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A estratégia do medo, velha conhecida dos brasileiros, e a eleição argentina

Macri acusa Massa de usar o medo contra seu ex-desafeto e agora aliado Milei; mas essa estratégia tem beneficiado movimentos reacionários, não progressistas

O candidato Javier Milei. Foto: Cris Sille/Télam
Cassio Sader
07 de novembro de 2023, 18h11

No primeiro turno das eleições presidenciais argentinas, os marqueteiros brasileiros voltaram a ocupar notas de jornal e entrevistas no Brasil devido à sua atuação na campanha do candidato peronista Sergio Massa. Entretanto, foi na primeira semana do segundo turno –o balotaje, como dizem no país vizinho– que o ex-presidente Maurício Macri fez uma inesperada citação.

Macri, cuja rejeição o levou a desaparecer da campanha de sua candidata, Patricia Bullrich, demonstrou um entusiasmo surpreendente ao apoiar Javier Milei. Em programas de rádio e TV, ele exortou os eleitores a não se deixarem levar pelas “campanhas de medo” que alegadamente foram usadas contra ele em 2019, quando perdeu a reeleição para o atual presidente, Alberto Fernández. Segundo Macri, a estratégia do medo teria sido importada da política do Brasil por marqueteiros brasileiros e agora estaria sendo usada contra Milei.

A metáfora para explicar a adesão a um candidato de extrema-direita é curiosa: descreve a Argentina como um carro viajando a 100 km/h em direção a um possível acidente, e Macri diz que os argentinos devem se atirar: “Você sobreviverá? Não sei, mas há uma chance”

É interessante notar que o consultor de comunicação de Sérgio Massa, Antoni Gutiérrez-Rubí, abordou este tema em uma entrevista concedida a Juan Carlos Monedero em 4 de novembro de 2019. Gutiérrez-Rubí, que na época estava lançando o livro Gestionar las emociones (“Gerir as emoções”), após responder qual a distinção entre gerir e manipular emoções, bem como a questão de se os consultores devem ou não compartilhar afinidades com seus clientes candidatos, abordou a utilização do medo (e da esperança) em campanhas eleitorais, e sobre o papel das emoções na política.

Um desafio que Gutiérrez-Rubí menciona na entrevista é o sentimento de medo em relação ao futuro, associado à ideia de que a vida era melhor no passado, criando uma ilusão de que é possível retornar a esse estado anterior. Isso é especialmente relevante no contexto político, onde o medo, quando explorado, pode servir como um combustível para movimentos reacionários.

Na disputa argentina, que se desenvolve entre um político experiente e moderado e um inexperiente anarco-capitalista que adotou uma motosserra como símbolo de campanha, os 30% dos votos obtidos por Milei refletem a ausência de medo em relação à mudança, ou seja, uma disposição para o desconhecido de uma grande parcela da sociedade.

Pesquisas qualitativas revelam que os jovens que apoiam Milei alegam que todos os políticos são iguais, que não faz diferença que partido esteja no poder. Eles argumentam que, independentemente das mudanças no governo, nada realmente se transforma ou melhora. Portanto, optam por adotar a postura de “rompan todo”, uma variação do lema “¡Que se vayan todos!” que surgiu durante o caos de dezembro de 2001, quando a Argentina mergulhou em uma crise profunda e generalizada de representação política.

Esse lema refletia o desencanto da população em relação à classe política. No entanto, nas eleições seguintes, os governadores em exercício venceram em 20 das 24 províncias, independentemente de sua afiliação política. O que realmente mudou como resultado da crise de 2001 foi o enfraquecimento dos partidos políticos e o ressurgimento do personalismo, com figuras como Néstor Kirchner, Elisa Carrió e Macri, cujas lideranças eram mais influentes do que as siglas. A energia das manifestações se dissipou, não encontrando uma expressão política.

Na disputa argentina entre um político experiente e moderado e um inexperiente anarco-capitalista que adotou uma motosserra como símbolo, os 30% dos votos de Milei refletem a ausência de medo, uma disposição para o desconhecido de uma grande parcela da sociedade

A partir de 2003, os jovens desempenharam um papel crucial na ascensão do kirchnerismo, que renovou o tradicional movimento político peronista com a vitória de Néstor Kirchner sobre o também peronista, mas neoliberal, Carlos Menem. Néstor e Cristina Kirchner venceram três eleições presidenciais consecutivas, revitalizando  a maior referência da política tradicional que havia perdido força. Duas décadas após a primeira vitória kirchnerista, a maior parte daqueles eleitores ainda se mantém no mesmo campo político, enquanto os jovens de hoje, desiludidos, veem em Milei uma possibilidade de mudança.

No balotaje argentino, Massa e Milei disputam os eleitores de Bullrich, que terminou em terceiro lugar e atraiu principalmente eleitores mais velhos. A aliança entre Milei e o ex-presidente Mauricio Macri busca conquistar esses votos, mas corre o risco de afastar os eleitores mais jovens, que podem perceber a aliança como uma perda de identidade de “outsider”. Milei, que chamava Bullrich de “montonera explotabombas”, publicou um tweet meigo após o primeiro turno com o leão (ele) abraçando Patricia (“Pato”, apelido dela).

O desafio duplo da estratégia de comunicação de Massa, sob a orientação de Gutiérrez-Rubí, reside em potencializar a perda de apoio de Milei entre os jovens, que podem ver a aliança com a política tradicional como uma traição à sua mensagem inicial, e, ao mesmo tempo, apresentar Massa como a única opção confiável para os eleitores mais velhos, em comparação com seu adversário.

Para uns, os mais jovens, convencer que Milei não é a mudança radical que diz ser, e para outros, os mais velhos, convencer que Milei é a mudança radical que diz ser.

Em 1998, durante a campanha de reeleição de Fernando Henrique Cardoso, um comercial de campanha retratou um piloto de avião na cabine de comando, comparando a governança do país a pilotar um avião. O anúncio argumentava que arriscar com um candidato inexperiente era imprudente. O adversário de FHC era Luiz Inácio Lula da Silva, e FHC acabou sendo reeleito.

A metáfora que justificou a adesão de Macri a um candidato de extrema-direita é curiosa: ela descreve a Argentina como um carro viajando a 100 km/h em direção a um possível acidente, e Macri diz que os argentinos devem se atirar: “Você sobreviverá? Não sei, mas há uma chance”, diz ele.

E você, tem medo de quê?


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