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Os novos cearenses: uma comuna na região metropolitana de Fortaleza

O sítio Brotando a Emancipação concretiza o desejo do grupo de esquerda cearense Crítica Radical de viver a experiência de uma sociedade onde não haja a mediação do dinheiro

Os humanos do sítio Brotando a Emancipação. Fotos: Cynara Menezes
Cynara Menezes
17 de setembro de 2017, 13h50

Há naquelas terras em Cascavel, a 62 quilômetros de Fortaleza, entre 15 e 18 humanos, dois cachorros, três porcos, pelo menos uma dúzia de galinhas e patos e um par de caprinos. As idades vão de um ano, da pequena Violeta, até os 68 de Rosa Fonseca, a “guru” do bando de rebeldes que pretende experienciar juntos o desafio de desdenhar do dinheiro numa sociedade capitalista. Isso mesmo: viver em comunidade, sem grana. Não houvesse a adesão de primatas, o ambiente remeteria à Revolução dos Bichos de George Orwell. Se fossem músicos, diríamos estar numa versão século 21 do sítio de Jacarepaguá dos Novos Baianos. Cearenses, no caso.

O sítio Brotando a Emancipação surgiu em 2014, quando alguns integrantes do Crítica Radical decidiram se lançar à aventura de abandonar o capitalismo. Fundado por Rosa, pela ex-prefeita petista Maria Luiza Fontenelle e pelo casal de militantes Célia Zanetti e Jorge Paiva no final de 1973, o Crítica é um dos mais antigos grupos de esquerda em atividade no Brasil, e provavelmente o único que milita fora da ação político-partidária. Na verdade, eles propõem o contrário disso: nenhum deles acredita mais ser possível modificar o Brasil ou o mundo por meio de eleições.

A turma do sítio com a “guru” Rosa, à direita

Ninguém ali vota há muitos anos, e nem mesmo paga as multas por não comparecer às urnas, a não ser quando é obrigado por alguma exigência burocrática do governo. Rosa, por exemplo, conta que só quita a dívida com a Justiça eleitoral quando tem que tirar passaporte para alguma viagem internacional. Mesmo aparentemente “isolado”, o grupo mantém contato frequente com radicais do mundo inteiro, e volta e meia organizam algum evento grande, nos últimos anos no próprio sítio. Esta semana, o Crítica Radical esteve em Brasília para participar do Congresso Brasileiro de Agroecologia.

Ninguém ali vota há muitos anos, e nem paga as multas, a não ser quando é obrigado por alguma exigência burocrática

A sede do sítio é uma casa bem simples, sem luxo algum, com três quartos, banheiro e cozinha. Alguns dos mais jovens dormem em barracas de camping no quintal. Na parede da varanda, a divisão do trabalho está afixada em duas lousas brancas, com as tarefas escritas em caneta piloto; tanto as atividades domésticas quanto os cuidados com a plantação e os animais são divididos entre todos. Nos 55 hectares do sítio se cultivam banana, goiaba, feijão, batata doce, caju, manga, maxixe, melancia, mandioca, mamão… Mas nada é vendido, no máximo “partilhado”, que é a expressão que preferem, porque “trocar” seria estabelecer um valor ao produto, algo que rejeitam.

Nem todos moram no sítio; Rosa fica entre Fortaleza e Cascavel. Todos são bem-vindos para visitar, mas para viver no Brotando a Emancipação é preciso passar pelo crivo do grupo. “A gente precisa restringir porque senão vai vir gente para cá abrir bodega para vender coisas e aí o projeto já era”, explica Rosa. O proprietário anterior tinha um meeiro, cujo filho acabou se juntando à turma.

Quando tem algum evento especial, como o plantio de arroz, que ainda não deu certo, organizam mutirões. O mais recente foi a construção de uma ciclovereda, no início de setembro. Além de cuidar da lavoura, os integrantes do Crítica Radical se dedicam à confecção de livros, panfletos e debates para apresentar a ideia da nova sociedade que almejam e as duras críticas que fazem a um capitalismo, que, estão seguros, está nos seus estertores –e o socialismo também. Um gráfico amigo imprime o material a preço desde custo desde a época da ditadura militar. O Crítica Radical também é muito ativo nas redes sociais. Tem canal no youtube e um perfil no no facebook, sempre atualizados.

Mas por que viver sem dinheiro? Para entender a ideia por trás do Brotando a Emancipação é preciso conhecer a história de Rosa Fonseca, uma lenda viva da esquerda cearense. Quando tinha 22 anos, ainda na faculdade de Sociologia, Rosa foi presa durante dois anos pela ditadura militar e chegou a ser torturada. O Crítica Radical, criado a partir de sua saída da cadeia, coleciona rupturas partidárias desde a origem: ainda na clandestinidade, rompeu com o PCdoB; depois, com o PT, com o PSB e, por último, com o PSTU.

A temporada no PT, embora vitoriosa a princípio, não durou muito –o casarão que o grupo ocupava na época, aliás, foi “usurpado” e até hoje é a sede petista no Ceará. Em 1985, a “crítica radical” Maria Luiza Fontenelle se tornou a primeira prefeita de capital eleita pelo partido graças a uma campanha vanguardista, na base da criatividade e pouco dinheiro, mas enfrentou uma forte oposição do conservadorismo à sua gestão. Se o machismo foi capaz de derrubar Dilma agora, imaginem 35 anos atrás. Como tinha dois ex-maridos, a bela Maria Luiza era chamada de “Dona Flor e seus dois Maridos”, de “sapatão”, diziam que era dona de um motel cuja proprietária era outra Maria Luiza… Acabou se indispondo com as lideranças do próprio PT e foi expulsa no meio do mandato, em 1988.

Nossa participação na institucionalidade era, no fundo, para reforçar a luta contra o capitalismo pela revolução

A experiência de Rosa como vereadora pelo PSB, entre 1992 e 1996, também não foi lá tão entusiasmante a ponto de convencê-la a continuar atuando em partidos e disputando eleições. “Nossa participação na institucionalidade era, no fundo, para reforçar a luta contra o capitalismo pela revolução”, diz. Em 1998, numa última tentativa, chegaram a recolher assinaturas para fundar o PARTE (Partido dos Trabalhadores pela Emancipação), mas acabaram desistindo. A partir dos anos 2000 começam a advogar o não-voto.

A pequena Violeta com sua mãe

“Um dia, de madrugada”, conta Rosa, “Jorge Paiva deu um grito. A mulher dele, Célia Zanetti, achou que estava ficando louco. Mas Jorge encontrou no Grundrisse um trecho em que Marx prevê o que seria a crise do limite do capitalismo, a substituição do trabalho vivo pelo trabalho objetivado como a última etapa da produção baseada no valor, e vimos que Marx se contradizia em relação a O Capital. Quando a gente colocou os dois Marx em confronto, o do Capital e o do Grundrisse, o Marx Exotérico contra o Marx Esotérico, disseram que éramos tão radicais que estávamos colocando Marx para brigar com ele mesmo…” Ela solta uma gargalhada. O “Marx Esotérico” estaria em um movimento “de saída” do capitalismo, que é a posição atual do Crítica Radical. Daí o sítio.

“Quando percebemos isso, a primeira pancada foi em nós mesmos, porque vínhamos de uma escola marxista, de luta de classes, da revolução socialista, da ditadura do proletariado. O que descobrimos balançava o programa todo, balançava o prédio todo, aquele prédio que nós éramos capazes de dar a vida por ele. Vimos que era papo furado, aquele barco não tinha como caminhar mais”, explicou Jorge em entrevista ao jornal O Povo em 2008. “Começamos, então, a procurar as pessoas que estavam pensando a questão. Aconteceu que, naquele momento, o (pensador alemão) Robert Kurz lança um livro chamado O Colapso da Modernização. Nós, então, percebemos que não estávamos mais sozinhos, havia outros doidos pensando a mesma coisa, já dá pra montar um hospício.”

Até para viver sem dinheiro… é preciso dinheiro. Adquirir o terreno para realizar o sonho do sítio é uma luta que ainda está acontecendo

No sítio, os papos, que costumam acontecer em volta da fogueira nas noites enluaradas, são de alto nível. Comemos juntos na mesa da varanda: feijão de corda, arroz, salada e galinha caipira, tudo muito caseiro e saboroso. A meu lado, Fabrício Souza, de 21 anos, pai pedreiro e mãe faxineira, desata a falar sobre marxismo com tanta propriedade que assombra. “A substância do capitalismo se perdeu. Como vai se recuperar?”, ele pergunta. Fabrício se dedica integralmente ao coletivo. Pergunto como faz para arranjar dinheiro para os pequenos gastos do dia a dia. Ele conta que anda de bicicleta e usa o caixa do grupo quando precisa voltar para casa tarde ou comer alguma coisa.

Esta é uma questão fundamental, porque até para viver sem dinheiro… é preciso dinheiro. Adquirir o terreno para realizar o sonho do sítio é uma luta que ainda está acontecendo. O valor total do terreno é 550 mil reais. Em 2014, fizeram uma vaquinha e conseguiram pagar o sinal, de 100 mil reais. Depois, um admirador do grupo se ofereceu para fazer um empréstimo de 90 mil reais no banco, que ele mesmo paga. Mais recentemente, para pagar mais 200 mil reais, organizaram uma rifa para sortear o único bem de Rosa, o apartamento que sua mãe lhe deixou e que, ironia do destino, foi ganha pelo Capitão Wagner, candidato de direita derrotado na última eleição para prefeito da capital cearense. E ainda falta grana.

Há ligeiras contradições à vista. No sítio não tem sinal de TV a cabo, mas um enorme aparelho de televisão de plasma se destaca na sala; é utilizado pelo grupo para assistir filmes e documentários pela internet, que, sim, tem. Outra: a ideia do grupo é viver sem dinheiro, mas sempre que é preciso levantar algum, já que não produzem ainda tudo o que necessitam para a subsistência, se recorre à aposentadoria de um dos membros, como Rosa, ou a doações. Pergunto a Ronaldo Alexandre, de 56 anos, que vive ali perto com sua companheira Etelvina, da mesma idade, como fazem para se manter, e ele responde: “Etelvina trabalha” (ela é professora da rede pública). Passa pela minha cabeça a questão: já que têm uma terra onde podem plantar, para quê viver sem dinheiro? Não seria mais sustentável praticar comércio justo? Dilemas da fuga do capitalismo.

A independência ideológica do grupo sempre irritou os partidos, inclusive os de esquerda, e os afastou dos movimentos sociais. Agitador por natureza, o Crítica Radical é uma espécie de precursor dos “escrachos” e, onde quer que eles vão, arrumam confusão. Em 1989, jogaram ovos no então candidato Fernando Collor, levando-o a pronunciar o famoso discurso do “eu tenho aquilo roxo”; em 2004, enfiaram uma torta na cara do então ministro do Trabalho e Emprego, Ricardo Berzoini; em 2006, na Venezuela, arrumaram encrenca com os chavistas ao comparecer ao Fórum Social Mundial com uma faixa onde estava escrito “Nem Bush nem Lula nem Chávez”.

Rosa, a crítica radical

Se são contra eleições e partidos, questiono os membros do grupo o que, então, os diferencia dos anarquistas. “Os anarquistas não falam em fim da política, têm um discurso contra o Estado, mas até de uma forma romântica”, responde Rosa. “Nós nos definimos como emancipacionistas”. E para a sociedade, qual a contribuição que vocês pretendem dar? “Uma experiência que seja referência para uma sociedade independente da mediação do dinheiro. É dramática a situação do planeta e sabemos que não será resolvida pelo capitalismo, um sistema fetichista patriarcal produtor de mercadorias, nem pelo socialismo. Nosso desafio é enorme.”

 

 


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Ricardo Schmitt em 17/09/2017 - 19h20 comentou:

Minhas queridas Maria Luiza e Rosa … vcs me enchem de orgulho, por suas posições e crenças sempre tão saudáveis. Acompanho-as desde minha chegada ao Ceará onde ficaria por três meses, hoje já naturalizado passaram-se 40 anos. Acredito piamente neste retorno a terra-mãe onde com carinho e dedicação todos serão felizes. Obrigado pelo maravilhoso exemplo que muito breve gostaria de participar pois estaria voltando as minhas origens. Bjus e sucesso nesta nova empreitada social.
Ricardo Schmitt
(sugiro p/ melhor comunicação Whatsapp e Menseger)

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