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Trump ordena a retirada de 15 diplomatas da embaixada norte-americana em Havana

Presidente dos EUA usa como desculpa supostos "ataques sonoros"; ministro das Relações Exteriores de Raúl Castro diz que Cuba jamais atacou diplomatas de nenhum país,"sem exceção"

Obama encontra Raúl Castro em abril de 2015. Foto: Pete Souza/Casa Branca
Cynara Menezes
03 de outubro de 2017, 23h51

Foi só Donald Trump assumir que começou o retrocesso nas relações entre Estados Unidos e Cuba, reatadas dois anos atrás, no governo Barack Obama. Hoje o presidente norte-americano ordenou a retirada de 15 diplomatas de seu país em Havana, o correspondente a dois terços de todo o pessoal da embaixada. E, como medida de “proporcionalidade”, expulsou 15 funcionários cubanos do país. Trump está usando a desculpa de supostos “ataques sonoros” que afetam a saúde dos diplomatas, embora, em um feito inédito, o líder cubano Raúl Castro tenha permitido a entrada do FBI para investigar o caso.

Em coletiva de imprensa, o ministro das Relações Exteriores, Bruno Rodríguez Parrilla, negou com veemência o envolvimento de autoridades cubanas nos tais ataques. “Cuba jamais perpetrou nem perpetrará ataques de nenhuma natureza contra diplomatas nem seus familiares, sem exceção. Também não permitiu nem permitirá que seu território seja utilizado por terceiros com este propósito”, declarou.

Até agora nada foi descoberto sobre os supostos “ataques sonoros” que afetam a saúde de diplomatas dos EUA e também do Canadá

O chanceler cubano contou ter informado ao secretário de Estado Rex Tillerson que “Cuba foi vítima, no passado, de atentados contra membros de sua diplomacia, assassinados, desaparecidos, sequestrados no exercício de suas funções, e cumpre com toda a seriedade e rigor suas obrigações na Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas de 1961, no que se refere à proteção da integridade dos diplomatas credenciados no país, com um histórico impecável”.

Parrilla rebateu as acusações do governo norte-americano de que as autoridades cubanas “não adotaram as medidas necessárias” para prevenir o problema, e afirmou que a decisão foi “eminentemente política”. “Com estas ações politicamente motivadas e irrefletidas, o governo dos EUA é responsável pela deterioração presente e provavelmente futura das relações bilaterais”, disse. Segundo ele, o governo de Cuba reforçou as medidas de proteção aos diplomatas, seus familiares e residências e criou uma comissão de especialistas formada por médicos, policiais e cientistas.

Até agora nada foi descoberto sobre a enfermidade que afeta os diplomatas dos EUA e também alguns do Canadá, além de seus familiares, que passaram a sentir dores de cabeça, náuseas, pequenas lesões cerebrais e perda definitiva da audição, que teriam sido causados pelos supostos ataques sonoros. No total, 21 pessoas relataram sintomas. O ministro cubano criticou que os investigadores do país não puderam ter acesso aos locais afetados, ou seja, às residências dos diplomatas, porque foram impedidos pelos norte-americanos. O governo dos EUA também não quis encontros entre os médicos de ambos países que investigam a misteriosa doença.

A própria imprensa anticastrista em Miami aponta dúvidas sobre o envolvimento do governo cubano nos ataques sonoros

Na coletiva, o ministro disse, inclusive, que o termo “ataques” só passou a ser utilizado pelo secretário de Estado Tillerson em correspondência de quatro dias atrás. O chanceler revelou que, desde que Trump expulsou dois diplomatas cubanos dos EUA, em agosto, em virtude de “incidentes” sobre os quais não se aprofundou então, e agora com a expulsão de mais 15, a representação do país está em “extraordinária precariedade”, com apenas um funcionário. Parrila informou que o governo cubano continua colaborando com a diplomacia canadense na investigação.

A própria imprensa anticastrista em Miami aponta dúvidas sobre o envolvimento do governo cubano nos ataques sonoros que os EUA afirmam ter vitimado seus diplomatas em Havana. Na semana passada, o jornal El Nuevo Herald informava, baseado em fontes na Casa Branca, que o governo norte-americano “não acredita que Cuba esteja por trás dos ataques sonoros”. “Ninguém crê que os cubanos sejam responsáveis”, afirmou uma fonte do governo Trump ao jornal.

Em artigo publicado na página de opinião, a jornalista Fabíola Santiago, uma das fundadoras do diário, diz que a ameaça do presidente dos EUA de retirar a embaixada de Havana é “um erro estratégico e um grande passo para trás”. Ela criticou o senador cubano-americano Marco Rubio por ter ido pedir a Trump o fechamento da embaixada. “A resposta de Rubio é o movimento tipicamente reacionário para o consumo de Miami”, escreveu a jornalista. “A maioria dos cubano-americanos, entre eles notáveis republicanos, aplaudiu a política de distensão do presidente Barack Obama, inclusive com seus resultados limitados, precisamente pelo acesso que possibilitou à ilha.”

Para Fabíola, “quem quer que seja responsável pelos terríveis e misteriosos ataques sonoros contra os diplomatas norte-americanos e suas famílias em Havana queria uma coisa só: que os norte-americanos vão embora de Cuba”.

OPINIÃO: 

O retrocesso nas relações entre Cuba e Estados Unidos e o clima de “nova guerra fria” entre os dois países é uma lição para uma parcela da esquerda que afirmava que Barack Obama e Donald Trump são “a mesma coisa”. Quando Obama saiu, publiquei um artigo defendendo que ele e sua mulher, Michelle, eram o melhor que os EUA tinham a oferecer ao mundo. Entenda: não é que Obama tenha sido perfeito, mas de lá não sairá nada melhor do que ele, foi o que escrevi. E fui atacada por setores da esquerda, para quem Trump seria “mais do mesmo”.

Não se pode comparar Obama, um liberal no melhor sentido do termo, um homem civilizado, com um facínora como Donald Trump

Como Darcy Ribeiro escreveu após o golpe contra Salvador Allende no Chile, em 1973, existe uma “esquerda desvairada” que se comporta com açodamento e fora da realidade. E esta esquerda desvairada não consegue enxergar as coisas com a lucidez que o momento exige. Não se pode comparar Obama, um liberal no melhor sentido do termo, um homem civilizado, com um facínora como Donald Trump. Assim como há esquerdaS, também há direitaS. E Trump faz parte da pior direita do mundo, conservadora, fanática, falsa moralista, homofóbica, racista.

Eu vaticinei naquele artigo que ainda iríamos sentir saudades de Obama. Este tempo já começou.

 

 

 

 


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