Nelson Mandela: “Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, por sua origem ou por sua religião. Para odiar as pessoas precisam aprender”.

Não que as leis sejam desnecessárias para se combater o preconceito. Elas são fortes aliadas. A guerra ao preconceito se torna complexa por ele se entrincheirar em nossa mente, como se fosse um vírus oculto, insensível à vacina da consciência. Mesmo quando os gestos e as palavras revelam os sinais da grave doença, seu portador não se percebe doente. Ao não perceber a doença que contamina até sua alma, ele a repassa para as outras pessoas, tranquilamente, sem qualquer remorso pela sensação de cometimento de um crime. E assim espalhamos o nosso preconceito, dia a dia, fazendo valer a máxima de Bob Marley: “Que país é esse onde o preconceito está guardado em cada peito? Que país é esse onde as pessoas não podem ser iguais, devido a suas classes sociais?”

 Cezar Britto é sergipano, advogado e escritor, autor de livros jurídicos, romances e crônicas. Foi presidente da Ordem dos Advogados do Brasil e da União dos Advogados da Língua Portuguesa. É membro vitalício do Conselho Federal da OAB e da Academia Sergipana de Letras Jurídicas.

 

 


(18) comentários Escrever comentário

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Lúcia Maria Vieira da Rocha em 10/10/2017 - 11h19 comentou:

Nos 30 anos em que vivi em São Paulo, sei bem o que é conviver com o preconceito “gentil”, engraçadinho e sem noção dos nossos conterrâneos paulistanos e paulistas

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Nilma Cunha em 10/10/2017 - 14h19 comentou:

Sensacional!!

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Fábio Vilar de Menezes em 10/10/2017 - 19h13 comentou:

Parabéns Cezar!
Muitos preconceitos já foram admitidos como existentes na sociedade brasileira, o que, entendo eu, seja o primeiro passo para a desconstrução dos mesmos.
Esse reconhecimento ainda não ocorreu no que diz respeito ao preconceito contra nordestinos.
É certo que todos os que proferiram as frases que ilustram esse seu texto não se entendem como preconceituosos e não compreendem a indignação dos atingidos por seu preconceito.
O não reconhecimento da existência do preconceito pela sociedade, inviabiliza medidas para combate-lo. Além disso, deixa a agressão redundante, pois além de alvo do preconceito, a pessoa se percebe ignorada em seu dano.
Muito importante que o tema seja discutido! Parabéns!

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Luiz Fernando em 10/10/2017 - 22h20 comentou:

Focault dizia que tão importante quanto combater o fascismo de Estado é combater o fascismo que está dentro de nosso interior. Bolsonaro e companhia só conseguem entrar em seu coração se você deixar.

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Antônio Almeida Soares de Araújo em 11/10/2017 - 12h50 comentou:

Parabéns Dr. Cézar, seu relato só reforça a sua simplicidade e grandeza como ser humano e a felicidade de ter nascido brasileiro nesse nosso belo Nordeste!

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Leonardo - Livraria Otelo em 11/10/2017 - 17h35 comentou:

Sensacional!

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José Carlos de Abreu em 11/10/2017 - 17h50 comentou:

Durante dez anos viajei, à serviço, por diversos estados, incluindo alguns do nordeste. Como paulista/goiano, posso declarar que SEMPRE FUI MUITO BEM RECEBIDO PELOS NORDESTINOS, COM EDUCAÇÃO, ALEGRIA E RESPEITO AO MEU TRALHO. Espero algum dia ter oportunidade de voltar.
Abraços a todos os nordestinos!
José Carlos de Abreu

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regina lian em 11/10/2017 - 18h39 comentou:

Brilhante!

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José Alvino Santos Filho em 12/10/2017 - 09h09 comentou:

O nordestino não tem a cabeça grande, o nordestino pensa grande! Assim como Cezar Britto pensa grande desde os bancos escolares, em sua cosmopolitana Propriá.

Cezar lavou seus preconceitos nas águas do Velho Chico, este rio que simboliza a igualdade entre os brasileiros: nasce no sudeste, quase em São Paulo, com sotaque mineiro, até morrer no mar como o mais ilustre nordestino!

Seu texto tem a força das águas do grande rio que arrasta os entulhos e garranchos disformes das mentes e dos corações das pessoas, para que se percam ou se achem na imensidão do oceano da humildade.

Parabéns!

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Daniel Dias de Moura em 12/10/2017 - 11h14 comentou:

Parabéns, Cezar!
O sistema disseminou e dissemina o vírus do rascimo e do preconceito que,infelizmente, contaminou muitos daqueles cujos anticorpos são fracos e impotentes gerando neles falta de consciência crítica e total ignorância acerca da história dos povos. Reflexões como essa sua e a união das pessoas conscientes são vacina contra estes males.
A luta!!!

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Maria Luiza Rocha Ramos em 12/10/2017 - 17h41 comentou:

Excelente texto!!!

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Renata Lima de Castilho em 12/10/2017 - 21h23 comentou:

Texto maravilhoso, sensacional!
Sou Goianiense, pai curitibano e mãe baiana. Moro em Santa Catarina e vejo de perto o preconceito dos sulistas contra os nordestinos. Tento de todas as formas, muito delicadamente e com exemplos, demover do pensamento de algumas pessoas o esteriótipo que formaram do povo do “resto” do país. Me dá arrepios quando vejo a néscia campanha do “O Sul é meu País”.

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Maria Cristina Cavalcante de Carvalho Psicóloga em 13/10/2017 - 05h44 comentou:

Estamos mergulhados em uma atmosfera cheia de preconceito. Não fomos educados para o cuidado e o elogio e sim para a desqualificação e a desconfiança. Não fomos educados para a igualdade. É preciso restaurar o conceito e o sentimento de igualdade nas famílias, nas escolas e nas instituições sociais. Isso pode fazer uma grande diferença.

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Sergio em 13/10/2017 - 10h24 comentou:

Vivi em São Paulo, há preconceito, há! Não deveria existir! Minha esposa, que é paulista, vive comigo hoje em Pernambuco. É alvo de constante piadas por causa do sotaque. É chamada de paulistinha! Ué? Será que um baiano gostaria de cahamado pelo nome ou por “ô baiano!”? Deveria haver preconceito? Não! Mas, aqui no nordeste também há. Inclusive contra nordestinos que vêm do interior: Matuto!

Ela (minha esposa), inclusive ouviu que deveria voltar para SP porque estava roubando empregos dos nordestinos aqui. Um absurdo! Somos ou não somos uma nação?

Infelizmente, há preconceito dos dois lados! Infelizmente!

Ainda assim, nesse anos que vivi em SP, testemunho próprio, olhando o poder público, os nordestinos que vivem em SP são muio mais bem tratados seja pelo estado ou pela prefeitura de SP, do que aqui no próprio nordeste.

O maior preconceito sofrido pelos nordestinos vem da classe política do nordeste. Problema é que é mais conveniente pôr a culpa das nossas mazelas nos cariocas, gaúchos, paranaenses, paulistas…

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Márcio Vaz em 14/10/2017 - 00h25 comentou:

Parabéns pela lucidez se suas palavras!!!

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Rosyanne Rodrigues em 14/10/2017 - 01h29 comentou:

Olá, Dr. Cezar!!!
Seria chover no molhado dizer que o seu texto é brilhante, porque todos já disseram. Parabéns por ele, portanto.
Na verdade, devo confessar, gostaria é de tê-lo escrito, na qualidade de nordestina que sou e de saber bem do preconceito que nos rodeia….
Na impossibilidade de o fazer, a mim só cabe lamentar não se ter notícias da “fidalga” senhora. Daria tudo pra vê-la com cara de tacho e morta de vergonha (sim, ela deve ter tido imensurável vergonha!!!). Que pena que a figura saiu de cena….. Mas, se souber notícias dela, por favor posta aqui, porque a curiosidade tá me matando!!!!!

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MARCIO PINHEIRO FIGUEIREDO em 14/10/2017 - 21h28 comentou:

Esta questão de preconceito é complicado. Como o colega falou a cima , no nordeste há preconceito sim . O do interior é chamado de matuto, os estados ex: PB, RN,CE pelo menos eu os conheço, há muito racismo contra o negro. O Nordestino tem que perder este costume de ter que ir para SP, RJ e outros Estados, Para sobreviver. Isto atualmente é ridículo, Pois todas as capitais do Nordeste e muitas cidades na região metropolitana de suas capitais e até muitas cidades do interior tem tudo que há nas cidades do sudeste e sul. Até os que saem de cidades menores no interior, indo paras capitais de seus estados, terão as mesmas condições de trabalho que teriam no sudeste e ainda até melhor pois estariam mais próximos das suas cidades de origem. Indo para o sudeste, Principalmente o RJ, que esta falido e a uma disputa enorme por emprego, irão se tornar favelados e aumentar o numero de favelas no RJ., causando ainda mais problemas.

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    Cynara Menezes em 15/10/2017 - 14h06 comentou:

    o nordestino vai aonde ele quiser! quer dizer que o direito de ir e vir não vale pra quem nasce no nordeste? ah, é o nordestino que é preconceituoso, estamos vendo

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