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Após 20 anos e muitos bilhões, a Pfizer admite que analgésicos opioides viciam

Enquanto a direita demoniza a maconha, os Estados Unidos estão vivendo uma epidemia de vício em uma droga “legal”, daquelas que se compram na farmácia: os analgésicos opioides, ou seja, derivados do ópio (natural ou sintético), como a morfina. As mais recentes mortes de artistas por overdose que vimos na mídia foram causadas não por […]

Cynara Menezes
13 de julho de 2016, 19h05
michael

(Michael, Prince, Brittany e Heath Ledger: mortos por overdose de drogas “legais”)

Enquanto a direita demoniza a maconha, os Estados Unidos estão vivendo uma epidemia de vício em uma droga “legal”, daquelas que se compram na farmácia: os analgésicos opioides, ou seja, derivados do ópio (natural ou sintético), como a morfina. As mais recentes mortes de artistas por overdose que vimos na mídia foram causadas não por substâncias “ilegais”, como a cocaína, mas por overdose destes medicamentos: os cantores Michael Jackson e Prince e os atores Heath Ledger e Brittany Murphy morreram por overdose de analgésicos opioides. Os números são brutais: apenas em 2014, 28 mil pessoas morreram nos EUA da mesma forma que estas celebridades. Nada menos que 76 pessoas por dia.

A devastação promovida pela indústria farmacêutica com estas drogas motivou ações judiciais de cidades inteiras contra os principais fabricantes, como ocorreu com Chicago. Finalmente, uma das empresas, a gigante Pfizer, resolveu se antecipar e anunciou que vai colocar nas embalagens dos remédios que eles causam dependência e que são absolutamente ineficazes após algumas semanas. A questão da eficácia, aliás, é o ponto-chave da questão: há pouquíssimos estudos que comprovam que analgésicos opioides de fato funcionam para enfrentar a dor crônica. Tudo pode ter sido apenas um truque para vender remédio que viciou multidões. Novas denúncias estão vindo à tona mostrando como a indústria farmacêutica publicou estudos com falsos grupos de pacientes e como comprou a opinião de médicos para avalizar os opioides.

Leiam este texto publicado no site Alternet que traduzi e adaptei para vocês sobre a epidemia dos opioides nos EUA e a decisão da Pfizer de admitir os riscos do medicamento. Além de muito esclarecedor, o artigo coloca em evidência a hipocrisia de uma sociedade que condena as drogas vendidas por traficantes enquanto compra na farmácia substâncias prescritas por médicos que causam dependência e levam à morte.

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pfizer

Por Martha Rosenberg, no Alternet

Não é segredo que os analgésicos opioides causam dependência inclusive quando usados como prescritos; por isso eram altamente restritos até bem recentemente. Também não é segredo a falta de evidência da utilidade do uso continuado de opioides para combater a dor crônica, apesar do marketing antiético da indústria farmacêutica.

Agora a Pfizer, a segunda companhia de medicamentos do mundo, concordou em colocar uma advertência para estas drogas perigosas que causam pelo menos 60 mortes por dia nos EUA. A Pfizer irá admitir que os opiáceos “trazem sério risco de causar dependência –mesmo quando usados apropriadamente”, publicou o Washington Post. A empresa também promete “não promover opiáceos para usos não comprovados, como dor nas costas crônica. A empresa admite ainda que não há comprovação da eficácia dos opioides após 12 semanas de uso”.

As revelações e advertências da Pfizer não são um mea culpa. A cidade de Chicago processou cinco fabricantes de opiáceos em 2013 –Johnson & Johnson, Purdue Pharma, Teva Pharmaceutical Industries, Endo Health e Actavis–, mas a Pfizer não era uma delas. A Pfizer, que vende um analgésico opioide, não aparece no processo, e não há admissão de delito.

Em vez disso, a Pfizer está voluntariamente elaborando um código de venda de opiáceos, disse um porta-voz da empresa, porque considera o mau uso de opioides um “problema de saúde pública”, e está “feliz por se colocar ao lado deles (Chicago) para garantir que os analgésicos estão sendo comercializados de forma responsável. Nós queremos garantir que as pessoas que realmente precisam deles os consigam”. O código reflete as políticas de marketing atuais da Pfizer, disse o porta-voz, e segue os programas de controle de risco da FDA (Food and Drug Administration) para opioides de liberação prolongada e de uso continuado.

A Pfizer produz e vende o analgésico opioide de liberação prolongada Embeda, que não é tão responsável pelo vício epidêmico em opioides como o OxyContin, o opioide de longa duração da Purdue (associado às mortes de Michael Jackson, Prince e Heath Ledger).

A ação judicial de Chicago e outras semelhantes nos condados de Santa Clara e Orange, na Califórnia, acusam os fabricantes de conspirar durante duas décadas para obter lucro com a venda de opiáceos, além de disseminar informações médicas enganosas que subestimaram o vício e de mentir sobre a eficácia do uso continuado de opioides. As municipalidades acusam os fabricantes de opioides de criarem falsos grupos de “pacientes” que clamavam por mais opioides e de comprar a opinião de médicos respeitados. Os planos de saúde de Chicago gastaram milhões de dólares em opioides, que a cidade afirma terem sido inapropriadamente prescritos aos funcionários municipais.

Ineficácia contra dor crônica

Como o AlterNet recentemente noticiou, a indústria farmacêutica sacudiu o mercado de dor crônica vendendo opioides, apesar de sua ineficácia. “Após mais de uma década do boom do uso de analgésicos narcóticos para combater a dor crônica, continua escassa ou inexistente a sólida evidência da eficácia destas drogas”, publicou John Fauber, do the Journal Sentinel.

Uma década depois de a indústria farmacêutica prometer a médicos e pacientes que os opioides são bons e necessários para a dor crônica, duas pesquisas patrocinadas pelo governo no Annals of Internal Medicine em 2015 revelaram que há poucos estudos mostrando alívio na dor crônica em curto prazo e quase nada no uso continuado.

Como a Pfizer agora admite, não há “pesquisa positiva sobre a eficácia dos opioides” além de 12 semanas. E não é só isso. Os opioides podem na verdade piorar as dores, diz Richard W. Rosen’quist, da clínica Cleveland, um fenômeno chamado “hiperalgesia induzida por opioides” (OIA, na sigla em inglês).

“Tratei pessoalmente de pacientes que estavam aterrorizados de desmamar seus opioides porque tinham medo que a dor voltasse, até que descobriram que tinham menos dor sem eles”, escreve Sridhar Vasudevan em Multidisciplinary Management of Chronic Pain, que oferece muitos tratamentos não-cirúrgicos e sem opioides para a dor crônica.

Muitos pacientes com dor crônica sem malignidade ou sem estarem em estado terminal beberam dessa poção mágica. O problema real é a “desinformação” da mídia em relação aos opioides, para deleite da indústria farmacêutica. Eles não lembram que, 20 anos atrás, antes do marketing, ninguém tinha ouvido falar de tratar dor crônica com narcóticos.

As vítimas dos opioides não são apenas jovens que partem para a heroína após não conseguir opioides. Pacientes mais velhos também são afetados pela febre dos opioides. “Cérebros e corpos mais velhos são mais sensíveis às complicações com as drogas, desde quedas e problemas respiratórios até problemas cognitivos e demência”. “Como corpos mais velhos metabolizam as drogas menos rapidamente, estas medicações tendem a se acumular no seu organismo”, diz um estudo publicado em 2014.

A Pfizer está certa e poderia ser parabenizada por admitir que opioides viciam e que não funcionarão após algumas semanas –se isso não fosse um fato conhecido durante todos estes 20 anos de epidemia em opioides.

Martha Rosenberg é repórter investigativa na área de saúde e autora de “Born With a Junk Food Deficiency: How Flaks, Quacks and Hacks Pimp the Public Health (Random House).”

 

 


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