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Por que a personagem anã de O Outro Lado do Paraíso foi uma decepção

Para jornalista, Walcyr Carrasco desperdiçou a chance de debater o tema ao retratar Estela como interessada apenas em arrumar homem

A atriz Juliana Caldas como Estela em O Outro Lado do Paraíso. Foto: divulgação
Pedro Henrique França
12 de maio de 2018, 11h46

Quando soube que a novela das 9 da Globo, O Outro Lado do Paraíso, teria a história de uma anã rejeitada pela mãe, fiquei curioso. Pela primeira vez, eu assistiria no horário nobre uma anã fora do circo ou dos programas de humor rasteiros do nível do Pânico ou do Gugu. Nunca imaginei ver isso.

Quando criança, fiz teatro. Fiquei em cartaz dois meses. Mas entendi logo que aquilo não me levaria a lugar algum. Ou melhor, entendi quando um dia, numa festa infantil, um senhor me deu um cartão com seu telefone e pediu para ligar pra ele, que eu tinha “talento pra TV”.

Tanta coisa ali a se explorar. Tantos contornos de uma vida que invariavelmente te joga na cara a sua condição fora dos padrões. Uma pena

No dia seguinte, liguei. Era um produtor do Domingo Legal (sim, do Gugu), a fim de explorar minha vida de cabeça pra baixo na linha daqueles programas que a gente vê até hoje. Foi uma catarata de água fria.

Durante toda minha vida, só tinha visto anão no Brasil em programas de exploração de drama alheio ou de humor escatológico –ao contrário dos Estados Unidos, em que temos o avassalador Peter Dinklage, um astro de Hollywood, premiado com Emmys e Globo de Ouro por Game of Thrones.

O ator Peter Dinklage em Game of Thrones

Por isso, pelo ineditismo por aqui, me interessei pela novela e sobretudo pelo tema. Uma anã vivendo numa dramaturgia aquilo que faz parte da tua identidade: a rejeição. Assim como o preconceito, você lida com a rejeição antes mesmo de saber seu real significado. Resta aprender a lidar com isso. E só a vida quem diz.

Arrisco dizer que quem é obeso, negro inserido em meios sociais brancos (especialmente no sudeste/sul do país) ou tem down ou qualquer outro indíviduo num estereótipo fora do “normal” entenda melhor o que quero dizer. O establishment da estética padronizada. A rejeição no estado de existir.

Estela tinha uma única amiga, a empregada que só pensa em arrumar um boy pra pobre coitada. Olhava aquilo e pensava: como uma garota que passou tantos anos estudando fora continua tão frágil? É sério que o drama da vida dela é arrumar homem?

A porrada começa cedo. Meninos te apontando, rindo da sua cara, criando “apelidos”. É na educação física, em que ninguém quer te escolher (e te faz buscar atestado médico para ser dispensado). É também nas brincadeirinhas de pêra-uva-maçã-salada mista em que as meninas ficam #xatiadas quando o “escolhido-foi-você” (mesmo que no fundo você já soubesse que pra você também era constrangedor beijá-las. E não tenho dúvidas que demorei a sair do armário pra evitar mais um bullying).

Um dia, no começo da novela ou antes dela ir ao ar, li uma entrevista da atriz que interpreta a Estela, Juliana Caldas, falando que os apontamentos das crianças eram o que mais a incomodava. Fiquei otimista como ela conduziria essa personagem –o fato citado por ela é uma realidade (e pais, por favor, não fiquem sem saber como lidar, eduquem seus filhos desde cedo a lidar com as diferenças).

Mas o que vi em O Outro Lado do Paraíso não correspondeu às expectativas. Ao contrário. A dramaturgia de Estela foi um desperdício. Sua personagem boba, ingênua, tinha uma única amiga, a empregada doméstica que só pensa em arrumar um boy pra pobre coitada. Olhava aquilo e pensava: por quê? Como uma garota que passou tantos anos estudando fora continua tão frágil, apática? É sério que o drama da vida dela é arrumar um homem?

Tanta coisa ali a se explorar. Tantos contornos de uma vida que invariavelmente te joga na cara a sua condição fora dos padrões. Uma pena. Walcyr Carrasco poderia, no mínimo, ter aprendido com sua antecessora, Gloria Perez, que costuma tratar com razoável sensibilidade e profundidade os temas delicados. Me causa estranheza visto que a própria atriz que a interpreta poderia servir de fonte para seus escritores. Não consigo entender.

O jornalista Pedro Henrique França

Tempos atrás, uma ex-colega do Estadão, Cris Padiglione, me escreveu para pedir autorização para me citar num artigo como exemplo de alguém que lhe parecia muito longe daquela personagem. Se a Estela existe? Pode ser que sim. Mas o novelista poderia ao menos prestar algum serviço social ao abordar um tema inédito na dramaturgia.

É claro que a dramaturgia tem e precisa de liberdade. E que esse cerceamento do politicamente correto precisa ser mais ponderado. Mas nesse caso é difícil engolir, pois se desperdiçou uma excelente oportunidade de se discutir ali uma questão que a sociedade ainda tem muita dificuldade em entender, lidar, conviver, aceitar. Sem te apontar, sem rir, sem rejeitar.

Se desperdiçou uma excelente oportunidade de se discutir ali uma questão que a sociedade ainda tem muita dificuldade em entender, lidar, conviver, aceitar. Sem te apontar, sem rir, sem rejeitar

Outras pessoas, no entanto –e graças a essa novela–, continuam a entender essa e outras situações pinceladas na novela (de racismo, machismo e relacionamento homoafetivo com uma espécie de cura gay) como a piada de sempre.

No último carnaval, me chamaram de Estela, dando risadas, pelo menos umas três vezes. Faz sentido. A novela é um sucesso de audiência. E boa parte do Brasil tem voltado a achar graça de questões que nunca foram piada. Deve haver algo de errado comigo: eu não consigo rir.

Pedro Henrique França é jornalista, roteirista, gay e mede 1,42m.

 


(6) comentários Escrever comentário

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Homero Mattos Jr. em 12/05/2018 - 12h13 comentou:

a TV brasileira espelha e reflete o entorno de seus concessionários:
mediocridade & cafonice cintilantes.
até mais não poder.

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Maria helena em 12/05/2018 - 18h23 comentou:

Texto lindo! Grande oportunidade perdida, neste mundo pequeno, de pessoa tão grande!

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Adolfo Neto em 12/05/2018 - 21h17 comentou:

Ótimo texto.
Já tive um aluno anão.
Não percebi nenhuma gracinha dos colegas com ele.

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Mellka em 13/05/2018 - 08h07 comentou:

Vai levar muitos anos para q a nossa sociedade brasileira entenda as diferenças, até pq a ignorância é arraigada, vejo pessoas estudadas com atitudes do senso comum e pessoas q assim como eu, ñ aceitamos tais atitudes como o preconceito, o bullying, a opressão, a injustiça e a falta de RESPEITO pelas pessoas, animais, pelas coisas… A falta de RESPEITO, sobretudo!
Tbm tive esse msm pensamento sobre o papel da Estela e ñ consegui entender como ela ñ se opôs com relação a atitude de todos a sua volta e até dela msm com relação a sua segurança enqto uma mulher madura e estudada!

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    Sergio em 15/05/2018 - 14h00 comentou:

    Ponha anos nisso! Porque quem educa nosso povo é a Globo!

Sergio em 14/05/2018 - 13h49 comentou:

Vou vomitar… Rede Globo!!!!

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