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Cultura

Uma viagem à Venezuela de Chávez

Em dezembro de 2007, fui cobrir o referendo a que Hugo Chávez submeteu o país para tentar aprovar reformas radicais na Constituição. Me orgulho de dizer que CartaCapital foi o único veículo brasileiro a alertar que Chávez poderia perder o referendo –como de fato perdeu. Alguns jornais daqui chegaram a dar em manchete que ele […]

(foto AVN)
Cynara Menezes
07 de outubro de 2012, 04h09

(foto AVN)

Em dezembro de 2007, fui cobrir o referendo a que Hugo Chávez submeteu o país para tentar aprovar reformas radicais na Constituição. Me orgulho de dizer que CartaCapital foi o único veículo brasileiro a alertar que Chávez poderia perder o referendo –como de fato perdeu. Alguns jornais daqui chegaram a dar em manchete que ele iria ganhar…

Nessa matéria, explico por que Chávez foi bom para a Venezuela e quais são as críticas que se podem fazer a ele como governante. Elas continuam válidas. Se hoje ele for reeleito será por suas qualidades; se perder, será por seus defeitos. É um texto longo, mas extremamente honesto, garanto. Vale a pena lê-lo se você quer conhecer a realidade venezuelana.

O desafio do comandante

Na noite de quinta-feira 29 de novembro, a oposição ao governo chavista tomou a avenida Bolívar, a maior de Caracas, para o comício final contra a reforma proposta pelo presidente. Pelo visto, Chávez subestimou o poder de mobilização dos estudantes e da classe média mais conservadora. Já se falava em uma abstenção de 40%, ou pouco mais, superior à votação a favor ou contra.

O ni-ni (nem chavistas nem oposição) poderia definir o referendo. Segundo fontes do próprio governo, os sufrágios a favor iriam um tanto acima de 30%, e os contra não passariam de 20%. Ultrapassados pela porcentagem de abstenção, colocariam em xeque o resultado e levariam a um impasse.

Em 2001, quando começaram as primeiras, tímidas manifestações de protesto ao governo, Hugo Chávez cunhou o depreciativo “esquálidos” para designar os que marchavam contra ele, porque eram poucos. O termo grudou na oposição como broches de Che Guevara nas camisetas vermelhas dos chavistas. Mas a reação à reforma constitucional proposta por Chávez mostra que algo mudou. O presidente não conseguiu transformar a enorme popularidade em uma votação maciça a favor da reforma que dá o segundo passo em direção a seu “socialismo do século 21”. Mesmo que ela seja aprovada no referendo de domingo – as últimas pesquisas indicam um empate –, o desafio do comandante será impedir que os esquálidos ganhem corpo.

Com o bombardeio crescente da mídia, muitos venezuelanos ficaram com medo de dar o salto ao socialismo de Chávez e se lançar no escuro. Itens indiscutivelmente positivos da reforma, como a jornada de trabalho de seis horas, a aposentadoria para todos os trabalhadores (inclusive os da economia informal) e o fim dos latifúndios, acabaram obscurecidos pelas propostas ousadas de reeleição indefinida e mudanças na economia, como a perda de autonomia pelo Banco Central. Ao ponto de a oposição apelidar os artigos de forte apoio popular de “caramelos de cianureto”, como se Chávez estivesse apenas utilizando as coisas boas para aprovar o que realmente queria.

Na verdade, embora internacionalmente a reeleição tenha sido o item que suscitou mais polêmica, dos 69 artigos da reforma constitucional o que mais assustou o venezuelano em si foi o 115, sobre a propriedade. Pelo novo texto, a expressão simplificadora “fica garantido o direito de propriedade” é substituída por conceitos mais complicados, como “propriedade coletiva”, “propriedade social” e “propriedade mista”. A mídia esquálida bem fornida e os oposicionistas se aproveitaram da confusão na cabeça do eleitor para difundir o terror, afirmando que Chávez pretende se amparar na Constituição para acabar de vez com a propriedade privada.

“Com a reforma constitucional poderão tirar o que é seu”, alardeavam os panfletos anti-reforma que circulavam na Caracas pré-referendo. De certa maneira, com a redação deste artigo, somado ao das reeleições sucessivas, Chávez deu munição aos que o acusam de levar o país para um caminho semelhante à Cuba de Fidel Castro, razão de ojeriza de 82% dos venezuelanos, chavistas ou esquálidos. Um temor injustificado, de acordo com os analistas mais sérios do país.

“Seria injusto afirmar que Chávez pretende adotar o comunismo cubano e que deseja ser o rei da Venezuela. Eu pessoalmente sou contra a reeleição indefinida, mas não se pode dizer que não seja um ato democrático. Quem quiser reelegê-lo, que o reeleja”, opina o economista Luis Vicente León, diretor do respeitado instituto de pesquisas Datanálisis. A questão é outra, segundo o pesquisador. Num país onde a desigualdade social é enorme, Chávez optou por polarizar ainda mais o conflito entre “ricos” (oposição) e “pobres” (chavistas), por um lado, e, por outro, não parece disposto a tolerar críticas. “As conseqüências deste modo de governar são enormes”, adverte León.

É o que se vê nas ruas de Caracas. Discutir política sempre foi o esporte nacional, ao lado do beisebol, mas agora há hooligans. Basta uma voz se levantar contra o governo para que se instale o bate-boca em bares, praças e até em vagões lotados do metrô. O presidente ensinou os seguidores a desprezar quem pensa diferente. Os estudantes que fizeram manifestações contrárias à reforma, por exemplo, foram chamados por Chávez de “burgueses” e “filhinhos de papai”, e seus protestos, reprimidos pela polícia. Como se em todo o mundo não fosse a mais normal das atitudes estudantis o “hay gobierno, soy contra”, e reprimir, a pior das estratégias.

Um dos resultados disso é que o campus da Universidade Central da Venezuela, um dos mais belos e arborizados da América do Sul, teve suas paredes pichadas por chavistas radicais com dizeres contra os manifestantes e ameaças ao reitor. Situada ao lado do Jardim Botânico de Caracas, a UCV é um projeto do arquiteto venezuelano Raúl Villanueva e foi declarada patrimônio cultural da humanidade pela Unesco. No corredor da faculdade de Ciências Humanas, Bruno Perone, estudante de Ciências Políticas de 19 anos, baixinho, magrelo, pára diante da moça que vende broches e, aparentando indecisão, acaba levando dois que dizem No à reforma constitucional.

O pai de Bruno é médico e a mãe, dona-de-casa. Ambos votaram em Chávez, mas não querem a reforma. Bruno explica suas razões. “O discurso dele é muito violento, incita ao ódio. Como se as pessoas que têm melhores condições fossem inimigos a combater. Não posso nem usar uma roupa boa que sou apontado na rua como burguês”, reclama. Outra menina, Carla Chacon, de 22 anos, estudante de contabilidade, se aproxima para opinar. Seu pai é vigilante aposentado. Sua mãe, enfermeira. Ambos eleitores de Chávez. Ambos contra a reforma, como a filha. “Vou votar ‘no’ porque não gosto de ser agredida. Na diversidade de pensamento é que se constrói um país.”

As primeiras manifestações estudantis começaram em maio, em protesto contra o fim da concessão da RCTV, de oposição a Chávez. Os estudantes acusam a polícia de ter invadido então a Universidade de los Andes. Constitucionalmente, estão previstas a inviolabilidade do recinto universitário e a autonomia das universidades públicas. O suposto fim da autonomia, aliás, é um dos itens utilizados pela oposição para insuflar a revolta entre os estudantes, e não há nada no texto proposto que possa levar a crer nisso. Ao mesmo tempo, o artigo que prevê voto paritário para alunos e funcionários na eleição dos reitores, uma medida positiva reivindicada no Brasil há décadas pelo movimento estudantil, é apresentada como negativa pelos anti-chavistas.

O argumento dos líderes das manifestações repete o medo geral da cubanização. “Fui a Cuba e não é o que quero para meu país”, diz Rafael Rojas, presidente adjunto da Federação dos Estudantes da Universidade Central. “Nós, estudantes, preferimos o modelo de Lula ou de Michelle Bachelet, do Chile. A Europa cresceu com a social-democracia.” Até o monopólio das camisetas vermelhas pelos partidários de Chávez incomoda. “Eu gosto de vermelho e nem posso usar! Uniformizar as pessoas é fascismo”, reclama o estudante. Claro, o discurso soa um tanto inconsistente, o que não lhes impede o direito de sair por aí mostrando o que pensam.

Héctor Azócar, membro da juventude da Ação Democrática (Adeco), partido de oposição, declara que “um país dividido em dois não vai a lugar algum”, como se isso fosse culpa de Chávez e ignorando que há mais de 50 anos seja assim no país. Em Caracas, a cisão é visível até geograficamente. Do aeroporto até a Plaza Venezuela, justo ao lado da UCV, a cidade é triste, com seus cerros tomados por favelas. A partir dali, outra Caracas se descortina, com edifícios bonitos, ruas bem-cuidadas e policiadas. O trânsito infernal, onde ninguém respeita os semáforos nem a faixa de pedestres, é igual nas duas.

Emblematicamente, no bairro Las Mercedes, de classe alta, as ruas têm nomes como Paris, New York, Madrid ou Rio de Janeiro. Já nas vizinhanças de Catia, bairro pobre, são chamadas de Democracia ou Libertad. Espalhados por ali estão os 78 edifícios erguidos pelo ditador Marcos Pérez Jiménez entre 1954 e 1957, com projeto de Villanueva, o mesmo arquiteto da Universidade Central, e inspiração de Le Corbusier. Soa elegante? Não é. São feíssimos, e fazem parte da paisagem de Caracas. Situados no alto, de qualquer parte do centro para onde se olhe, vê-se algum deles, com sua pintura descascada e roupas penduradas nas sacadas, como se fossem treme-tremes reproduzidos em xerox.

Quando Jiménez os construiu, chamavam-se “2 de Dezembro”, para homenagear o dia em que deu o golpe em 1948. Quando caiu, em 23 de janeiro de 1958, os prédios foram rebatizados com a nova data. Nos blocos do 23 de Enero vivem hoje cerca de 75 mil pessoas. Ao redor, onde seriam as áreas verdes do projeto original, ergueram-se os barracos que hoje dão morada a outras 375 mil pessoas. Foi principalmente esta gente que deu suporte a Chávez para voltar ao Palácio de Miraflores quando lhe apearam do poder à força em 2002. De fora, parece que nada foi feito por eles, mas o governo acabou com as infiltrações que havia, colocou elevadores, gás encanado, e consertou as tubulações onde se deposita o lixo, que costumava voar morro afora.

Não à toa, de lá vêm o grupo de hip hop Área 23, que encontramos nas dependências da Ávila TV, espécie de MTV chavista instalada em um edifício do centro de Caracas. Voltada aos jovens caraquenhos, a televisão foi criada há um ano e meio pela prefeitura da cidade para difundir o socialismo bolivariano. Sua atuação nos dias que antecederam o referendo era criar esquetes rebatendo o discurso da oposição. Num deles, um homem chega à mercearia do bairro pobre e diz à dona da venda que a reforma constitucional vai lhe tirar a propriedade. Ela rebate e no final fala: “Que cheiro de enxofre!” O sujeito era o diabo. Essa associação é freqüente na Venezuela: para os chavistas, o diabo é a oposição e George Bush; para os esquálidos, é Chávez.

Embora toscos, os produtos da Ávila vêm gerando frutos. A TV também funciona como escola de audiovisual, e uma minissérie feita pelo canal, Atrapadas, filmada no Petare, favela mais populosa de Caracas, com diretor e atores de lá, se tornou um sucesso. Em versão pirata, foi o DVD mais vendido do ano – cada país tem seu Tropa de Elite que merece. O programa mais visto é Hojilla, uma mesa-redonda de discussões políticas. A junta diretiva, formada por jovens egressos do cinema, de rabo-de-cavalo e visual moderninho, é altamente politizada. Para eles, os estudantes que protestam são manipulados pelos professores. E ponto. “Somos um canal comprometido com a revolução”, define Maureen Riveros, uma das diretoras.

Pergunto aos rappers do Área 23 se são chavistas e eles respondem em coro: “Não, somos revolucionários. Apoiamos Chávez porque é revolucionário como nós”. Os raperos são bons de discurso, difícil não compará-los com os líderes estudantis. Keith Sánchez (a mãe dele adorava livros de cowboy, justifica o nome “imperialista”), o Chamán, tem 29 anos, e diz por que está do lado da revolução. “Sou o fruto de 40 anos de uma política excludente, eles me construíram assim. Agora somos maioria e faremos as coisas do nosso jeito”, explica. “Os outros presidentes só aceitavam migalhas. Chávez nos faz sentir que a Venezuela é importante, que pode reclamar ao mundo seus direitos”, completa Douglas Salas, o Dog, de 32.

Outro integrante do grupo, Andy Franco, de 22 anos, aprova a idéia de reeleger o comandante para completar o ciclo revolucionário. “O problema da América Latina é que os planos de desenvolvimento são interrompidos quando muda o governo. A única forma de concretizar esse plano é mantê-lo no poder até 2021. Ele é um humanista, um líder indiscutível, mas não é Chávez que queremos, o que queremos é capacitar-nos”, defende. Todos eles rebatem os estudantes que dizem ser vítimas de discriminação por parte dos chavistas. “Ao contrário, nós é que somos. Os ricos não gostam quando vamos a seus bairros, a não ser como cachifas (empregados). Somos parados pela polícia”, diz Dog, que é mestiço. “Na minha cara está inscrito ‘favela’.” Além disso, contam, a oposição discrimina Chávez, chamam-no “negro”, “zambo” (mestiço).

O processo de favelização de Caracas e das grandes cidades da Venezuela em geral teve origem nas decisões tomadas pelo governo ainda na década de 1930. Em vez de desvalorizar a moeda para proteger a agricultura, optou-se por importar tudo com o dinheiro do petróleo. Sem este incentivo, e como outras atividades permitiam ganhos maiores do que trabalhar no campo, começaram as migrações para os grandes centros. A partir de 1950, Caracas inchou e as primeiras favelas brotaram. Ao mesmo tempo, o governo dava grossos incentivos a empresas que pudessem se tornar alternativas para o país no caso de acabar o petróleo. O petróleo não acabou, mas as empresas tampouco prosperaram.

“O caso da Venezuela é como o de um péssimo empresário que aposta mal e quebra”, compara o economista Ronald Balza, professor da Universidade Católica Andrés Bello. No caso específico da capital, à medida que o centro decaía e os cerros eram tomados pelos ex-camponeses, agora favelados, surgiram as urbanizações como Las Mercedes, criadas para os que tinham melhor poder aquisitivo – daí a divisão geográfica marcada que acontece em Caracas.

Mesmo os críticos mais ferrenhos de Chávez reconhecem que seu governo conseguiu reduzir bastante o abismo entre pobres e ricos na Venezuela. De acordo com a Cepal (Comissão Econômica para a América Latina e Caribe), o número de pessoas em situação de pobreza caiu de 49,4% em 1999, quando Chávez assumiu, para 37,1% em 2005. Para fazer uma comparação, no período, no Brasil, o índice oscilou para baixo em apenas 1,2 ponto percentual. E o poder aquisitivo das classes D e E subiu 150%, o que pode explicar a falta de alguns produtos nos supermercados do governo nos últimos meses.

A outra razão é que, como os preços são controlados, os empresários estão escondendo os produtos – caso do leite e das caraotas, o feijão preto, elemento básico da alimentação venezuelana. É algo semelhante ao que aconteceu durante o Plano Cruzado no Brasil, em 1986, quando os preços foram congelados e a carne e o leite sumiram das prateleiras. Sabotagem, como acusam os chavistas. Há algumas semanas, o presidente da Confederação de Indústrias admitiu à BBC que muitos produtores de leite simplesmente pararam de ordenhar as vacas porque isso deixou de ser rentável.

O sumiço dos produtos alimentou o mercado negro e a mídia, mas no Megamercal instalado na avenida Bolívar, feira livre do governo realizada nos fins-de-semana, não faltava nada, de verduras a leite em pó, apesar das enormes filas. Cada pessoa podia levar apenas dois quilos de leite, mas a 4700 bolívares o pacote, contra 35 mil pedidos pelos bubuneros, os camelôs do mercado negro. “Que escassez é essa, com tanta comida?”, dizia a dona-de-casa Maria Garnica, três filhos, ironizando o noticiário. “Minha geladeira está cheia e tudo é mais barato. Estou feliz e ditosa com Chávez. Eu o amo”, exclamava outra, Maria Escolástica, oito filhos. Quase todos os produtos industrializados e as carnes eram importadas, sobretudo do Brasil, como o porco. A Venezuela segue produzindo pouquíssimo.

O Mercal (espécie de Cobal, supermercados do governo) é uma das misiones, projetos que englobam saúde, abastecimento, educação e assistência social que são o trunfo eleitoral de Chávez, responsáveis diretos pela melhoria na distribuição de renda. Mas há críticas à falta de obras de infra-estrutura. Muitas das favelas de Caracas ainda possuem esgoto a céu aberto, escorrendo morro abaixo. Também encontramos famílias vivendo no mais completo abandono em El Limón, a 20 km do centro da capital, em casas de madeira e lata, mais interessadas em emprego do que em reforma constitucional. Quase todos os homens se definiram como faz-tudo. Por outro lado, a reportagem de Carta Capital não viu nem sequer um menino de rua em Caracas. E mesmo as crianças desse lugar abandonado por Deus tinham escola.

Uma das ações de Chávez pouco conhecidas fora da Venezuela foi a troca de lâmpadas nas favelas. A idéia veio de Cuba. Antes, quando se olhava para os morros de Caracas, viam-se pontinhos amarelos. Há pouco mais de um ano, o governo entregou em cada casa uma lâmpada branca (fluorescente), mais econômica, em troca das lâmpadas amarelas (incandescentes), que gastam mais, o que proporcionou ao país reduzir o consumo em cerca de 1300 mega-watts por hora nos momentos de pico. Rapidamente, a oposição cuidou de espalhar o boato de que havia câmeras e microfones escondidos nas lâmpadas novas…

A despeito dos rumores, isto faz parte de um projeto do governo de revolucionar o uso de energia do país, o que inclui substituir por gás tudo nas casas que é alimentado por eletricidade, inclusive as lavadoras de roupa. Depois, serão os carros. Se hoje a gasolina na Venezuela é absurdamente barata (com menos de dois dólares se enche um tanque!), o gás veicular será quase de graça, promete o governo. Isto aconteceria nos próximos seis anos, quando pretendem transformar o país no principal exportador petroquímico da América Latina. Apesar de ser um grande produtor de petróleo, a petroquímica sempre foi um ponto fraco na economia venezuelana.

Outro favor positivo do governo Chávez é a conscientização da população. Os venezuelanos, mesmo os mais carentes, procuram saber tudo sobre as decisões dos políticos. No mercado de turístico de La Guaira, município vizinho a Caracas, um homem passa vendendo leis. Por uma ironia hilária, é foragido da Justiça e não quer dar entrevista, mas há outros espalhados pelo centro da capital, como Ronald Valero. Ele vive há sete anos como camelô de leis. Alguém pode imaginar isso no Brasil? Pois elas vendem “como pan caliente”, brinca alguém. Ronald fatura 50 mil bolívares por dia com os livretos, por baixo. O salário mínimo do país é de 500 mil bolívares, mais ou menos 250 dólares no câmbio oficial – o governo não conseguiu acabar com o mercado negro, onde o dólar é comprado por mais do dobro.

A misión Barrio Adentro, que levou saúde gratuita de qualidade às populações mais carentes do país, é reconhecida pela própria Federação dos Médicos, de oposição, como “clínicas muito bem dotadas, com tecnologia de ponta”. No entanto, o governo parece ter optado pelo caminho do conflito ao utilizar médicos cubanos para executar o projeto: mais de 15 mil médicos vieram da ilha de Fidel para atuar no Barrio Adentro, com salários, de acordo com a Federação, três vezes maiores do que os locais. Isto num país extremamente nacionalista, onde as brigas de Chávez com Álvaro Uribe, da Colômbia, ou com o rei Juan Carlos, da Espanha, só contam pontos a seu favor. “Para cada 10 médicos cubanos há três venezuelanos. E o pior é que eles nem mesmo tiveram seus diplomas revalidados”, critica a vice-presidente da Federação, Dianela Parra.

“É mentira, os cubanos não ganham o dobro. Mas é verdade que os médicos venezuelanos ficaram de fora, porque se recusam a subir as favelas. Se há uma profissão classista no país é a da medicina. São todos filhos de médicos e se formam para trabalhar em clínicas particulares”, rebate o ministro Jesse Chacon, das Telecomunicações e Informática (é dificílimo falar com um membro do governo). Chacon personifica o pensamento do governo: Chávez não está nem aí para o que pensam as pessoas de maior poder aquisitivo. “Nosso governo quer abrir espaço para os excluídos. Os ricos não são prioridade mesmo”, resume o ministro.

Uma crítica que seguramente se pode fazer a Chávez é ao excesso de personalismo. Toda propaganda governamental traz uma foto do presidente, sua imagem está em toda parte. Na reta final do referendo, isso se intensificou: ele falava o dia inteiro. No lugar da RCTV, está no ar a TVes, (Televisão Venezuelana Social), já apelidada de “que bien te ves”, porque o comandante e as notícias positivas a favor do governo monopolizam a programação.

Nas estações do metrô, músicas a favor do soavam nos alto-falantes sem qualquer espaço para os oposicionistas. A estratégia do governo era dar um caráter plebiscitário ao referendo. Quem vota No está contra Chávez, diziam os anúncios. Conclamava-se à “lealdade”, como se quem discordasse das reformas fosse traidor, como foi dito sobre o general Raúl Baduel.

Neste aspecto, o único “rival” de Chávez é Simon Bolívar. Se não é o presidente, é ele quem está em cartazes, paredes, propagandas. Numa tenda de santería (o candomblé venezuelano) em Caracas, encontramos as imagens do Negro Felipe, da Negra Francisca, do índio Paramaconi e… do Libertador. Sim, de tão adorado, Bolívar chega a ser utilizado como uma espécie de “caboclo”. Dizem que incorpora, baixa nas sessões. Uma mãe-de-santo, Miriam, explica que as pessoas lhe fazem pedidos, de abundância nos negócios até sorte no amor. Basta acender uma vela de prata. Não se sabe se é piada ou não, mas comenta-se que Chávez sempre deixa uma cadeira vazia a seu lado, para o Libertador.

Alvo de tamanha idolatria, Bolívar é disputado por chavistas e esquálidos. Uma frase pronunciada pelo Libertador em um discurso feito em 1819 é o mais contundente argumento usado pela oposição contra a reforma constitucional: “Nada é tão perigoso como deixar um mesmo cidadão permanecer longo tempo no poder. O povo se acostuma a obedecer-lhe e ele se acostuma a mandar. Daí vêm a usurpação e a tirania”. Se até o ídolo máximo e inspirador de Chávez tinha idéias diferentes das suas, talvez agora seja o momento para o comandante de começar a aceitar a existência de pensamentos distintos, sem que isso signifique ser traidor ou burguês.


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Bob 'mecânico' em 13/11/2013 - 12h55 comentou:

Cynara Menezes não resta duvida de sua boa intenção e honestidade, porem é importante frisar que em se tratando de Chaves e sua mentalidade econômica os resultados são uma negação. Hoje, novembro de 2013 veja porque situação esta passando aquele país. Controle de preços, faz lembrar o Brasil dos tempos do Sarney e o plano cruzado, falta de tudo do básico e essencial. Agora o próprio governo incita a população a invadir rede de lojas de eletro domésticos, isso é o fim da picada. Ali já é uma Cuba, depois mais tarde a miseria se estenderá por toda a sociedade e ai vão culpar quem, o papa, da pobreza no país?

O que está segurando essa politica populista do bolivarianismo venezuelano são os petrodólares, deixa isso acabar para ver para onde esse assistencialismo e dirigismo econômico de economia planificada ao estilo soviético onde vai para tudo aquilo ali – numa enorme crise. Veja como está os níveis de violência e criminalidade por lá, total insegurança naquele país.

Responder

    morenasol em 13/11/2013 - 13h02 comentou:

    não esqueça que os produtores estão boicotando o governo, escondendo produtos. assim também não é muito fácil governar…

    Bob 'mecânico' em 13/11/2013 - 14h14 comentou:

    Como se diz, quem não tem memoria dos erros cometidos na historia está fadado a repeti-la, já bem no inicio do seculo XX, nas duas primeiras décadas, não faltou advertência de alguns economistas, como o caso por exemplo de Von Mises que escreveu sobre a questão dos controles de preços e intervencionismo na economia de mercado, ele e muitos outros nunca deixaram de estar atualizados.

    Mais de quatro mil anos de historia escrita, e varias experiencias de controles de preços fracassados um após outro. O império romano caiu nos braços dos bárbaros e virou numa Europa feudal após um longo período de controles de preços, inclusive dos produtores rurais. O intervencionismo econômico leva fatalmente a mais intervencionismo, até engessar totalmente a atividade econômica.

    flaliman em 10/06/2014 - 19h18 comentou:

    Esse povo socialista não se lembra dos tempos do Sarney, de suas tabelinhas de preços e fiscais de boton no peito… não se lembram dos resultados desastrosos, se esqueceram das crises de desabastecimento e da inflação a 83%!! ser socialista é ser cego ao obvio!!

    Bob 'mecânico' em 13/11/2013 - 14h41 comentou:

    Mais uma reflexão
    A Venezuela está com uma inflação altíssima e para um bom entendedor de economia ela é causada pelo governo e sua politica monetária. Depois botam a culpa no capitalismo e livre mercado, mas quando examinar com uma lupa lá esta as digitais do governo na cena do crime.

    …………………………………………………………………………………………………………
    "Observações sobre as causas do declínio da civilização romana" http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=1348

Nando Xavier em 15/03/2015 - 23h17 comentou:

Absurdo. Venezuela de Chavez? Ele é o dono? Ah… e sobre o boicote… claro… capitalista adora ter prejuízo, né??? Que texto ridículo!

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