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Temer ganhou, mas será que levou?

O número alcançado pelo Palácio do Planalto não é suficiente para aprovar a "reforma" previdenciária, que precisa de 308 votos favoráveis. O momento parece propício para a oposição chamar o povo às ruas

Tudo joia para Temer. Ou não. Foto: Valter Campanato/Agência Brasil
Katia Guimarães
03 de agosto de 2017, 11h58

Temer ganhou e o pedido de investigação foi arquivado, mas o “teste” no plenário indica que o governo poderá não aprovar a “reforma” da Previdência. Essa é a análise não só da oposição, mas de parte da base aliada na Congresso Nacional sobre o resultado da votação da denúncia contra o presidente –isso porque a diferença entre os votos favoráveis e contra foi de menos de 40 votos. Os deputados aprovaram por 263 a 227 o relatório que recomendou a rejeição da denúncia de corrupção passiva da Procuradoria-Geral da República contra o presidente. Nem mesmo o descaramento na compra de votos garantiu uma larga vitória.

O clima de meia vitória foi bem retratado, logo após o resultado final, por um deputado da base governista que comentou: “nos safamos, mas não sei onde vamos parar”. O problema é que o número alcançado pelo Palácio do Planalto não é suficiente para aprovar a “reforma” previdenciária, que precisa de 308 votos favoráveis. Apesar de outras agendas neoliberais, como o perdão das dívidas dos ruralistas e o programa de demissão voluntária dos servidores públicos, terem grandes chances de passar, a aprovação de uma emenda constitucional, como é o caso da Previdência, mede o poder do governo sobre o Legislativo.

No mesmo dia em que a Câmara tirou a corda do pescoço de temer, o procurador-geral da República pediu ao STF a inclusão do presidente no rol de investigados de um inquérito já instaurado contra o PMDB

Temer tem pela frente duas coisas com o que se preocupar: por um lado, outras denúncias são esperadas –duas envolvendo a delação do dono da JBS, Joesley Batista, por organização criminosa e obstrução à justiça. E, para completar, no mesmo dia em que tirou a corda do pescoço, o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, pediu ao Supremo Tribunal Federal (STF) a inclusão do presidente no rol de investigados de um inquérito já instaurado contra o PMDB na Câmara no caso da Operação Lava-Jato –os ministros da Casa Civil, Eliseu Padilha, e da Secretaria-Geral, Moreira Franco, também estão sendo arrolados no mesmo processo.

Se a quarta-feira foi tensa para o governo, a perspectiva de um cenário com novas denúncias para derrubar pode ser devastador para um presidente já combalido e impopular, diz a oposição. Deputados oposicionistas acreditam que uma segunda votação tem poucas chances de prosperar, principalmente se comover as ruas. Só o povo salva! Outro ponto que causa tão ou mais dor de cabeça ao Palácio do Planalto é o racha na base aliada –houve dissidências de todo o lado, mas o PSDB ganha destaque, não só porque garantiam 47 deputados para o governo como tem quatro ministros na Esplanada dos Ministérios, cargos cobiçados pelos aliados nanicos, que foram bem mais fiéis.

Os tucanos são daquele jeito que a gente conhece, ficaram em cima do muro –cada metade da bancada votou para um lado. Não que os 50% que queriam o afastamento de Temer estejam preocupados com o país, ao contrário. Eles estão por trás de todas as medidas neoliberais tomadas até agora e se, em uma análise futura, o PSDB enxergar que o presidente pode ser uma pedra no caminho nos seus planos, poderá rifá-lo de vez, com o apoio da Globo. Ou exigir cada vez mais cargos e poder dentro do governo.

O presidente da Casa, Rodrigo Maia (DEM-RJ), alertou o governo: ou se acerta com os tucanos, ou as reformas correm risco

Logo que saiu a delação de Joesley, um dos mais experientes deputados da Casa, Miro Teixeira (PSB-RJ), que está no 11º mandato, afirmou: “se o PSDB desembarcar do governo, Temer cai”. Por meio dos jornalistas, o presidente da Casa, Rodrigo Maia (DEM-RJ), alertou o governo: ou se acerta com os tucanos, ou as reformas correm risco. Maia, potencial sucessor de Temer, também se queixou de “truculência” dos assessores do presidente, o que indica uma dissonância e possível traição à vista. “Não posso negar que atos de alguns assessores do presidente foram truculentos. Nunca pensei que fossem jogar tão baixo comigo”, queixou-se o presidente da Casa à Globo, atual inimiga de Temer.

Um dos artífices das nefastas terceirização e “reforma” trabalhista, o deputado carioca costuma receber empresários e investidores em seu gabinete e não tem nenhum pudor em defender o capital. “Não adianta a gente se enganar que para ter 308 votos sem reorganizar a base a gente não vai conseguir, vou trabalhar e acho que o governo vai fazer o mesmo, para que a gente possa recompor com todos os partidos da base, porque uma Reforma da Previdência precisa do apoio firme por parte do Poder Executivo e como sou um defensor da Reforma da Previdência porque entendo que ela acaba com privilégios na defesa do cidadão comum”, disse Maia, esquecendo dos enormes privilégios do Legislativo, Judiciário e do Ministério Público.

O recado atravessou a Praça dos Três Poderes rapidamente e um triunfal porém não sorridente Michel Temer surgiu no Planalto após a vitória para falar sobre a votação. Era preciso disfarçar que estava contrariado com os votos aquém do esperado e agradecer seus aliados publicamente. Para agradar o mercado financeiro, um totem endeusado pela elite dominante, o presidente afirmou que vai dar continuidade à votação das reformas e prometeu colocar as contas do governo em dia, sem mencionar que o governo tem uma conta a pagar e o rombo pode aumentar com uma iminente mudança do déficit fiscal.

Por fim, o presidente pregou a união pelo país, apelando para um discurso piegas: “Quero construir com cada brasileiro um país melhor, pacificado, justo, sem ódio ou rancor. Nosso destino inexorável é ser uma grande nação. É preciso acabar com os muros que nos separam e nos tornam menores. É hora de atravessarmos juntos a ponte que nos conduzirá ao grande futuro que o Brasil merece”.

Cartazes, com o mapa da votação e a cara dos deputados, serão espalhados por todo o país e nas redes sociais para expor os golpistas e apoiadores do presidente

O momento parece propício para a oposição, que batalhou durante todo o dia pela aprovação da denúncia e agiu de forma coesa –para quem tem menos de 100 votos na Casa, o número conquistado (227) revela que pode ser possível mobilizar a sociedade pela queda de Temer. Alguns dos sinais foram dados pelos deputados Sérgio Reis (PRB-SP) e Tiririca (PR-SP), que votaram a favor do golpe contra a presidenta Dilma e mudaram de posição, votando pela denúncia contra Temer. O cantor revelou a seus colegas ter recebido inúmeros e-mails pedindo que ele votasse a favor da investigação e divulgou uma nota explicando sua posição.

Cartazes, com o mapa da votação e a cara dos deputados, serão espalhados por todo o país e nas redes sociais para expor os golpistas e apoiadores do presidente. A partir de amanhã, a promessa da oposição é fustigar o governo e aliados, instigando o eleitor a cobrar dos deputados em suas bases eleitorais o porquê do voto em Temer, um presidente reprovado por 95% da população. O fosso entre Congresso e o povo brasileiro é cada vez maior e o eleitor vai cobrar caro nas eleições de 2018. Na análise da oposição, mudou a realidade institucional e a maioria confortável que o governo tinha no Congresso, e espera-se tempos ainda mais turbulentos.

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Zé biteco em 04/08/2017 - 10h31 comentou:

Muito bem.

Responder

Zé biteco em 04/08/2017 - 10h31 comentou:

Ótimo.

Responder

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