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Vítima esquecida do terror

Na CartaCapital da semana O caso da mineira Maria Celia de Mello Lundberg é uma daquelas histórias que a direita brasileira teima em ignorar quando se trata de avaliar as barbaridades cometidas pela ditadura. Celia tinha 27 anos ao ser presa em 1971. Foi torturada e violentada sexualmente. Seu crime: participar de reuniões da Ação […]

(arquivo pessoal)
Cynara Menezes
06 de outubro de 2012, 18h04

(arquivo pessoal)

Na CartaCapital da semana

O caso da mineira Maria Celia de Mello Lundberg é uma daquelas histórias que a direita brasileira teima em ignorar quando se trata de avaliar as barbaridades cometidas pela ditadura. Celia tinha 27 anos ao ser presa em 1971. Foi torturada e violentada sexualmente. Seu crime: participar de reuniões da Ação Libertadora Nacional (ALN), organização clandestina, e dar aulas de alfabetização para adultos. Nunca participou de ações armadas, assaltos a banco ou sequestros. Nunca “matou inocentes”, como afirmam os defensores do regime a respeito dos militantes de esquerda que ingressaram na guerrilha. A inocente era ela.

 Hoje com 68 anos, Celia Lundberg é uma das vítimas da ditadura, cujo processo será submetido a julgamento pela Comissão de Anistia na segunda-feira 8. Ela pede do Estado brasileiro uma aposentadoria para que tenha a possibilidade de voltar a viver no País. Ao sair da prisão, e com medo de ser presa novamente, a militante fugiu para o Chile, e de lá, após o golpe militar que derrubou Salvador Allende, em 1973, foi para a Suécia. Casou-se com um sueco que havia conhecido na capital chilena, Karl Svante Lundberg, e teve dois filhos. Formou-se em Fisioterapia e exerce a profissão como autônoma.

Neste meio tempo, veio algumas vezes ao Brasil, por razões de enfermidade na família ou para enterrar parentes: a mãe, o pai. Voltar à terra natal sempre significou abrir velhas feridas. Pelo Skype, ela interrompe várias vezes a entrevista, sem conseguir segurar o choro. As lembranças ruins vêm à tona: os policiais armados com metralhadoras invadindo o apartamento em que ela morava, em Belo Horizonte, com 8 dos 11 irmãos estudantes. Os pais viviam na cidade de Salinas, norte de Minas Gerais. Celia tinha acabado de se formar na Universidade Católica. O irmão, Hervê, estava preso no Dops mineiro quando a levaram.

Formada em Geografia e em Educação Física, Celia Lundberg tinha entrado na ALN por influência de Hervê, militante do grupo. Desde pequena, conta, sentia-se indignada com as desigualdades sociais no Brasil. Seu pai, um homem conservador, “mas justo”, como o define, era feminista, e deu oportunidade de estudo igual aos filhos e filhas. A mineira diz que se sentia “doída” de ver que alguns pudessem ter tudo, enquanto outros não tinham nada. Entrou para a ALN e acabou presa. Os pais nunca souberam das torturas sofridas nos porões da ditadura.

“No Dops me falavam que eu tinha feito milhões de coisas, mas nunca participei de nada pesado”, conta Celia, que tem uma memória confusa em relação ao que ocorreu na cadeia. Lembra-se do tenente que era o chefe da operação, mas não exatamente de seu rosto. Tampouco recorda a face de seus torturadores. “Muitos de nós não somos capazes de reconhecê-los. É como os judeus que saíram dos campos de concentração. Com certeza todos lembram perfeitamente dos maus-tratos que sofreram, mas não do rosto dos algozes.”

As noções de tempo são inexatas. A ex-militante não sabe se foram dias ou meses trancafiada no Dops. Quando foi promulgada a lei da anistia, em 1979, ela retornou ao Brasil pela primeira vez após o exílio. Com seu primeiro filho com poucos meses de vida, foi ouvida em interrogatório. O marido ficou do lado de fora com a criança. A brasileira saiu aos prantos, com a sensação de haver passado horas lá dentro. Só depois Karl lhe revelaria que, na verdade, tinham sido apenas 30 minutos.

É muito difícil perguntar para um ex-torturado os detalhes dos maus-tratos. No depoimento por escrito à Comissão de Anistia, ela conta ter sido submetida “a interrogatórios, torturas psíquicas e físicas”. Também ouvia o irmão, Hervê, ser espancado. “Fui removida da minha cela para outro quarto, que, provavelmente, era a sala de ‘trabalho’ dos nossos torturadores. Em uma parede, pude ler o nome de Dan Mitrione, o americano especialista em torturas que havia estado ali no Dops e depois seguiu para o Uruguai, obviamente com as mesmas incumbências.”

Quando reagia aos gritos do irmão torturado, Celia ouvia dos algozes ameaças de represálias contra sua família ou de aniquilamento de Hervê. “Havia raros momentos esperançosos, quando se abria a porta de minha cela e, assim, eu e meu irmão tínhamos a oportunidade de nos comunicarmos por sinais, já que as celas davam vista uma para a outra”, escreveu.

As sequelas psicológicas são evidentes. “É uma ferida profunda. O que mais fiz na vida foi tentar esquecer. Principalmente trabalhando, para não ficar louca.” As marcas no corpo ela esconde com roupas de mangas compridas: manchas causadas pelas queimaduras com brasa de cigarro nos braços e nas pernas. O estupro resultou numa gravidez, interrompida por um aborto espontâneo. Até hoje ela não pode escutar a água da torneira pingando, um dos clássicos métodos de tortura. E dormir de barriga para cima a faz lembrar de ficar contando os quatro cantos da cela para tentar acelerar os dias.

Já no exterior, a mineira ouvia com descrédito as notícias de que a ditadura estava no fim. “Eu achava que não ia acabar nunca.” E a lei da anistia causou-lhe revolta. “A tortura é uma coisa bestial. Os torturadores teriam de ter pagado, não com a mesma moeda, mas com a prisão. Aquele tenente que não esqueci, do Dops de Belo Horizonte, nunca sofreu nenhuma punição. Não acho isso justo.” Uma das boas-novas, afirma, foi a eleição à Presidência de Dilma Rousseff, uma ex-guerrilheira. Celia ficou feliz. E, pela primeira vez, sentiu vontade de voltar para casa.

“Entrei com o processo por insistência de amigos. Na realidade, eu não queria remexer nesse assunto, cujas recordações me fazem muito mal. Mas, com esse dinheiro, eu teria a possibilidade de regressar e viver no Brasil”, diz. “Essa indenização, entretanto, não vai ressarcir nem um centésimo do mal que o terrorismo de Estado brasileiro me causou. Os terroristas continuaram com seus vencimentos normalmente, sem ter de apresentar nenhum requerimento para isso. Nunca precisaram ter seus casos julgados por nenhuma comissão. Muitos foram promovidos.”

 


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